Jornalista cultural
Quinze homens e um segredo (que não era deles)
Em relato que abalou o meio literário, escritora Vanessa Barbara expôs rede de mentiras de seu ex-marido, o editor André Conti, em caso que envolve alguns dos escritores mais bem-sucedidos do país
Reelaborar o trauma quantas vezes for preciso é um processo natural às vítimas. Quem já adoeceu afogado em silêncio sabe quão labiríntico é o percurso da cura. Não se sobe apenas uma vez para pegar ar. A superação é substância escorregadia feita de tempo, coragem, escavadeiras e escombros. Mas quem nunca precisou decifrar as trincas no próprio casco talvez não compreenda. Dirá que isso é coisa para répteis malcheirosos. E, quando uma mulher ousa desenterrar o mal que lhe foi feito expondo raiz, rizoma, adubo e todos os ramos, são esses os que correm para reencenar a mesma coreografia cansada de sempre: a invalidam, desacreditam e punem.
“Até hoje eu sofro represálias por falar sobre o abuso que sofri. ‘Não pega bem. Não é educado. Não foi bem assim'”, conta a escritora Vanessa Barbara no último episódio do podcast Rádio Novelo Apresenta, “CPF na nota?”, sobre uma violência psicológica praticada há catorze anos pelo ex-marido André Conti, sócio-fundador da editora Todavia, e uma dúzia de coadjuvantes do sexo masculino, alguns mais e outros menos pactuantes, também escritores e jornalistas, na faixa dos 30 anos. O quiprocó envolve uma traição, um vórtice de mentiras e um grupo de e-mail radioativo.
Vanessa já havia revisitado o incidente em outras ocasiões, mas, desta vez, houve uma diferença crucial: sua fala começou a furar a bolha da elite literata, intelectualizada, instruída, teoricamente progressista e defensora da equidade – e os ouvintes exigiram um epílogo. O que passou relativamente incólume em 2011 não passa mais em 2025, e sintoma notório disso foi o pronunciamento público, após pressão social, da maior parte dos envolvidos.
As notas de esclarecimento (algumas que parecem saídas direto do ChatGPT, é verdade) são um começo, mas, para além delas, é preciso examinar e transformar as dinâmicas de poder que sustentaram por tempo demais o pacto de omissão masculino (integrado também por mulheres). Na postagem da editora Todavia, internautas, que não servem só para apedrejar, deram algumas boas sugestões, como doações para organizações que auxiliam mulheres vítimas de violência e cursos gratuitos sobre como elaborar traumas por meio da escrita.
Enquanto isso, houve quem, autoproclamando-se “feminista de verdade”, preferisse atacar a escrita, os hobbies e até a aparência de Vanessa, como se tais aspectos pudessem deslegitimar sua experiência. É claro que pessoas evoluem, e não interessam aqui linchamentos ou análises maniqueístas dos fatos – não, ninguém é inteiramente mau, e estar copiado numa lista de e-mails não quer necessariamente dizer algo (geralmente quer, mas a generalização empobrece o debate). Mas também não sejamos títeres. O perigo de reduzir o ocorrido a uma “conversa de vestiário” é que o que deveria estar em foco – a revisão de práticas, a redistribuição de poder, a escuta ativa das vítimas – perde espaço para banalizações e ataques rasos. Quando o que ganha os holofotes é uma suposta rivalidade feminina, o patriarcado vence. De novo.
Este é um caso individual, mas é também sistêmico, enraizado em uma cultura de complacência que mantém o agressor ileso enquanto o foco se desvia para quem ousou falar. Mas já estamos cansadas de saber que a culpa e a vergonha precisam mudar de lado. Mulheres que expõem violências carregam não só o peso de suas memórias, mas também o do julgamento popular – sobre elas e sobre seus abusadores –, e esta é uma conta que não deveria caber a elas pagar.
Nesse drama privado em arena pública, aliás, alguns se esquecem de que quem escolheu levar o enredo para o campo de batalha coletivo não foi Vanessa, que teve detalhes íntimos de sua vida expostos sem seu consentimento em um grupo composto por quinze homens. Por isso é tão significativa sua insistência em falar. De novo, e de novo. Falar para desalojar fantasmas, para transformar cicatriz em mapa, para reordenar poderes assimétricos cobertos com dois mil anos de poeira. Falar para voltar a caminhar com o peso exato de si mesma.
Talvez o que mais comova nessa história é que ela ressoa em ecos universais: é também a história de tantas de nós, de nossas amigas, de nossas mães. Mas, graças à coragem de mulheres como Vanessa, com sorte não será a de nossas filhas. Cada novo relato – um ato de resistência e também um risco – é um golpe nas estruturas que blindam os opressores. Não podemos nos acomodar jamais, pois estamos sempre à beira de um retrocesso, e a vigília não pode parar. A cura é coletiva e não acontece no vácuo. E esta não é apenas mais uma análise do passado, mas um manifesto pelo futuro. Seguimos.