Marília Kodic

Por Marília Kodic

Jornalista cultural

Por
Marília Kodic
, colunista Marie Claire Brasil — São Paulo


Deborah Levy: 'Nunca fazer perguntas é depressão. Nunca ter respostas é repressão' — Foto: Sheila Burnett
Deborah Levy: 'Nunca fazer perguntas é depressão. Nunca ter respostas é repressão' — Foto: Sheila Burnett

A escrita de Deborah Levy parece caminhar em direção ao centro da experiência humana, mesmo que por caminhos oblíquos, e talvez por isso seja impossível não se deixar levar. Sul-africana radicada em Londres, filha de um ativista anti-apartheid preso quando ela era criança, Levy parece ter entendido cedo que escrever é também político – e que o mundo é tanto o que se vê quanto o que se escolhe contar. Três vezes finalista do Booker Prize e autora de romances, peças, poemas e ensaios, se prepara para lançar no Brasil A Posição das Colheres (Autêntica Contemporânea). Uma coletânea sobre ponderações diversas, da beleza dos limões ao fim de um casamento. Ao atravessar suas palavras, o mundo se revela um pouco mais inquietante – e, portanto, mais verdadeiro.

Marília Kodic: Qual a primeira coisa que pensou hoje ao acordar?

Deborah Levy: Nos damascos maduros e perfumados na tigela da minha cozinha e no mel que um amigo trouxe do México — será que dariam um café da manhã? Também pensei em como adoraria criar galinhas para ter ovos frescos, mas moro no 6º andar de um prédio em Londres.

MK O que é mais interessante, a ficção ou a realidade?

DL A transição da realidade para a ficção é o que move meus livros. Concordo com o poeta Ferreira Gullar quando escreveu: “A arte existe porque a vida não basta”. Por outro lado, às vezes, simplesmente segurar um tomate perfeito e inalar seu aroma almiscarado é muito mais interessante do que um romance ruim.

MK Escolha um autor clássico e um contemporâneo para criticar seu trabalho.

DL Preferiria artistas como Goya, Leonora Carrington e Francis Bacon para criticar meu trabalho.

MK Você escreve mais para buscar respostas ou estimular dúvidas?

DL É impossível escrever sem fazer perguntas. Mas aquele momento de clareza no processo de escrita acontece quando o autor encontra algo verdadeiro. Nunca fazer perguntas é depressão. Nunca ter respostas é repressão.

MK Se seus personagens ganhassem consciência, se revoltariam contra seu criador?

DL Estamos sempre nos rebelando contra nossos criadores terrenos, começando por mamãe e papai.

MK Qual é a cara do romance contemporâneo?

DL Belos e suaves lábios em uma tempestade. Abre-se a boca e ouvimos algo imensamente poderoso e frágil – e, aolonge, escutamos “Summertime Sadness”, da grande Lana Del Rey.

MK Cite um livro subestimado. Qualquer obra de Jean Genet, incluindo suas peças e ensaios.

DL Em que universo literário viveria por um ano? O oceano Egeu é meu universo de néctar azul profundo. Preciso nadar nele todo ano e, se pudesse, nadaria todos os dias. Mas preciso pagar as contas, trocar as lâmpadas do escritório e terminar meu próximo romance – é difícil fazer isso dentro do oceano.

MK Que canção gostaria que fosse um livro?

DL “Formidable”, do Stromae. Amo tantas de suas músicas incríveis.

MK Que leitura recomendaria ao seu presidente?

DL Sigmund Freud e Frantz Fanon sempre enriquecem nossa compreensão do comportamento humano. Que aspecto da realidade mais te parece ficção? Gostaria que a maioria das notícias políticas que estou ouvindo no momento fosse ficção.

MK A literatura serve mais para entender o mundo ou escapar dele?

DL É absolutamente necessário escapar do mundo e também entendê-lo. É um conhecimento doloroso. Então tudo bem fazer uma pausa com um café e um cigarro.

MK Qual o último livro que você amou?

DL The City Changes Its Face, de Eimear McBride.

MK Sobre o que ainda gostaria de escrever?

DL O corpo humano em diversas paisagens. E talvez outro corpo humano por perto – para dar a ambos alguns problemas e desejos.

MK O que está escrito no epílogo da sua vida?

DL Ela viveu e morreu. Se quiser saber o que aconteceu entre uma coisa e outra, leia todos os seus livros.

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