Jornalista cultural
Noemi Jaffe: 'A literatura perturba as concepções convencionais'
Noemi Jaffe, professora e autora de romances elogiados, acaba de lançar 'Te Dou Minha Palavra' e responde ao questionário literário
A lembrança muitas vezes pesa menos quando convertida em palavra. Como uma ourives da memória íntima e coletiva, Noemi Jaffe dá corpo, liga e brilho aos fragmentos mais resistentes da história por meio de sua escrita. A professora e crítica literária é autora de romances elogiados como O Que Ela Sussurra (2020), que reconstitui os ecos de uma vida sob o regime stalinista, e Lili (2021), que tem o luto pela morte da mãe no centro da narrativa, além de obras que exploram a linguagem e o fazer literário. Agora, acaba de lançar Te Dou Minha Palavra (Companhia das Letras; 208 págs.; R$ 79,90), em que revisita a própria juventude como filha de imigrantes sobreviventes da Shoá. A seguir, ela fala de Borges, Goeldi e o problema do romance contemporâneo.
Você é abduzida e levada a um planeta distante. Como explica a literatura para espécies alienígenas? A literatura é a forma que os humanos inventaram de inventar coisas que não existem para melhorar o que existe.
O que é mais interessante, a ficção ou a realidade? A ficção, quando ela torna a realidade mais ampla e espantosa.
Escolha um autor clássico e um contemporâneo para criticar seu trabalho. Clássico: Emily Dickinson; contemporâneo: Patti Smith.
Se seus personagens ganhassem consciência, eles se revoltariam contra seu criador? Acho que sim. Elas discordariam da forma como eu as fiz falar.
Qual é a cara do romance contemporâneo? Infelizmente, o romance contemporâneo tem sido marcado pela tematização, o que considero problemático.
Se pudesse baixar todo o conhecimento literário da humanidade no seu cérebro, isso melhoraria ou pioraria sua escrita? Provavelmente, pioraria e me tornaria uma espécie de IA ainda mais precária.
Cite um livro subestimado. Noite dentro da Noite, de Joca Reiners Terron, não mereceu a atenção devida, nem da crítica, nem do público e nem dos prêmios.
Que personagens literários escolheria para serem seus pais? Phileas Fogg, de A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne; e a mãe de Miguilim, da novela homônima de Guimarães Rosa.
Em que universo literário viveria por um ano? Tlon, o planeta inventado por Jorge Luis Borges.
Que canção ou obra de arte gostaria que fosse um livro? Gostaria que as gravuras de Goeldi se transformassem num livro de contos sobre a noite e a solidão.
Que leitura recomendaria ao presidente da República? A Queda do Céu, de Davi Kopenawa.
Que aspecto da realidade ou acontecimento do noticiário recente mais te parece ficção? O caminhão de gás tocando a quinta sinfonia em plena Teodoro Sampaio.
A literatura serve mais para entender o mundo ou escapar dele? A literatura serve para perturbar as concepções convencionais do mundo.
Qual o último livro que você amou? Poeta chileno, de Alejandro Zambra.
Sobre o que ainda gostaria de escrever? Sobre uma pianista que toca Chopin.
O que está escrito no epílogo da sua vida? Um haikai de Bashô: “casca oca a cigarra cantou-se toda”.