Michelli Provensi

É sempre sobre o corpo da mulher, que chato é esse looping do mundo. Enfim, esta coluna não deseja fazer apologia à magreza, mas uma reflexão: é mais fácil estampar a saboneteira duma mulher de 20 e poucos anos e culpabilizar as modelos, do que procurar entender de onde vem o desejo do sistema de vender essa estética de corpos magros.

Esta temporada feminina de prêt-à-porter terminou, e li muitas reportagens sobre a volta da magreza extrema às passarelas. Não lembro de ter visto nada assim na masculina. Ou os homens não são relevantes no mercado, ou só prestamos atenção em como o corpo feminino é usado para vender moda.

Muito se fala do retorno aos anos 2000 nas tendências. Eu era new face à época e vivi as pressões na carne para se ter um corpo mais magro do que o já magro corpo que me carrega. Foram anos para deixar meu corpo ser da maneira que ele quer ser e, pasmem, descobri que meu corpo é magro e avesso a medidas. Dane-se o tamanho da minha bunda, se está grande ou pequena!

Três anos atrás, mandei fotos para um casting de publicidade e recebi a resposta que meu braço era muito magro, que o mercado queria uma mulher real. Fiquei com isso entalado na cabeça e aproveitei para refletir sobre o meu lugar nessa indústria. Celebrei o fato de outros corpos estarem tendo espaço.

Dei um passo atrás, talvez fosse a hora de tentar me vender por quem eu sou e não pela maneira que meu corpo escolheu para existir. Poderia ter caído na paranoia de engordar forçosamente para tentar me encaixar naquilo que a indústria pedia naquele momento, contudo achei mais saudável sair de cena e dar espaço, seguir fazendo trabalhos para quem quisesse trabalhar com aquilo que é o meu corpo e a minha personalidade, e não um saco de medidas estéticas.

Eu em um ensaio no início dos anos 2000 — Foto: Divulgação
Eu em um ensaio no início dos anos 2000 — Foto: Divulgação

No entanto, como tudo na moda se mostra apenas uma moda, três anos passaram e parece que não vingou o tal corpo real. Talvez ele nunca tenha sido aceito. O que faz um corpo ser chamado de "real"?

O legal seria ter corpos diversos nas passarelas e na publicidade, sem especificar os diâmetros de cada maneira de existir. Não forçar que um manequim 38 emagreça para servir num 36, um 40 suba para 44, ou só eleger corpo gordo de rosto magro, ou corpo magro sem bochechas e por aí vai.

Conversei com minha amiga ex-modelo e hoje dona de agência que coloca modelos em lugares de prestígio no circuito internacional, para tentar entender como a atual temporada reflete, mexe na cabeça das meninas que ela agencia e a resposta foi: "Michi, está cada vez pior!".

O buraco vazio que não é permitido ser preenchido por baguette, é mais acima.

Ana me contou que uma de suas modelos viajou a Paris e não foi apresentada aos clientes porque, segundo os agentes de lá, estava fora de forma. Me mostrou as digitais --os polaroides-- da modelo de biquíni, e o que vi foi uma menina de 1,80 m de altura, magra no limite de sua estrutura óssea, com 94 cm de quadril. Uma menina que possivelmente fica ansiosa e triste, se comparando com as outras, pensando se não deveria fazer uma raspagem no quadril pra quem sabe ter a oportunidade de ser vista.

Vejo as fichas técnicas dos desfiles celebrados pela indústria, e a maioria de quem dirige os castings são homens. São eles a ponte entre essas meninas e os estilistas que, muitas vezes, também são homens. O buraco é mais acima porque, nessa cadeia, eles têm o poder de dizer quem brilha a cada temporada. A modelo é o operário que tenta moldar seu corpo na maneira que outros escolheram ditar. E, se tiver oportunidade, vai puxar saco para ter direito de existir no jogo.

Quem não deseja trabalhar, pagar suas contas? Afinal, quem responsabilizar pelo peso que recai sobre o corpo que desfila?

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