Rachel Campello

Por Rachel Campello

Jornalista e nutricionista especializada em saúde da mulher

Por
Rachel Campello
, colunista de Marie Claire

Por décadas, circulou a ideia de que uma taça de vinho tinto no jantar fazia bem ao coração. Estudos observacionais sugeriam que o consumo moderado de álcool poderia reduzir o risco de infarto, melhorar o perfil lipídico e até aumentar a longevidade. As pesquisas revelavam que uma ou duas doses diárias estavam associadas a menor incidência de doenças cardiovasculares e, em alguns casos, melhor controle glicêmico.

O álcool também ganhou créditos pelos benefícios psicossociais: relaxamento, socialização, alívio do estresse. Era quase um remédio com gosto bom. Em alguns casos, chegou-se a sugerir que a ingestão controlada de vinho poderia até substituir exercícios físicos.

Recentemente, novos estudos apresentaram uma visão completamente oposta. A ciência hoje determina que não há limites seguros para a ingestão de bebidas alcoólicas. Com isso, as recomendações da Organização Mundial da Saúde mudaram também. Quando a ciência dá esse tipo de guinada, ela produz um ruído que confunde a imprensa especializada, os médicos, os pesquisadores e, principalmente, o leigo: aquela pessoa que, eventualmente, toma uma ou duas taças de vinho no jantar do fim de semana ou numa festa de aniversário, como eu e você.

É preciso colocar os pingos nos is. O que existe de mais atual produzido pela ciência sobre o uso de álcool orienta a nova política pública de saúde que determina: não existem níveis seguros para consumo de bebida alcoólica. Isso significa que até em doses mínimas pode implicar algum tipo de dano à saúde. Os estudos populacionais mais recentes e robustos mostram que quanto maior o consumo de álcool, de fato, maiores os riscos. Consumir bebidas alcoólicas em grandes quantidades e com frequência está associado a maior probabilidade de desenvolver doenças crônicas como hipertensão, demência e cirrose, câncer, além de riscos imediatos como acidentes.

Hoje não há argumentos para contestar as revelações que vêm sendo feitas pela ciência sobre os danos relacionados ao uso de bebidas alcoólicas. Há, porém, uma longa distância entre os riscos a que se submete alguém que toma uma taça uma vez por ano para celebrar a passagem do Ano-Novo e alguém que faz uso contínuo de álcool. As políticas públicas são desenhadas para a população geral e não baseadas em exceções.

Quando é feita uma determinação para reduzir o consumo de álcool, não são levados em conta perfis diferentes. Ou seja, as orientações valem tanto para a pessoa saudável, que pratica atividade física diariamente, segue uma alimentação equilibrada e consome duas taças por semana, como para aquela que é sedentária, fumante e se alimenta de ultraprocessados e álcool.

Essa lógica funciona para todas as políticas públicas. A nova orientação sobre pressão arterial, por exemplo, estabeleceu que 120/80 mmHg, antes considerado normal, é indicativo de hipertensão, embora se saiba que nesse nível ainda não existe risco significativo para a saúde. Essa abordagem é importante quando pensamos em prevenção em grande escala.

Para navegar nesse mar de aparentes contradições e informações desencontradas, existe uma receita universal: entenda quais são efetivamente os danos que o consumo de álcool pode causar a seu organismo. Para as mulheres, o álcool cobra um preço especialmente alto. Por características biológicas e hormonais, elas são mais vulneráveis aos efeitos tóxicos, mesmo consumindo quantidades menores. O risco de câncer de mama aumenta significativamente com o consumo regular, já que o álcool eleva os níveis de estrogênio e ativa mecanismos cancerígenos.

Outros tipos de câncer hormonal também entram na lista de preocupações. O fígado feminino processa o álcool de forma menos eficiente, aumentando a propensão à cirrose. O coração também sofre: mulheres desenvolvem hipertensão e problemas cardiovasculares com doses menores que os homens. O ciclo menstrual se desregula, a fertilidade diminui e os sintomas da menopausa se intensificam. Durante a gestação, qualquer quantidade representa risco ao bebê.

Apesar de todos os riscos conhecidos, o álcool ainda é considerado por muitas pessoas como uma forma de relaxar, socializar, comemorar. Todas essas questões entram na saúde psíquica, tão necessária. Quando a ciência vem a público para informar que não existem limites seguros para consumo de álcool e essa informação é chancelada pelos órgãos públicos, eles estão certos. Mas a aplicação dessa régua é irreal.

Esse tipo de recomendação tem chance mínima de mudar os hábitos dos malefícios do álcool, muita gente vai seguir tomando seu vinho. Esse é um hábito arraigado na sociedade há séculos. A indústria do cigarro continua viva, apesar das mais contundentes evidências dos malefícios de fumar. No caso da bebida, por razões que ainda não estão muito claras, muita gente está reduzindo o consumo. Os primeiros estudos apontam o óbvio: uma maior consciência em relação à saúde e à qualidade de vida.

Nesse cenário, duas tendências estão cada vez mais evidentes. Uma delas são as festas sem álcool, que ganham diferentes nomes: coffee parties, baladas matinais ou festas de mocktails – uma junção das palavras mock (imitação) e cocktail (coquetel). A outra é o despertar da indústria para esse movimento, que vem lançando uma série de produtos novos sem álcool, como cervejas e drinques.

Se esses produtos não são para você ou se você pretende relativizar as orientações de saúde pública e não está disposta a abrir mão da sua caipirinha ou taça de vinho, é importante pelo menos que entenda os efeitos do álcool população inteira. Apesar de conhecer em que medida ele pode produzir danos à sua saúde. Do ponto de vista nutricional, também não há benefícios. O álcool oferece calorias vazias: muitas calorias e nenhum valor nutricional. Cada grama de álcool contém 7 calorias, mais que carboidratos e proteínas. Ele interfere na absorção de diversos minerais e vitaminas, além de comprometer a saúde intestinal e hepática.

Sob efeito do álcool, as pessoas tendem a comer mais e fazer escolhas piores, tanto enquanto bebem quanto no dia seguinte. O organismo passa por alterações metabólicas que afetam o mecanismo da fome e da saciedade. O resultado é um desejo grande por energia rápida, encontrada em alimentos ricos em gordura e açúcar. Na ressaca, ninguém opta por legumes e carnes magras. O corpo quer mais.

E, para fecharmos a conta, deixo o conselho que dou às minhas pacientes quando me perguntam qual é a melhor opção na hora de escolher uma bebida: a melhor é aquela que você bebe menos.

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