Jornalista e nutricionista especializada em saúde da mulher
É possível comer bem e ter saúde sem contar calorias
Durante décadas, tentaram nos nos fazer acreditar que para ter uma vida saudável as mulheres precisavam controlar o seu peso contando calorias. Uma lógica aparentemente irrefutável. Afinal, 500 calorias são 500 calorias, certo? Errado. Pesquisas robustas mostram que o corpo humano não reage da mesma forma a diferentes tipos de alimento, ainda que tenham o mesmo valor calórico. Comer 100 gramas de peito de frango não provoca no organismo os mesmos efeitos que 100 gramas de salgadinho industrializado.
O segundo problema é que essa crença na contagem de calorias alimentou uma indústria de dietas fracassadas e a ilusão do corpo perfeito. Hoje, sabemos que um corpo perfeito permite muitas variáveis e que a receita para uma boa nutrição passa longe de restrição calórica. Até para quem deseja perder peso. Isso significa que é possível comer mais – com qualidade – e ainda assim garantir saúde. E podemos abrir mão do ritual desgastante que é calcular calorias. Porque calorias contam, sim, mas elas não dizem tudo.
A ciência agora aponta para outro foco: não se trata apenas da quantidade, mas da qualidade. Aproveitando o exemplo anterior, uma coisa é ingerir 100 calorias de peito de frango. Por ser uma proteína magra e rica em nutrientes, esse alimento proporciona saciedade, equilíbrio hormonal e menor estímulo à produção de insulina. Bem diferente é consumir essas mesmas 100 calorias na forma de um pacote de salgadinho ultraprocessado. O efeito é o oposto: fome precoce, maior compulsão e, ao final do dia, muitas calorias vazias ingeridas. Em outras palavras: é possível, sim, comer mais e nutrir-se melhor.
Gary Taubes, escritor científico e autor do livro Good Calories, Bad Calories (2007), foi um dos grandes nomes a questionar essa visão simplificada da nutrição. Em sua obra, ele apresenta um argumento sólido: diferentes alimentos geram diferentes respostas hormonais, e isso muda tudo. A insulina, por exemplo, é um hormônio-chave nesse processo. Sua função vai muito além de regular o açúcar no sangue – ela impacta diretamente o metabolismo e a forma como nos sentimos.
Alimentos ricos em açúcar, farinha refinada e ultraprocessados provocam picos de glicemia e, em resposta, picos de insulina. Isso pode levar a ciclos de fome e compulsão, além de afetar nossa energia e bem-estar geral. Mais do que matemática, estamos falando de bioquímica e de necessidades fisiológicas. Os hormônios precisam estar equilibrados para que o apetite seja regulado, o corpo funcione bem e a saúde seja preservada.
Há ainda outras razões para repensar a obsessão por calorias:
- Primeiro: os valores calóricos nos rótulos são apenas estimativas. A legislação brasileira permite uma margem de erro de até 20%. Ou seja, você pode estar consumindo bem mais (ou menos) do que imagina.
- Segundo: contar calorias de alimentos ultraprocessados não faz sentido. Eles nem sempre nutrem e o corpo continuará pedindo mais – porque ainda não recebeu o que realmente precisa. Não é falta de força de vontade. É o corpo tentando sobreviver.
- Terceiro: as fórmulas que estimam o gasto calórico diário não consideram seu metabolismo único, sua genética, seu estilo de vida ou seu histórico hormonal. São generalizações que servem como referência, mas não como verdade absoluta.
- Quarto: dietas hipocalóricas, altamente restritivas, simplesmente não sustentam a saúde no longo prazo. Ninguém consegue viver por muito tempo em estado de privação.
- Quinto: a quantidade de calorias absorvidas depende de vários fatores – do tipo de alimento, do modo de preparo, da presença de fibras, da composição da microbiota intestinal. Um mesmo prato pode ter efeitos completamente distintos em duas pessoas diferentes.
Então, você pode estar se perguntando: “Afinal, calorias contam ou não?” Contam, sim. Servem como parâmetro. Mas essa matemática está longe de ser suficiente porque o que importa é o que o corpo faz com cada caloria. Se elas são usadas como energia, armazenadas, descartadas ou transformadas em gatilhos para mais fome.
A chave está em comer comida de verdade. Frutas, vegetais, proteínas, gorduras boas, carboidratos com baixo índice glicêmico. Com eles, você encontra o equilíbrio que seu corpo precisa. No fim das contas, não se trata de comer menos, mas comer melhor.