Rachel Campello

Por Rachel Campello

Jornalista e nutricionista especializada em saúde da mulher

Por
Rachel Campello
, colunista Marie Claire — São Paulo (SP)


Por que controlar o consumo de açúcar é tão desafiador — Foto: reprodução
Por que controlar o consumo de açúcar é tão desafiador — Foto: reprodução

Enquanto nosso corpo depende de nutrientes fundamentais como proteínas, gorduras saudáveis, vitaminas e minerais para funcionar adequadamente, o açúcar não ocupa esse papel essencial. Ao contrário do que muitos pensam, o corpo humano não necessita de qualquer quantidade de açúcar para manter suas funções vitais. Dentro das diretrizes nutricionais, o açúcar não é citado como algo que deva ser incluído na dieta e, sim, como uma substância que deva ser cortada ou, ao menos, limitada.

O limite de açúcar recomendado pela Organização Mundial de Saúde é de 10% das calorias da dieta. Se você consome 2.000 calorias por dia, o máximo em açúcar seria de 200 calorias – ou seja, 50 gramas de açúcar. O brasileiro, no entanto, consome bem mais. Em média, o consumo chega a 80 gramas. Isso significa 10 quilos no ano.

Recentemente, muito se falou sobre o açúcar ser viciante e uma droga até mais poderosa que a cocaína. Embora ele não seja destruidor a ponto de tirar uma pessoa do eixo e levá-la a perder emprego e relações afetivas, tem o poder de viciar baseado em suas propriedades metabólicas e hedônicas. E, se não podemos comparar seus efeitos aos dos narcóticos, podemos colocá-lo ao lado da nicotina?

Se essa indagação soa exagerada, saiba que médicos, cientistas e órgãos responsáveis pela saúde pública estão com essa pergunta na mesa. Antes de termos a sentença, vale entender o que o açúcar faz no organismo e avaliar se comer açúcar livremente compensa. Aqui, estamos falando de um consumo excessivo, diário e irrestrito. A questão é que perder o controle é fácil. E, embora a nutrição considere o açúcar calorias vazias, pois não nutre, ele não é inócuo. Diversos estudos mostram como o açúcar induz as doenças associadas à síndrome metabólica, como hipertensão, resistência à insulina, dislipidemia, diabetes.

O açúcar vai ainda mais longe, envelhece. Sim, o excesso está ligado a danos na pele pela glicação. Esse é um processo no qual a molécula de glicose se liga a proteína (como colágeno e elastina), responsáveis pela firmeza e elasticidade da pele. Quando isso acontece, a proteína perde força e estabilidade e se quebra. Isso desencadeia diversas alterações no corpo. Na pele, a glicação leva a rugas, flacidez e opacidade. Difícil defender o consumo de açúcar. Difícil.

Quanto mais açúcar comemos, mais queremos comer. Mas, do mesmo jeito que se acostuma, pode se livrar do vício. Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition, um dos periódicos de nutrição mais respeitados no mundo, mostrou que é possível mudar nosso paladar. Os pesquisadores avaliaram a percepção para o doce de um grupo de pessoas que consumia açúcar em grandes quantidades, diariamente. Metade dos participantes seguiu com o doce, enquanto a outra reduziu a ingestão em 40%. Após três meses, repetiu-se os testes e aqueles que tiveram a restrição acharam os alimentos doces demais e até desagradáveis. A vontade “enlouquecida” por um docinho tinha passado.

Convencer nosso corpo de que não precisamos de açúcar é um desafio. Entender rótulos é ainda pior. Pela legislação, a embalagem dos produtos industrializados deve conter o aviso de altas quantidades de açúcar quando o valor ultrapassar 15 gramas em cada 100 gramas de alimento sólido ou semissólido e 7,5 gramas a cada 100 ml de alimentos líquidos.

Mas a indústria encontra maneiras de adicionar açúcar... sem adicionar açúcar. O sabor continua docinho. A confusão está no nome. Você procura por açúcar e não encontra. Existem mais de 262 nomes de açúcar diferentes, que confundem o consumidor. É sacarose, dextrose, xarope, néctar, caldo de cana, entre tantos outros.

Além de monitorar o açúcar adicionado, vale ficar atenta também ao proveniente de frutas (frutose) e leite (lactose). Se a ideia é controlar o consumo, observe produtos adoçados com tâmara ou suco de maçã, que tecnicamente não podem ser considerados açúcar adicionado. Mas nosso organismo não faz essa distinção. O açúcar está aí, servido em grandes quantidades para crianças, adultos e idosos. Sem restrições. O cigarro também já teve esse passe livre. Hoje, apenas 11% da população americana fuma. Se ligarmos os pontos, talvez conseguimos ver que algumas restrições, quando bem construídas, são revolucionárias.

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