Rachel Campello

Por Rachel Campello

Jornalista e nutricionista especializada em saúde da mulher

Por
Rachel Campello
, colunista de Marie Claire

A maioria das mulheres só pensa em menopausa quando os fogachos chegam, quando o sono desaparece ou quando os números na balança começam a subir sem explicação aparente. Nesse momento, aos 50 e poucos anos, elas correm atrás de soluções: hormônios, dietas, exercícios. E funcionam, claro. Mas a verdade é que quem chega a esse ponto está chegando tarde. Não porque seja impossível reverter os danos, mas porque anos preciosos de preparação foram perdidos. O climatério – esse período de transição hormonal que marca a passagem da fase reprodutiva para a não reprodutiva – começa entre os 40 e 45 anos e pode se estender até os 65. E a forma como essa fase será experimentada está sendo decidida agora, no prato que se monta hoje, ainda jovem.

A nutrição finalmente está sendo reconhecida como medicina preventiva. Cada nutriente tem uma função específica no organismo e cada fase da vida da mulher tem necessidades particulares que precisam ser respeitadas. No climatério as demandas são específicas e inegociáveis. Durante essa transição, o corpo feminino precisa de três pilares nutricionais essenciais. Primeiro, proteger a saúde óssea que fica mais vulnerável com a queda do estrogênio. Segundo, apoiar o sistema cardiovascular que perde a proteção natural desse hormônio. Terceiro, manter o metabolismo funcionando adequadamente mesmo com as alterações hormonais profundas. Esses três pilares não se fundem da noite para o dia.

É como construir uma casa: é preciso ter uma base sólida muito antes de colocar o telhado. Não dá para esperar até os 50 anos, quando a menopausa bate à porta, para começar a fortalecer os ossos, proteger o coração e calibrar o metabolismo. A essa altura, o terreno já está comprometido. A densidade óssea que se constrói até os 30 anos é o capital para o resto da vida. A sensibilidade à insulina que se mantém aos 40 determina se haverá resistência metabólica aos 55. A massa muscular que se preserva na perimenopausa define se o envelhecimento será forte ou frágil.

Aliás, a perimenopausa – que pode começar até antes dos 40 anos – é justamente o momento de reset metabólico. É a janela de oportunidade para recalibrar tudo. Para aprender a comer de um jeito que funcione com o novo corpo, não contra ele. Para entender que proteína não é opcional, é obrigatória. Que cálcio precisa vir acompanhado de vitamina D e magnésio para funcionar. Que gorduras boas são aliadas, não inimigas. Que cada refeição balanceada é um investimento no futuro. As adequações nutricionais do climatério não são sobre amenizar sintomas quando eles chegam. São sobre preparar o corpo para essa transição e criar as condições para que essa fase seja vivida com vitalidade e qualidade, não apenas sobrevivida com desconforto e resignação.

Quando se entende que o climatério pode durar décadas, fica claro por que esse cuidado não pode ser adiado. Cada ano conta. Cada escolha alimentar importa. Não se trata de perfeccionismo nutricional ou ortorexia. Trata-se de consciência e consistência. De priorizar alimentos in natura, proteínas de qualidade, vegetais coloridos, gorduras anti-inflamatórias. De respeitar os sinais do corpo, que está pedindo coisas diferentes agora.

Para quem está na faixa dos 30 e ainda se sente distante da menopausa, é fundamental saber que cada refeição feita hoje é um investimento na qualidade da menopausa futura. A genética carrega as cartas, mas a nutrição joga o jogo. E, quanto antes esse jogo começar a ser bem jogado, melhores serão os resultados. Porque o que se come hoje, literalmente, constrói o corpo que vai atravessar a menopausa amanhã.

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