Silvia Chakian
Por
Silvia Chakian
— de São Paulo (SP)


A cidade de Itumbiara, em Goiás, foi cenário recente de uma violência inimaginável. O secretário municipal Thales Machado atirou e matou os próprios filhos, de 8 e 12, e, em seguida, tirou a própria vida, com o declarado propósito de atingir a esposa – mãe das crianças – alegando que ela estaria se relacionando com outro. Não há linguagem capaz de dar conta da brutalidade desse crime, nem da dor dilacerante imposta a essa mulher. O agressor não amava os filhos, a esposa ou a família, como tentou fazer crer na carta de despedida. Amava apenas a si mesmo – e desprezava a vida de quem ousasse confrontar seu desejo de posse, de domínio, seu ego e sua masculinidade frágil.

Um homem capaz de odiar a ponto de matar os próprios filhos, tratando-os como instrumentos descartáveis para provocar sofrimento e incutir culpa na esposa, jamais compreendeu o que é ser pai. A imprensa poderia ter questionado o que essas vítimas teriam vivido ao lado de alguém capaz de tamanha atrocidade, mas não foi o que ocorreu. Trechos da carta macabra e imagens de uma suposta “família feliz”, além de detalhes sobre a alegada “traição”, criaram o ambiente perfeito – em uma sociedade misógina como a nossa – para a inquisição moral. Uma demonstração clara de que a punição simbólica da mulher pode se sobrepor até mesmo à hediondez do crime. O que se segue à tragédia é a violência que não termina.

Enquanto essa mãe enfrentava a dor inimaginável pela morte brutal dos filhos, foi transformada em ré moral do próprio horror que sofreu. Noticiou-se, inclusive, que ela precisou deixar o velório do próprio filho, sendo alvo de olhares, comentários e julgamentos depreciativos. Nas reportagens e nas redes, multiplicaram-se frases como “houve traição”, “o problema foi matar os filhos, que eram inocentes” e “o casal já estava separado”. Como se houvesse qualquer possibilidade de relativizar o absurdo. O foco deixa de ser o assassinato de duas crianças pelo próprio pai, motivado pelo ódio à mãe, e passa a ser, discursivamente, a suposta quebra de uma expectativa moral ligada ao comportamento sexual feminino. Evoluímos muito pouco no enfrentamento dos códigos culturais que orientam a compreensão imediata e complacente do “homem traído”, ao mesmo tempo que se exige das mulheres tolerância e perdão -- tudo em nome da família. O que se viu foi uma tentativa de reorganizar moralmente o enredo: ele, o “homem traído” e desesperado, quase absolvido; ela, alguém que falhou, que se desviou do “dever-ser” esperado de uma esposa e mãe – portanto, merecedora da culpa. Uma inversão absurda, mas que dialoga com o crescimento de discursos que reafirmam papéis rígidos de gênero, exaltam a submissão feminina e reembalam a misoginia como “retorno à ordem”. E também com narrativas que atribuem às mulheres a responsabilidade por controlar a violência masculina – como se fosse seu dever curar, conter ou salvar homens em sofrimento.

Quando uma sociedade passa a discutir a conduta moral de uma mulher no contexto em que um pai mata os filhos para lhe causar sofrimento, não se trata apenas de incoerência ou insensibilidade. Trata-se de estrutura. Da persistência de um imaginário que rejeita mulheres que não correspondem às expectativas patriarcais de fidelidade e submissão. Que tolera no comportamento sexual masculino aquilo que condena no feminino – a ponto de transformá-la em culpada pela tragédia. Pouco adianta a evolução legislativa das últimas décadas, que ampliou os instrumentos de enfrentamento à violência de gênero, se quase nada avança na mudança das posturas sociais que julgam a sexualidade feminina a partir de uma dupla moral. Uma lógica que, ainda hoje, espera das mulheres recato, discrição e um comportamento sexual “adequado” – sempre mais rígido do que o exigido dos homens.

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