Promotora de Justiça, mestre em Direito Penal e autora do livro "A Construção dos Direitos das Mulheres"
O crescimento desproporcional do adoecimento psíquico feminino
No Brasil, um estudo feito pela organização Think Olga apontou que a ansiedade está presente na vida de seis em cada dez das mulheres, índice acima da média global. Nesta coluna, a promotora de Justiça Silvia Chakian reflete sobre o crescimento desproporcional do adoecimento psíquico feminino
Este mês a organização Think Olga a publicou estudo inédito que materializa o que pesquisadoras/es, médicas/os, psicólogas/os, especialistas e as próprias brasileiras têm constatado nos últimos anos, com mais ênfase no pós--pandemia: o crescimento desproporcional do adoecimento psíquico feminino.
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De acordo com o relatório Esgotadas, feito com 1.078 mulheres de todo o Brasil, a ansiedade está presente na vida de seis em cada dez delas, índice acima da média global; ao lado de estresse, irritabilidade, fadiga, insônia, baixa autoestima e tristeza. Na pesquisa, indagasse: o que está adoecendo as mulheres?
Dentre as respostas, o empobrecimento; a insatisfação com o trabalho; a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado; e até o medo da violência demonstram a gravidade do quadro e a urgência do olhar de gênero e suas intersecções no debate sobre saúde mental no país. Pela assimetria das relações sociais, homens e mulheres estão expostos a sofrimentos e impactos distintos na saúde.
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As mulheres adoecem mais que os homens, não necessariamente por causas biológicas, mas por fatores relacionados à discriminação de gênero e aos papéis atribuídos historicamente a elas, que reservam uma condição de maior subordinação e desvantagem.
É o caso da sobrecarga de tarefas domésticas, do exercício da maternidade e das atividades de cuidado com parentes idosos, familiares com deficiência ou em tratamento de doenças, o que costuma exigir o dobro de tempo e esforço em relação aos homens, ou mesmo dedicação exclusiva, contínua e não remunerada. A psicanalista Vera Iaconelli, no recém-lançado Manifesto Antimaternalista (ed. Zahar; 256 págs.; R$ 49,90), adverte que a insistência nesse modelo de cuidado baseado na inteira responsabilização das mulheres, que já era insustentável, agora tende ao colapso.
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Como resultado, agrava-se o empobrecimento feminino. Mulheres são maioria dentre as taxas de desemprego no país. Sem condições de acesso à escolaridade e formação contínua, acabam no mercado informal, onde exercem atividades mais precarizadas, de baixa remuneração, sem garantias trabalhistas ou seguridade social. Entre as mães solo, o peso de ter que trabalhar em jornadas exaustivas para arcar sozinha com o sustento da família contribui ainda mais para o adoecimento psíquico.
As pressões estéticas exercidas sobre as mulheres, construídas a partir das exigências de correspondência a padrões culturais de beleza e juventude inatingíveis, também foram apontadas como fatores que produzem insatisfação e baixa autoestima, com prejuízos para a saúde emocional e desenvolvimento de transtornos alimentares.
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Num país com altos índices de violência de gênero, onde cerca de 85% das mulheres, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e DataFolha, convivem com receio de sofrer agressão sexual, não causa surpresa que esse fator tenha sido revelado como causa de danos emocionais.
É urgente a necessidade de mudar a lógica de sobrecarga feminina. Do Poder Público, exige-se a adoção de ações e políticas transversais que observem as fontes de adoecimento reveladas pelo estudo. Por outro lado, cabe à sociedade alterar a concepção que historicamente atribui às mulheres.
No setor privado, não bastam avanços das cotas de gênero em conselhos. É preciso melhorar efetivamente as jornadas de trabalho das trabalhadoras, adaptando-as às atividades familiares, que precisam ser divididas igualmente entre homens e mulheres.