Vítima Invisível: documentário transforma true crime em memórias de assassinato da perspectiva de Eliza Samudio
Documentário reconta o horror do assassinato de Eliza Samudio, praticado com requintes de crueldade pelo ex-goleiro Bruno
A Vítima Invisível — O Caso Eliza Samudio, filme lançado pela Netflix, narra a história por trás de um dos assassinatos de maior repercussão no Brasil, praticado pelo ex-goleiro Bruno, então ídolo do Flamengo, contra Eliza. Escrito por Carol Pires e Caroline Margoni, sob a direção de Juliana Antunes, o documentário muda o paradigma do gênero true crime para recontar o horror sob a perspectiva da centralidade da vítima, 14 anos depois de sua morte.
Para tanto, traz à tona detalhes inéditos de mensagens e conversas de Eliza com amigos, que revelam seus anseios, sonhos e planos em torno da retomada dos estudos e cuidados com o filho: “Quero só paz para cuidar do meu filho e estudar. Viver minha vida sem medo”. “Quero terminar logo os estudos para fazer faculdade. Tomara que até lá eu já tenha resolvido as coisas com o pai do meu filho. Depende da Justiça.”
Eliza havia acionado a Justiça visando obter medidas de proteção previstas na Lei Maria da Penha. Temia por sua vida. Bruno já a havia agredido e ameaçado de morte por diversas vezes. O filme narra como Eliza foi enganada por Bruno, atraída para uma emboscada sob o argumento de que chegariam a um acordo. Foi arrebatada juntamente com seu filho ainda bebê, feita refém, torturada com requintes de crueldade, até ser assassinada.
Seu corpo nunca foi encontrado, apesar das confissões de Bruno e seus comparsas envolvidos no crime. Dois aspectos mais chamam atenção no longa. A narrativa evidencia como, independentemente dos inúmeros sinais e pedidos de ajuda, determinadas mulheres jamais são levadas a sério ou interpretadas como potenciais vítimas de violência.
No “juridiquês” é comum a utilização de expressões como “in dubio pro reo”, quando intérpretes do direito pretendem definir que a dúvida deve beneficiar o acusado, que é presumidamente inocente, até que se prove o contrário; ou “in dubio pro societate”, quando na fase de investigação, a comprovação da materialidade e os indícios de autoria de um crime orientam que o caso seja levado a juízo.
Mas, em casos como o de Eliza Samudio, opera-se um fenômeno que em 1998 a jurista Silvia Pimentel convencionou chamar de “in dubio pro stereotypo”, ou seja, a imagem de uma moça jovem, atriz e modelo que engravida de um jogador de futebol no auge da fama não corresponde ao padrão ideal que uma sociedade patriarcal como a nossa espera de uma “verdadeira” vítima.
Nessa dupla moral, em que se tolera no comportamento sexual masculino, o que se repudia no feminino, Eliza foi reduzida à condição de “Maria Chuteira”. Acusada de ser aproveitadora, mercenária, ávida por fama e responsável por “prejudicar” a carreira de um ídolo. Não por outro motivo, o ex-goleiro foi dispensado de depor em delegacia para poder jogar.
Bruno era casado, ficou noivo de outra mulher na constância dessa união, engravidou de uma terceira e mantinha diversas relações extraconjugais, mas jamais foi julgado negativamente por isso. Muito ao contrário, o excelente desempenho no clube de maior torcida do país e a expectativa de convocação para a Copa do Mundo foram suficientes para justificar suas atitudes, tanto durante o calvário de Eliza em busca por ajuda do Sistema de Justiça, como até depois de seu assassinato. É o que demonstram as manchetes de jornais e comentários na internet divulgados no documentário, todos culpabilizando Eliza pela própria morte, em última instância, causadora de frustração coletiva.
Desde o primeiro momento, mesmo diante de todo o horror de um caso de sequestro, tortura e assassinato, o caso foi retratado publicamente sob a perspectiva exclusiva do ex-jogador. Durante a cobertura da investigação, pouco foi mencionado sobre a vida de Eliza, que não fosse relacionado ao estereótipo da mulher promíscua, interesseira e pouco confiável.
Nesse processo de desumanização, nunca importaram seus sentimentos, medos, sofrimentos, tampouco sonhos. É sintomático que seu corpo nunca tenha sido resgatado. Não há cenário onde o corpo feminino seja mais descartável que no mundo do futebol.