Brasil, o país das mães solo
O mês de maio permanece sendo pautado pela proliferação de campanhas na TV que estimulam o comércio e em nada contribuem para a realidade das mães no nosso país, quando deveria ser palco de debate público sobre as complexidades que envolvem as múltiplas maternidades no Brasil.
Nesse contexto, chama atenção o número de mães que criam seus filhos sozinhas no país, ultrapassando 11 milhões, com crescimento de 17,8% na última década, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Não há como dissociar o contexto racial desse quadro: 90% das mulheres mães solo entre 2012 e 2022 são negras. O mesmo levantamento mostra que quase 15% dos lares brasileiros são chefiados exclusivamente por mães e 72,4% não contam com qualquer rede de apoio próxima. Outro dado assustador: quase 500 crianças são registradas por dia no país, sem o nome do pai, segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen).
A vulnerabilidade leva essas mães a acumular múltiplas jornadas de trabalho para o sustento dos filhos, ao mesmo tempo que quase desempenham sem auxílio o papel do cuidado e da educação. Enfrentam também a solidão e o peso do estigma social, do julgamento permeado por preconceitos e estereótipos de gênero que atribuem a elas, exclusivamente, responsabilidade pela situação.
A conjuntura se agrava com a insuficiência de políticas públicas eficazes que poderiam apoiá-las. Os programas de acesso às políticas de habitação, inclusão, educação e emprego ainda são limitados e não atendem à demanda. No caso de mulheres jovens, a necessidade de interrupção dos estudos impacta diretamente a trajetória profissional, restando à maioria delas o caminho do trabalho precário, informal e de baixa remuneração, num círculo vicioso.
A organização Think Olga, que há quase uma década mobiliza a sociedade civil para questões de gênero, publicou estudo que materializa tudo o que pesquisadoras/es, médicas/os, psicólogas/os, especialistas e as próprias brasileiras têm constatado na prática, em especial nos últimos anos e com mais ênfase no pós-pandemia: o crescimento desproporcional do adoecimento psíquico feminino.
De acordo com a pesquisa feita com 1.078 mulheres de 18 a 65 anos e em todos os Estados do Brasil, a ansiedade, transtorno mais comum, está presente na vida de 6 para cada 10 mulheres, índice bem acima da média global, ao lado dos sintomas como estresse, irritabilidade, fadiga, insônia, baixa autoestima e tristeza.
No relatório “Esgotadas”, indaga-se: o que está adoecendo as mulheres? Dentre as respostas: o empobrecimento; a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado; e o medo da violência demonstram a gravidade do quadro e a urgência da perspectiva de gênero e suas intersecções no debate sobre saúde mental no país.
O impacto desse quadro para o desenvolvimento dos filhos, em especial, na chamada primeira infância, também é devastador. A exaustão feminina, fator responsável por irritabilidade, ansiedade e até depressão, tende a piorar significativamente a qualidade do tempo de vínculo materno, repercutindo, em casos mais dramáticos, em situações de negligência e até maus-tratos.
Se a medicina já identifica hoje que o desenvolvimento cerebral começa antes do parto e 90% das conexões cerebrais ocorrem até os 6 anos, quando são adquiridas pela criança as capacidades de cognição, linguagem, habilidades sociais e personalidade, é inegável o prejuízo que a falta de políticas de assistência às mães acarreta também à primeira infância.
Que maio contribua para dar maior visibilidade à realidade tão brasileira, quanto desumana, criando possibilidades de mudanças concretas, tanto no âmbito legislativo, incluindo medidas efetivas de responsabilização masculina pelo abandono, como nas demais políticas de estado.