'Para qualquer pessoa, a leitura de Triste Tigre é uma experiência transformadora'
Silvia Chakian escreve sobre o livro brutal da francesa Neige Sinno
Há livros que nos rasgam com delicadeza. O que de longe mais me marcou na Flip deste ano foi Triste Tigre, escrito pela francesa Neige Sinno e publicado pela Amarcord, com tradução de Mariana Delfini. Lançado no Brasil durante a festa literária, já recebeu importantes prêmios, tornou-se best-seller em mais de 20 países, foi aclamado pela crítica como “extraordinário”, “impactante” e “necessário”, além de ter sido descrito pela Nobel de Literatura Annie Ernaux como “o mais poderoso e profundo que li sobre a devastação da infância por um adulto”.
A obra aborda a temática do abuso sexual intrafamiliar, explorando as possibilidades e os limites da linguagem, diante do horror. Neige Sinno foi submetida a diversas formas de violência praticadas pelo padrasto, dos 7 aos 14 anos. Aos 19, quando deixou a casa em que vivia com ele, a mãe e os irmãos mais novos, conseguiu romper o silêncio e contar sobre os abusos, o que deu origem ao processo judicial que resultaria na sua condenação a nove anos de prisão.
Para quem, como eu, trabalha no enfrentamento a essa chaga social que é a violência sexual contra crianças e adolescentes, sobretudo meninas, não se trata, infelizmente, de um tema inédito ou pouco conhecido. Na realidade que não queremos encarar, já que como res- salta a autora – “o tabu, na nossa cultura, não é o estupro em si, que é praticado em todo lugar, mas falar dele, encará-lo, analisá-lo” – a cada hora, seis crianças são vítimas no Brasil, na imensa maioria dos casos, dentro de casa e por parte de pessoas próximas, ou seja, dentro de uma complexa teia de relações familiares. Mas não é pelo tema que a escrita de Neige Sinno se torna, de fato, única.
Há coragem em revisitar o trauma, com honestidade brutal, dando ao leitor a sensação de soco no estômago, ao mesmo tempo que comove pela sensibilidade. É também inegável a habilidade de transformar a experiência devastadora, numa obra de fôlego literário, que transita entre o ensaio, a autobiografia e o romance, de forma contundente e sem sensacionalismo, enquanto dialoga com releituras de nomes como Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Toni Morrison e Virginie Despentes.
Mas nada é tão inspirador quanto suas reflexões sobre o papel e os limites da literatura, as possibilidades da escrita e, ao mesmo tempo, sua impotência para lidar com traumas e violências. A autora questiona o tempo todo o que significa escrever sobre o indizível e como a linguagem pode (ou não) dar conta de expressar o “inominável”.
Segundo entrevistas da autora, o “tigre” do título é a metáfora para o perigo imenso e paralisante do abuso, que, por anos, a aterrorizou. E para a dualidade do próprio agressor, poderoso, mas também uma figura patética e medíocre. Ao escrever, ela não o mata, não o esquece ou o perdoa, mas o encara, o nomeia, o expõe à luz. E, nesse processo, a literatura se torna um caminho, não para apagar as cicatrizes – “não acredito na escrita como terapia...e, se isso existisse, a ideia de me tratar por meio do livro me dá engulhos” – mas para transformá-las em um mapa de sobrevivência.
Para qualquer pessoa, a leitura de Triste Tigre é uma experiência transformadora, que contribui para a melhor compreensão dos aspectos que envolvem o trauma da vítima e a mente do abusador. Para as sobreviventes, penso que a obra pode ser um doloroso, mas poderoso, ato de reconhecimento. De sua dor, sofrimento e de que a confusão de sentimentos que carregam – raiva, vergonha, tristeza – é legítima, assim como a sensação de que não há um final feliz.
Neige Sinno revela que “é um erro e fonte de angústia acreditar no mito do sobrevivente tal como os filmes estadunidenses nos mostram. Isso nos leva a acreditar que o tempo é linear, que existe uma progressão de vítima a alguém que presta a queixa, a alguém que sobrevive, a alguém feliz...o tempo é cíclico, ele vai e vem e volta eternamente. Não existe fim, é só uma questão de roteiro (...) Portanto, não se surpreenda se você for uma sobrevivente, se já percorreu boa parte do seu caminho, se está se virando até que bem... mas mesmo assim você não está satisfeito. E com razão, pois obviamente eu também não tenho essa maldita sensação de final feliz. Porque não chegou ao fim. Nem para mim, nem para você, nem para ninguém. E conclui: “Enquanto houver na Terra uma criança passando por isso, nunca haverá fim, para nenhum de nós.”