A liderança de Cíntia Moreira, CEO da Dengo: 'É possível ser exigente e humano ao mesmo tempo'
Cíntia Moreira leva para a cadeira de CEO da marca de chocolates Dengo a lógica de quem conhece o negócio de dentro: “Levei minha carreira menos como uma corrida de 100 metros e mais como uma maratona”
Os olhos de Cíntia Moreira se enchem de lágrimas quando relembra o momento em que recebeu a ligação anunciando que havia sido escolhida como a próxima CEO da Dengo. Na época, ela já atuava como diretora comercial da empresa de chocolates. Depois de três meses de processo seletivo e algumas entrevistas, ela sabia que poderia ocupar aquele lugar. “Foi num fim de tarde de uma sexta-feira que o [conselheiro] Pedro Villares me ligou e disse que não queria esperar para me dar a notícia e que o pôr do sol estava tão bonito que precisava aproveitar o momento para me contar a decisão do conselho.”
Ocupar esse cargo não era só o ponto alto da carreira, mas também da trajetória de vida de Cíntia Maria Moreira. Advogada de formação, ela começou a trabalhar em uma videolocadora aos 15 anos, para ajudar no sustento da família e “pagar o aparelho dentário”, e seguiu a carreira de vendedora por décadas até chegar ao posto atual, em junho do ano passado. “Meu pais se separaram quando eu tinha 9 anos e isso nos deixou, a mim, minha mãe e minhas duas irmãs, em muitas dificuldades, tanto emocionais quanto financeiras. Vi minha mãe chorando muitas vezes. Então coloquei na cabeça que nunca mais passaria por aquilo.”
Foi assim que deu os primeiros passos na área que chama de varejo premium. Ainda na adolescência, trabalhou como vendedora em uma loja de jeans de grife no shopping de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde cresceu. “Para nos sustentar, minha mãe foi trabalhar como faxineira no shopping e, quando passava em frente à loja ou ia me levar um biscoitinho, dava uma piscadinha de leve, pois achava que eu teria vergonha dela. Nunca tive. Pelo contrário. Ver minha mãe batalhando por nós foi um grande exemplo.” A carreira na área de varejo continuou mesmo quando Moreira decidiu pela Faculdade de Direito, para “tentar fazer justiça”. Ao longo de mais de 30 anos, foi vendedora, supervisora, gerente e diretora. Passou pela Forum, na época em que era uma das principais marcas de moda do país, pela Loungerie, pela francesa Lacoste, pela norte-a mericana de cosméticos Estée Lauder e pela Adcos, de dermocosméticos. Até que enviou um currículo para a Dengo depois de ver um post do cofundador, Estevam Sartoreli, anunciando no LinkedIn a vaga de diretora comercial. Para a executiva, era mais do que uma oferta de emprego. “Trabalhei para marcas muito bacanas, mas queria algo além disso. Buscava uma empresa que fosse além do consumo.”
A Dengo nasceu em 2017 e tem como cofundador Guilherme Leal, que também é um dos fundadores da Natura, e Estevan Sartoreli, ex-CEO que hoje atua como conselheiro. Os chocolates da marca passam pelo processo de produção bean to bar (do grão à barra), em que o fabricante controla todas as etapas, desde a seleção das amêndoas de cacau, passando pela fermentação, torra e moagem, até a embalagem. O cacau vem de 200 pequenos e médios produtores familiares, concentrados principalmente em Ilhéus, no sul da Bahia. A relação econômica com os produtores tem como base a renda digna, remuneração que permite às famílias terem suas necessidades garantidas e um dos preceitos do sistema B, que certifica negócios sustentáveis em termos ambientais e sociais. A maior parte dos produtores adota a cabruca, plantio agroflorestal tradicional baiano, onde os pés de cacau crescem à sombra das árvores da Mata Atlântica.
Além de manter parte da floresta em pé, possibilita que o cacau tenha indicação geográfica, ou seja, que traga sabores e aromas diversos dependendo do ecossistema. Com essa narrativa, Moreira espera que a Dengo ajude a mudar a percepção do público consumidor. “Nossa ideia era de que o chocolate de qualidade era importado. Quero mostrar que o Brasil pode ter uma produção de alto nível”, diz ela, que com isso pode aumentar a participação em um mercado bilionário. Os chocolates premium devem movimentar US$ 57,6 bilhões no mundo todo até 2030, segundo a consultoria Mordor Intelligence. São produtos melhores e com preços superiores aos comuns. Na Dengo, uma caixa de chocolates de 198 gramas custa R$ 139,90. Não são usados aromatizantes, conservantes ou gordura hidrogenada, e a quantidade de açúcar é menor do que nas barras vendidas no supermercado. São 40 lojas próprias e 19 franqueadas no Brasil, além de três lojas em Paris. Esse posicionamento foi o que atraiu a executiva e o que a motivou, menos de um ano após entrar na empresa, a se candidatar à vaga de CEO.
Túlio Landim, que estava deixando a Dengo, a indicou como sua substituta diate do conselho administrativo. “Ele me deu um voto de confiança, dizendo que acreditava que eu estava pronta”, conta. Ainda assim, Moreira procurou os líderes da empresa para reforçar sua candidatura. “O primeiro passo da liderança é se posicionar. Deixar claro o que eu queria era importante nessa jornada”, diz. Quando elenca as características que a trouxeram ao cargo atual, Cíntia Moreira é rápida: “Curiosidade, coragem e consistência”. E relembra a menina de 9 anos que prometeu a si mesma uma vida diferente da que tinha naquele momento. Para além disso, acredita que sua bagagem como executiva comercial contou na escolha. “A área comercial é multidisciplinar. Você entende de produto, de inovação, de marketing, de logística. Você está em contato com todas as áreas da empresa e com o consumidor.” No que toca à gestão de pessoas, Moreira diz querer fazer da gentileza uma ferramenta. “É possível ser exigente e buscar excelência e ser humano nas relações ao mesmo tempo.”
Toda essa clareza de objetivos vem de uma estratégia traçada ainda no começo da carreira, logo depois que seu filho nasceu, há 22 anos. “Eu não queria que ele tivesse surpresas ou passasse necessidades como aconteceu comigo e com minha família. Então eu sabia que precisava ser consistente e arriscar, mas só até certo ponto. Trilhei minha carreira mais como uma maratona do que uma corrida de 100 metros.”









