Comportamento

Por Juliana Picanço, Redação Marie Claire — São Paulo


Por que é tão difícil cortar laços com familiares? — Foto: RDNE Stock project
Por que é tão difícil cortar laços com familiares? — Foto: RDNE Stock project

Viver um relacionamento tóxico com um amigo, companheiro e até conhecido, é algo que quase todo mundo, pelo menos em algum momento da vida, já passou. No entanto, quando se trata de uma relação com alguém da nossa família, identificar que talvez as coisas não estejam tão saudáveis, não é simples. Por mais que possa parecer visível, tendemos a tolerar atitudes tóxicas de familiares que, provavelmente, não suportaríamos de amigos ou pessoas mais próximas.

Historicamente, somos ensinados que os laços familiares são a base sólida de nossas vidas, onde encontramos amor, apoio e conexão. Apesar disso, há momentos em que esses laços podem ser prejudiciais e até mesmo perigosos para nosso bem-estar emocional e mental. O processo de cortar essas relações é desafiador, especialmente quando se trata de pais e filhos, devido às pressões sociais profundamente enraizadas e às expectativas culturais que rodeiam a ideia de família.

“As relações tóxicas não são impostas de forma dura, são processos que vão se formando ao longo do tempo. As manifestações de toxicidade, como controle, inferiorização e dependência vão se intensificando ao longo da relação. Por isso, é difícil a percepção imediata”, explica a psicanalista Dra Elizandra Souza. “Por vezes, a relação tóxica acontece também com certa contribuição da vítima de tomar para si sua própria vida, permitindo, por acomodação, que o outro escolha por ela. Ela não quer tomar decisão sobre nada, não quer escolher, então o outro o faz. Ao longo do tempo, ela mesma vai se sentindo incapaz”, complementa.

A dificuldade em reconhecer uma relação tóxica

Rayra Lima tinha 23 anos quando cortou de vez as relações com a mãe. Hoje, dez anos depois, a paisagista entende que a decisão foi a melhor que poderia ter feito por ela naquele momento.

“Não senti nenhum tipo de culpa. Na verdade, foi um alívio muito grande. Tinha uma relação muito difícil com a minha mãe. Era um cotidiano complicado, precisava pisar em ovos 24hrs por dia, porque qualquer palavra mal colocada poderia resultar em uma explosão. Não é fácil conviver com uma pessoa que demonstra claramente no dia a dia que não tem amor por você”, conta. “A partir do momento em que decidi não ter mais contato com ela, foi libertador. Não tinha mais que viver com aquela angústia, a minha vida mudou completamente. Me senti tão livre disso que consegui alcançar várias coisas, já que a minha mãe sempre me colocou pra baixo e me fazia duvidar do meu potencial”, complementa.

Laços tóxicos podem ser caracterizados por abuso verbal, emocional ou físico, manipulação constante, falta de respeito aos limites individuais e desequilíbrios de poder. Essas dinâmicas podem corroer a autoestima, minar a autonomia e gerar um ciclo de angústia constante. A decisão de se afastar nunca é tomada de ânimo leve, mas, muitas vezes, é uma medida de autopreservação necessária para garantir a saúde mental e emocional.

“Algumas pessoas podem sentir dificuldade em reconhecer que estão em uma relação familiar tóxica devido a fatores psicológicos como negação, medo de confrontar a realidade, dependência emocional, baixa autoestima e manipulação por parte dos membros tóxicos da família”, explica a psicóloga especialista em emoções, Luana Ganzert. “Além disso, o senso de lealdade e a crença de que a família é sempre positiva podem dificultar o reconhecimento dos padrões prejudiciais. A terapia e o apoio de pessoas de confiança podem ajudar a pessoa a superar esses obstáculos e tomar medidas para se afastar de relacionamentos familiares tóxicos. É importante reconhecer esses fatores e buscar apoio emocional e redes de suporte para ajudar na tomada de decisão de se afastar”, complementa.

“Aprendi a falar para as pessoas que não tenho mãe, porque explicar a situação real é algo incompreensível para muitas pessoas. Infelizmente, as pessoas vão te julgar e utilizar frases do tipo: ‘mãe é mãe’. Não é bem assim quando você cresce em meio a alienação parental, distorção da sua própria imagem, falas muito pesadas. Só criei consciência na vida adulta”, confessa Rayra. A paisagista diz que contou com o apoio do pai e buscou a terapia para lidar melhor com as dificuldades em torno do afastamento, que se fizeram mais presentes no início do processo.

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“O primeiro Natal sem ela, o primeiro dia, meu aniversário, foram momentos difíceis. Porém, ao mesmo tempo que eu antes a tinha nessas datas, que são consideradas importantes para família, vinham também as lembranças de como eram aqueles dias. Até tinham momentos de alegrias, mas em sua maioria eram marcados por confusões, brigas e tristeza profunda. Com o tempo, você aprende a reconhecer quem você é e entende que as palavras que te colocam pra baixo, te menosprezam e rebaixam, não te definem”, complementa.

Rompendo com as pressões sociais

A dificuldade de se afastar de pessoas que fazem parte da família envolve uma série de questões. Primeiro, há o desejo humano natural de conexão e pertencimento, mesmo quando os relacionamentos são prejudiciais. Além disso, o reforço constante feito pela sociedade sobre a importância da "família em primeiro lugar" cria uma pressão para manter relacionamentos, independentemente de quão negativos eles possam ser.

“Existe um espectro ilusório de que família é para sempre, de que família é para defender. Essas idéias constituídas no imaginário social e familiar fazem com que o desligamento seja complexo e complicado. É como se houvesse uma ligação de sangue que obriga a presença e participação física. Fora isso, a família dá lugar à pessoa no mundo e realmente não pertencer mais é doloroso, como se a pessoa deixasse de existir, deixasse de ser uma pessoa. É só uma coisa, sem lugar - aquela história ‘sem lenço, nem documento’. O próprio nome da pessoa indica de onde ela pertence, por isso é difícil sair”, reforça Elizandra Souza.

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Quando se trata de pais e filhos, a pressão é ainda maior. A imagem idealizada da família perfeita, muitas vezes retratada nos meios de comunicação através de filmes, séries, e até mesmo propagandas, contribui para a sensação de vergonha e culpa que muitos filhos sentem ao considerar cortar laços com pais tóxicos. As expectativas sociais de amor incondicional entre pais e filhos podem fazer com que a ideia de se distanciar pareça quase herege.

“A pressão social para manter a unidade familiar e a crença de que é preciso lealdade incondicional à família podem levar as pessoas a ignorar os problemas e sacrificar sua própria saúde mental. Isso pode resultar em sentimentos de frustração, ansiedade, depressão e baixa autoestima. A pressão social também pode criar um senso de isolamento e falta de apoio, dificultando o processo de buscar ajuda ou romper com relacionamentos tóxicos”, reforça Luana. “É importante lembrar que a saúde mental deve ser priorizada e buscar apoio externo pode ser fundamental para enfrentar esses desafios”, complementa.

A especialista ainda aponta que estabelecer limites saudáveis com os familiares é crucial para manter um relacionamento que não seja prejudicial e que se sustente. “É importante comunicar de forma clara e assertiva suas necessidades e expectativas. Defina limites pessoais e identifique comportamentos que você considera prejudiciais. Comunique suas necessidades de maneira objetiva, sem acusações, e seja firme ao reforçar esses limites. Esteja preparado para possíveis reações negativas, mas mantenha sua posição”, afirma.

A importância do autocuidado

Cortar laços familiares tóxicos não é uma renúncia à importância da família, mas sim um esforço para preservar sua própria integridade emocional. A jornada de desvinculação requer auto-reflexão, auto-empoderamento e resiliência. Aprender a comunicar seus sentimentos e estabelecer limites claros pode ser desafiador, mas é uma etapa crucial em direção à autenticidade e ao bem-estar.

“Quando se percebe essa situação, tomar o seu lugar como dono de si, de responsável por si e por suas escolhas, é necessário. O ponto da responsabilidade é fundamental: o quanto quero e aguento ser quem eu sou, tomar conta de mim e assumir as consequências das minhas escolhas?”, questiona Elizandra Souza.

“Devemos nos reconhecer sujeitos autônomos. Ou seja, que fazemos por nós mesmos. Os pais fazem por nós até podermos assumir nossas responsabilidades. Então, não existe autonomia sem a responsabilidade. Quando reconhecemos isso, vamos paulatinamente nos desprendendo da sensação de dívida. Mas é importante entender que dívida é diferente de gratidão. Devemos ser gratos aos pais por nos ajudarem”, complementa.

“A forma que cada um vive não pode ser comparada com as histórias do outro. São situações diferentes. Só nós sabemos quais são os efeitos colaterais dentro de nós mesmos ao longo dos anos. Ninguém está ali, na tua pele, para saber o que que você está passando”, diz Rayra. “Precisamos ignorar o que é cultural, o que que é dos outros, o que que os outros acham. Depois que entendi isso, decidi me afastar. E mesmo que tenha sido difícil, foi libertador. Hoje tenho como viver uma vida em paz”, complementa ela, que está grávida do primeiro filho.

“Chega uma hora da vida que você entende que quanto antes aceitar, melhor é pra você mesmo. Hoje, eu entendo que tive uma mãe, que não me dava amor e ambiente saudável, e não pretendo replicar isso para o meu filho. A minha mente vê várias situações e me ajuda a replicar muitos comportamentos que eu vi”, finaliza.

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