Pode uma mulher escolher ser domesticada?
Em sua coluna de estreia para Marie Claire, a psicanalista e escritora Maria Home, reflete, a partir da onda “tradwife”, sobre a liberdade feminina e os mecanismos por trás da idealização da casa e família. “Será que essa escolha esconde uma troca silenciosa em que a liberdade é entregue em nome da segurança?”, questiona
À primeira vista, a pergunta parece um paradoxo, quase um contrassenso. Como a domesticação, historicamente associada à submissão, poderia ser uma escolha? E, no entanto, aqui estamos nós, diante de um dilema que nos convida a refletir sobre o que significa, de fato, ser livre.
A domesticação, em seu sentido mais amplo, remete ao domus, ao lar, ao espaço privado onde a vida se desenrola entre paredes que protegem e, ao mesmo tempo, delimitam. Mas será que optar por esse território é um ato de liberdade ou uma forma de renúncia? Quando uma mulher escolhe o lar como seu principal campo de atuação, ela está exercendo sua autonomia ou cedendo a uma fantasia de segurança?
Essa questão nos leva a um dos mais antigos e intrincados paradoxos da filosofia: escolher não ser livre pode, de alguma forma, ser uma expressão da própria liberdade?
Para algumas mulheres, o espaço doméstico pode parecer um refúgio diante do caos do mundo exterior. Um mundo marcado por disputas, conflitos, guerras, transições tecnológicas e crises existenciais. Diante de tanta incerteza, não é difícil entender por que alguém poderia preferir a aparente estabilidade do lar.
Mas será que essa escolha é realmente libertadora? Ou será que ela esconde um mecanismo mais profundo, uma troca silenciosa em que a liberdade é entregue em nome da segurança? Como se a mulher dissesse: “Eu abro mão da minha autonomia, mas, em troca, você organiza minha vida”. Essa dinâmica nos remete a um modelo tradicional, quase arquetípico, em que o homem assume o papel de provedor, protetor, a posição do Pater Familias da Roma Antiga, enquanto a mulher se ocupa da beleza, da doçura e dos cuidados do lar.
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Esse imaginário, tão presente nos anos 1950, ressurge hoje como uma espécie de miragem nostálgica. A casa perfeita, o carro na garagem, a família feliz. Um sonho que, para muitas, parece oferecer um porto seguro diante das tempestades do mundo contemporâneo. Mas, em primeiro lugar, será que esse imaginário existe na realidade? E será que esse sonho não é, na verdade, uma regressão? Uma volta a um tempo em que as mulheres eram vistas como frágeis, dependentes, infantis?
Psicanaliticamente, essa escolha pode representar uma dinâmica de dependência, em que a mulher projeta no parceiro a figura do herói, do príncipe, do pai. E, ao fazer isso, ela se coloca em uma posição de fragilidade, como se precisasse de alguém para conduzir sua vida.
É também importante lembrar que essa realidade não é acessível a todas as mulheres. Para muitas, a ideia de um lar doce lar, protegido e seguro, é uma fantasia distante. A desigualdade social, econômica e de gênero faz com que essa escolha seja um privilégio de poucas. E, mesmo para aquelas que podem optar por esse caminho, é preciso questionar: essa escolha é realmente livre? Ou será que ela é apenas uma ilusão reconfortante, uma forma de escapar das demandas e dos desafios do mundo exterior?