Comportamento

Por Jaquelini Cornachioni, redação Marie Claire — São Paulo

No TikTok, uma trend viralizou e chamou a atenção de influenciadores amarelos. Chamada de “amo meu samurai”, as pessoas que participam exibem fotos de seus namorados asiáticos ou nipo-brasileiros, dizendo que ‘percorreram a Ásia inteira atrás de seu samurai’, o que levantou a discussão sobre fetichização dos corpos de homens e mulheres asiáticos.

O tema chegou até o Twitter de Bruna Tukamoto, criadora de conteúdo que discute o preconceito amarelo e idealizadora do Projeto Sakura, ao lado da psicóloga Mayume Suzumura, que tem o objetivo de criar um espaço seguro e acolhedor para reflexão sobre assuntos que permeiam vivências de pessoas amarelas no Brasil.

Por aqui, o racismo e a fetichização sempre foram uma realidade, com ataques crescendo ainda mais a partir de 2021. Em entrevista a Marie Claire, Bruna fala sobre como o preconceito contra pessoas amarelas ainda sofre invalidações. “Sinto que, a todo momento, temos que provar o quão violento e agressivo são os preconceitos que enfrentamos. Isso acontece porque as microagressões são, algumas vezes, sutis e, por isso, muito confundidas como 'brincadeiras', o que colabora para a legitimação do preconceito. As pessoas não nos levam a sério e rotulam as nossas dores como mimimi.”

Desde criança, ela se lembra de comentários pejorativos sobre seus traços, algo que segue acontecendo. "Lembro de falas como 'abre o olho, japonesa' e 'olho rasgado', principalmente em ambiente escolar, onde essas microagressões eram mais comuns. Hoje em dia, ainda escuto falas pejorativas sobre os meus traços, especialmente envolvendo os meus olhos. Mas, de um ano e meio para cá, tenho recebido, especificamente na internet, muitos ataques por conta de outra característica do meu fenótipo asiático: as bochechas. As pessoas me relacionam à Juju do Pix ou fazem outros comentários tão pejorativos quanto.”

A atriz Ana Hikari também relata momentos em que se sentiu hiperssexualizada. “Na adolescência, achava que sofria isso apenas por ser mulher. Só depois entendi que muitos comentários que ouço estão ligados ao fato de eu ser uma mulher amarela. Coisas como: ‘Sempre quis beijar uma japinha’ ou ‘tenho muita curiosidade de saber como é transar com uma japinha’. Já ouvi de ex-namorados que eu era igual às meninas que eles assistiam no pornô. São tantas falas erradas. Recentemente, pesquisei sobre o assunto e descobri que de cinco palavras procuradas em sites de pornografia, pelo menos uma se refere a mulheres asiáticas e outras minorias. É um cenário racista demais”, conta.

A mídia e a fetichização

A ascensão de grupos de k-pop e dos doramas trouxe uma ideia mercadológica que contribuiu, de certa forma, com a objetificação de pessoas amarelas. “A maneira como somos representadas pela mídia contribui muito para a fetichização. Quando falamos de mulheres amarelas, estamos falando principalmente da indústria de pornografia, que reforça estereótipos sexuais, como a submissão e a infantilização. Os grupos de k-pop femininos também têm um grande peso nisso, porque reforçam tais estigmas. A mulher amarela é comumente retratada como apenas um objeto sexual para satisfazer as fantasias dos homens”, explica Bruna Tukamoto.

“Quando falamos do homem amarelo, falamos principalmente da emasculinização deles. Com o 'boom' do k-pop e doramas, os homens amarelos se tornaram um objeto de desejo. A indústria cultural reforça a imagem do homem amarelo fofinho, romântico, extremamente educado e nunca viril”, continua.

Ana Hikari conta que sente isso na pele em sua profissão. A atriz foi a primeira protagonista amarela de uma novela da Globo, mas não acredita que o audiovisual progrediu tanto quanto deveria nesses últimos anos.

“Com a viralização de grupos de k-pop, por exemplo, veio uma ideia mercadológica de objetificação. Como se a cultura do leste asiático pudesse ser empacotada e vendida em uma caixinha e, pior ainda, reduzida a essa caixa. Hoje, parece que somos um produto. Por isso, quando chegam papéis de destaque, muitos nos colocam em um lugar de redução. Fui a primeira protagonista asiática em uma novela, mas quantas vieram depois de mim nestes seis anos? Não posso nem quero ser a única.”

Escalada para a próxima novela das 21h, ‘Terra e Paixão’, de Walcyr Carrasco, Bruna Aiiso, atriz também muito engajada em causas do movimento amarelo, revela que, para chegar mais longe, artistas que fazem parte de minorias precisam sempre se provar mil vezes mais sua competência do que atores brancos.

“O mercado audiovisual é menos tolerante com minorias. Ainda escuto muito pessoas dizendo que atores asiáticos não são bons, mas a verdade é que as oportunidades nem chegam até nós. Eu tinha quase 20 anos de carreira, fiz vários testes e sempre recebi 'não', até que fui aceita e agora interpreto a Laurita, na novela do Walcyr. A melhor parte é que a personagem é uma médica de caráter duvidoso, e isso vai ser uma grande quebra de estereótipo. Principalmente aqui, onde existe aquela ideia de que o asiático é sempre o mais educado, inteligente e, no caso das mulheres, sempre submissa. Além disso, a história da Laurita não é sobre seus traços. Eu quero poder interpretar médicas, advogadas, vendedoras, padeiras, quem eu quiser ser.”

Bruna Aiiso espera que, com a valorização de filmes e produções asiáticas em premiações como o Oscar, o Brasil também valorize mais seus atores amarelos. “É o poder da representatividade. Quando ouvi o discurso da Michelle Yeoh [vencedora do Oscar de melhor atriz por Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo], tive uma mistura de sensações. Era um choro de levar a alma, com muita esperança e felicidade. Espero que isso nos ajude a caminhar. Em outros países, vejo que muitas séries e filmes têm um asiático em um papel de destaque e relevância, e é sobre isso. Se você quer colocar uma minoria na produção, dê um bom papel, dentro de um arco dramático que seja importante. É assim que a indústria contribui, de fato, para a representatividade.”

'O combate ao preconceito só acontece se falamos sobre isso'

“Precisamos conscientizar mais pessoas, precisamos ocupar mais espaços para falar, precisamos que a nossa voz chegue a mais gente. E acho que essa conscientização pode acontecer em todos os lugares e contextos, não deve acontecer somente por meio da internet, de palestras e de estudos. Conscientizar a população também é importante e, principalmente, repudiar comentários racistas”, alerta Bruna Tukamoto.

+ Cultura: Oscar 2023: Michelle Yeoh se torna a primeira asiática a vencer categoria de melhor atriz

É isso que outros influenciadores e artistas, assim como Bruna Aiiso e Ana Hikari, seguem fazendo. Na pandemia, Aiiso fez lives com outros atores amarelos, o que acabou virando uma série de entrevistas. “Queria fazer algo útil durante a quarentena, foi quando tive essa ideia. Foi bom criar esse espaço seguro para compartilhar vivência.”

Em seu Instagram e no dia a dia, Ana Hikari fala, entre outros assuntos, sobre racismo e debate o tema com seguidores. “Não queria ter as minhas redes apenas para postar fotos bonitas. Comecei compartilhando dicas de livros e questionando situações de preconceito que passava diariamente. Virou um lugar de desabafo da minha realidade."

Para saber mais:

Bruna Tukamoto selecionou nomes de influenciadores amarelos que usam as redes para divulgar seus trabalhos, além de perfis que abordam racismo amarelo. São eles: Ana Hikari, Tati Takiyama, Karina Kikuti, Haseegawa, Bruna Aiiso, Vitor Goto, Bianca Mayumi (psicóloga), Cindy Oh, Torai (marca de roupas), Karina Kikuti, Masculinidades Amarelas, Eric Senka, Clau Okuno, Rick Akira, Miwa, Camila Sawamura, Luna Nakano, Deborah Hikari, Notícias Amarelas.

Além disso, veja os posts e vídeos explicativos feitos por pessoas amarelas sobre racismo, microagressões, palavras e expressões pejorativas, fetichização e outros assuntos importantes.

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