Comportamento

Por Jaquelini Cornachioni — São Paulo

Uma sugestão de presente para o Dia das Mães se tornou um dos assuntos mais comentados da internet. O post, da apresentadora Angélica, dizia: 'Quer surpreender a sua mãe? Dê um vibrador de presente'. Em poucos minutos, a publicação recebeu diversos comentários. No total, mais de 12 mil: muitos escritos em tom de crítica.

'Noção da Angélica passou longe, para tudo tem limite', disse uma seguidora da artista. 'A questão nem é a liberdade do prazer, mas colocar um vibrador como presente para o Dia das Mães é de um mal gosto terrível. A militância feminista não tem limite', comentou outra. 'Que propaganda infeliz, chega a ser desrespeitosa', escreveu mais uma.

Os comentários partiram, inclusive, de jovens, que alegaram serem 'conservadores com esse assunto'. A linha de pensamento de mulheres mais maduras, em especial mães, serem intocadas e isentas de vontades e desejos não é de hoje. 'Muitas pessoas ainda tem tabu com o sexo, incluindo jovens. A sexualidade em si é algo do ser humano e quando digo isso não estou falando apenas do sexo. Existe essa linha de pensamento que a mãe é um ser puro, sem vontades e desejos. Isso acontece porque, quando crianças, ela é a pessoa que cuida de nós, protege, nos ensina a sobreviver. Esquecemos, com o tempo, que essa mulher não é só mãe', diz Bárbara Bastos, terapeuta sexual e sexóloga, em conversa com Marie Claire.

Todo esse raciocínio também parte da visão machista de que o sexo é feito para procriação e se torna 'sujo' quando feito pela mulher para o próprio prazer. 'Há anos, o sexo era feito para procriar e tudo o que saía disso era considerado errado. Progredimos em relação a isso, mas ainda temos um longo caminho. Na questão dos brinquedos sexuais, existe uma história interessante por trás'.

A sexóloga relembra o século 19, quando vibradores eram vendidos em revistas e jornais. 'Nessa época, esses ‘brinquedos’ eram comercializados e usados por médicos. Muitos usavam o vibrador para curar mulheres do que eles chamavam de ‘histeria’, mas sem qualquer visão erótica. Enquanto era assim, estava tudo certo. Isso mudou quando o vibrador começou a ser usado em vídeos de cunho sexual, relacionando o objeto ao ato e também ao prazer. Foi assim que o vibrador começou a deixar de ser visto como algo para a mãe e dona do lar', diz.

O primeiro ‘modelo’ de vibrador que se tem notícia foi feito há 30 mil anos a.C e criado a partir de uma rocha. O objeto foi encontrado, em 2005, na Alemanha. Logo em seguida, veio o vibrador à vapor do médico norte-americano George Taylor, em 1869, com fins medicinais. Em 1880, surgiu o vibrador à manivela, pelo médico inglês Joseph Mortimer Granville. Segundo Bárbara, o que faltou nesse tempo todo foi a educação sexual. No Brasil, o problema persiste até hoje.

'As pessoas confundem, ainda hoje, educação sexual com ensinar a transar. Ninguém ensina uma criança a transar, é óbvio que não. O objetivo é falar sobre o nosso corpo, para que cada um entenda os limites e cresça consciente. Os pais, em casa, não abordam esses assuntos importantes com os filhos e futuramente acaba virando uma grande questão', explica Bárbara.

'Muitas mulheres só começam a conhecer o corpo mais velhas'

'Quando se trata de pessoas mais velhas, todos pensam que a mulher não tem nenhum desejo. Essa é a ideia que existe junto do envelhecimento e não é verdade. Por isso, é necessário que mulheres maduras e mães falem sobre esse assunto na internet. Eu, você e muitas pessoas nasceram a partir de uma relação sexual, então os mais jovens deveriam inspirar e incentivar esse assunto nos mais velhos de forma positiva', comenta a sexóloga.

Bárbara comenta que a resistência de alguns jovens sobre o assunto também é alimentado pela mídia, que raramente conversa sobre o prazer feminino. 'Muitas mulheres só começam a conhecer o corpo mais velhas. Às vezes, veem a sua vulva anos depois e ela sempre esteve ali, faz parte de você. É por isso que a educação sexual é tão importante. Mesmo progredindo, acredito que, infelizmente, esses assuntos sempre serão um tabu'.

Mãe e dona de uma loja de brinquedos sexuais, Bárbara finaliza reiterando que esse preconceito social pode afetar diretamente mulheres que são mães, por exemplo. 'Elas acabam criando um tabu diante disso, porque se anulam, muitas vezes, apenas para fazer o papel de mãe e são vistas somente assim. Outros prazeres são esquecidos e o prazer que fica é aquele não sexual, ligado com a maternidade, e isso é ótimo, mas é preciso lembrar que ela é um indivíduo'.

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