Comportamento

Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo


'Homens mandam o dinheiro para a mulher comprar chocolate e pedem selfie dela segurando e sorrindo', diz moderadora de grupo de fetiche em receber comida e dinheiro de desconhecidos — Foto: Getty Images
'Homens mandam o dinheiro para a mulher comprar chocolate e pedem selfie dela segurando e sorrindo', diz moderadora de grupo de fetiche em receber comida e dinheiro de desconhecidos — Foto: Getty Images

Há três anos, a monitora escolar Bea Cunha, 30 anos, estava passeando pelo Facebook quando encontrou o Grupo onde homens pagam iFood para mulheres. O nome chamou atenção. A proposta, que é receber presentes em dinheiro ou em comida de pessoas desconhecidas sem dar nada em troca, também. "Sou aquariana, muito aberta a novidades. Fiquei interessada em saber como funcionava e entrei", conta.

Bea se envolveu e gostou da dinâmica fetichista do grupo, que segue os princípios de dominação e submissão – apesar de nem todos os 130 mil membros serem adeptos do fetiche. Hoje, ela faz parte de outros cinco grupos com o mesmo propósito. "Já ganhei mimos caros, R$ 200 e R$ 300, e valores simbólicos, como R$ 0,50. Mas o que me atrai não são os valores, é o contexto de tudo: ser escolhida é o meu foco", conta.

Geralmente, funciona assim: uma pessoa disposta a dar os presentes – os chamados mimadores – oferecem, em postagens valores em dinheiro, vouchers ou gift cards de aplicativos de entrega. Quem se interessar comenta, e o mimador escolhe para quem quer dar o mimo. "Estar no grupo aumentou a autoestima, porque os caras escolhem para mimar quem acham mais bonitas, interessantes e que conversam melhor", diz Bea.

O grupo foi criado em 2020 por Carol, de 22 anos, que quer ser identificada apenas pelo primeiro nome nesta reportagem, como uma forma de alcançar mais pessoas para além do mundo fetichista. Cresceu tão rápido que a surpreendeu.

“Quando o primeiro mimador deu um iFood para uma moça, printaram e viralizou. Em três dias, tinha mais de 80 mil solicitações, tanto de fetichistas quanto de gente que queria ver se era verdade”, lembra. "No senso comum, as pessoas pensam que as mulheres estão mandando endereços, vendendo fotos ou passando necessidade. Não é nada disso. Esses são preconceitos de quem não entende como o grupo funciona."

Adepta do fetichismo há muitos anos, a professora e uma das moderadoras do grupo, Marina*, 23 anos, conta que conhecia grupos fetichistas em que homens transferem dinheiros e pagam boletos, mas foi a primeira vez que viu a relação com comida. "Comecei a interagir em novembro de 2020, no meio da pandemia. Nos primeiros dias ganhei R$ 10, R$ 20. Também já ganhei lanchões", conta.

O lado fetichista está na maneira como isso acontece. É comum que os mimadores sintam prazer em pagar coisas ou em serem “extorquidos” por mulheres, o que é definido como money slave (em português, é a junção das palavras dinheiro e escravo), ou sintam prazer em serem humilhados. "Tem homem que gosta de ser dominado, alguns gostam de ser chamados de inúteis, por exemplo. Mas tudo é combinado previamente", explica Bea.

Por mais que o dinheiro e a comida grátis sejam atrativos, para os fetichistas, este não é o lado mais importante da experiência. “Ter alguém que faz as coisas por mim e quer me ver bem faz com que eu me sinta poderosa. Nos dias em que não estou me sentindo bem, isso levanta meu ego”, narra a modelo, estudante e dominatrix Luana*, 20 anos

Foi no grupo que conheceu um homem que, desde agosto de 2022, paga a ela R$ 400 por mês. “Ele me dá R$ 100 por semana só para conversar. Não é nada sexual: ele mora em um internato e não tem contato com outras mulheres. É muito comum ver militares, por exemplo, adeptos do fetiche de dominação e submissão”, diz.

O homem também cobre custos extras, inclusive passagens para que sua namorada, de outro estado, possa visitá-la. “Não pago mais as contas de luz, internet e telefone. É o cara que paga. Mês passado consegui tirar R$ 1.200".

Perfil de mimadores

Além dos money slaves e de homens que sentem tesão em humilhação, é comum encontrar também adeptos do feederismo – homens que têm tesão em ver mulheres comendo ou em serem alimentados. “Por exemplo: tem homens que querem mimar com chocolate, mandam o dinheiro e pedem para a mulher postar uma selfie segurando o chocolate, sorrindo”, conta Marina.

Há ainda os cuckold, que são homens que têm fetiche em ser traídos. “Eles pagam dates da mulher com outros homens, bebida e até motel”, acrescenta a moderadora do grupo. “Eu e meu namorado já ganhamos lanches. Tem homem que gosta de mimar casais”, conta Bea, que se diz confortável na posição de dominadora: "Me sinto mais mulher e me sinto maravilhosa. Quanto mais coisas eu ganhar, melhor. Só aumenta minha autoestima.”

Por vezes, o papel se inverte e a pessoa dominadora é a que faz os pagamentos. “Para eles, acho que tem essa coisa de cuidar e de ser o provedor. Nesses casos, sinto que costumam gostar das meninas que criam uma narrativa de 'sofrida'”, pensa Luana.

Por mais que a maioria sejam homens, há mulheres entre os mimadores. Bea conta que percebe os mimos das mulheres como uma forma de sororidade, pela sensação de ajudar ou cuidar de outras mulheres.

"Procuro pessoas que façam comentários depressivos ou dizem que tiveram um dia ruim. Atualmente as pessoas estão machucadas e tristes, e dar um presente a alguém que não conheço me traz um sentimento muito gostoso", explica Thaina de Aguiar, de 23 anos. Por mais que já tenha recebido dinheiro, ela se identifica mais como uma mimadora.

Thaina explica que tende a enviar valores mais simbólicos – ou seja, mais baixos, que podem chegar até R$ 30. Na descrição da transferência do Pix, ela deixa uma mensagem de carinho. Ela ressalta que não se identifica com o fetichismo, mas gosta de fazer isso para melhorar o dia de alguém.

"Sei que alguns comentários depressivos feitos no grupo não são verídicos, mas isso não faz muita diferença. Independente da situação, qualquer um gostaria de receber um mimo inesperado. Para mim, é uma ação válida.”

Marina diz que motivações como a de Thaina fizeram ela perceber que a função do grupo também está em ser uma rede de apoio formada, majoritariamente, por pessoas desconhecidas. “Minha vida mudou drasticamente, não financeiramente, mas pela interação. Fiz grandes amigos e, hoje, sou noiva de um membro do grupo. Virou uma comunidade acolhedora e livre de julgamentos", diz.

Grupo proíbe troca de nudes e conteúdo sexual

Com a alta demanda do grupo, existem mais mulheres que querem receber mimos do que homens dispostos a pagar – principalmente quando não se trata de uma troca ou de uma interação que envolva, necessariamente, um desejo sexual. Luana, por exemplo, se lembra de conseguir faturar até R$ 500 no começo do grupo. Hoje, o valor está mais para o nível simbólico.

Com isso, é comum que existam mulheres que não busquem pela interação proposta pelo grupo e cheguem nas mensagens de mimadores pedindo lanches de forma muito direta.

“Para conseguir mimos, a mulher não deve mandar mensagens inconvenientes para o mimador, que é quem oferece o mimo e que determina o valor. O que devem fazer é agradecer os mimos que recebem em postagens e participar o máximo possível”, ressalta Carol.

Outra das regras rígidas e imutáveis do grupo é a proibição de troca de nudes, vídeos, packs ou qualquer tipo de conteúdo sexual. No entanto, é muito mais comum que os homens sintam liberdade para fazer esses pedidos – o que, reforça Carol, foge da proposta do grupo, apesar de existirem outros que permitam essa dinâmica.

Todas as mulheres que aceitaram participar desta reportagem contam que, em algum momento, foram abordadas por homens pedindo algo em troca, por vezes com agressividade ou mesmo tentativas de coerção.

Bea Cunha lembra que um homem com quem decidiu cortar a dominação começou a ligar e enviar mensagens de diversos chips diferentes. Ele parou depois de ela ameaçar fazer um boletim de ocorrência.

Luana relata a experiência vivida por uma amiga que aceitou fazer um striptease por vídeo: “O homem ofereceu R$ 450 e, no meio, sumiu da chamada e a bloqueou, sem pagar. Dias depois, ela recebeu várias mensagens dizendo que o vídeo estava em um site pornográfico, e que o cara estava ganhando dinheiro com isso".

"Infelizmente o que mais temos são homens que tratam mulheres de forma mercantilizada, que acreditam que precisa de uma troca para dar um mimo. Além de fugir da proposta do grupo, isso não se enquadra no fetichismo”, diz Carol.

As regras também proíbem que mulheres exponham abertamente dados pessoais, como endereços, telefones ou dados de contas bancárias. O ideal é que os mimos sejam enviados por Pix (de preferência, uma chave por e-mail), vouchers ou transferências por bancos digitais. “Tento deixá-lo mais seguro possível para todos, principalmente para mulheres”, acrescenta a criadora do grupo

Marina continua ao afirmar que a moderação do grupo é composta 70% por mulheres, e que há agilidade em checar denúncias e, se necessário, banir integrantes que comprometam a proposta do grupo.

"Prezamos muito pelo conforto das minas. Há muitos homens leigos em fetiche que acham que elas estão ali para saciar um desejo deles, ou que vai ser algo tipo 50 Tons de Cinza. Não é justo um mimo de R$ 10 para uma pessoa correr o risco de não saber como uma foto ou áudio vai ser usada.”

*A pedido das fontes, os nomes foram alterados para preservar suas identidades.

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