Comportamento

Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo


Margot Robbie em cena do filme "Barbie", que chega aos cinemas no dia 20 e pretende homenagear sem deixar de criticar a boneca — Foto: Reprodução/Warner Bros.
Margot Robbie em cena do filme "Barbie", que chega aos cinemas no dia 20 e pretende homenagear sem deixar de criticar a boneca — Foto: Reprodução/Warner Bros.

A primeira boneca negra que a comunicadora Rafaele Breves, 33 anos, teve foi dada de presente pelos pais quando ela tinha 9 anos. Era a Spice Girl Mel B, lançada no fim dos anos 1990 pela Galoob Toys – copiando o estilo da Barbie, da Mattel – junto das outras integrantes da girlband que estava no auge. “A Mel B foi a única boneca negra que tive a infância toda. Antes, as que eu tinha eram todas brancas.” O gosto por bonecas permaneceu depois de adulta, mas só em 2017 comprou outra Barbie negra.

A partir de então, a comunicadora passou a se interessar em colecionar apenas bonecas com a cor de pele parecida com a dela. Hoje, tem mais de 100 delas. “Entendi o quanto esses elementos me fizeram falta quando criança. Então, decidi que compraria apenas bonecas que fossem parecidas comigo”, diz.

Barbie, a boneca mais vendida do mundo, foi criada nos anos 1950 pela empresária Ruth Handler. A concepção foi pensada em sua filha, Barbara: enquanto seu irmão, Ken, tinha brinquedos para explorar possibilidades de existência no mundo, como carrinhos, ferramentas e armas, a menina só tinha bonecas de papel que poderia trocar de roupa ou bebês para “treiná-la” para a maternidade. A ideia era de trazer à vida uma boneca com um design mais adulto a qual as meninas pudessem projetar como queriam viver suas vidas. O lançamento aconteceu em 1959 pela Mattel.

Rafaele Breves, 33, com parte de sua coleção, que conta apenas com Barbies negras — Foto: Reprodução/Acervo pessoal
Rafaele Breves, 33, com parte de sua coleção, que conta apenas com Barbies negras — Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Sttela Vasco, pesquisadora e mestre em estudos de gênero pela Universidade de Bologna, da Itália, explica que, para a época, Barbie foi um marco. "O feminismo contemporâneo dos Estados Unidos começou a vir com força em 1963. Betty Friedan lançava o livro A Mística Feminina, questionando o vazio que muitas donas de casa sentiam ao questionar seu papel na sociedade. Pensar que, nesse momento, surge uma boneca com uma imagem independente, dona de si e que não precisa de um marido para ter alguma função social é inovador", acrescenta Vasco.

A imagem de Barbie e todos os seus simbolismos começaram a ressoar fortemente com a proximidade da estreia do filme “Barbie”, dirigido por Greta Gerwig e estrelado por Margot Robbie. O longa chega aos cinemas mundiais no próximo dia 20 e, ao que parece, promete explorar a imagem da boneca sobre uma ótica feminista, mesclando o tom de homenagem com críticas ácidas.

O professor Cidney Sousa, 30, grande fã da boneca desde a infância, está animado para ver o longa. Foi aos 4 anos que começou a brincar na casa de amigas. “A coisa legal era poder brincar do que eu queria ser. Não tinha nada relacionado à sexualidade ou sobre se entender gay. Era brincadeira de criança.” Aos 10, passou a se reprimir porque se sentiu pressionado pelas divisões de gênero que diziam que Barbie era “coisa de menina”.

Mesmo assim, o amor nunca foi embora. “No primeiro ano de pandemia, decidi comprar uma edição especial dos anos 1960, a Proudly Pink: uma Barbie de porcelana com rosto vintage e roupa rosa choque. Depois, comprei outras com que brinquei na infância. Foi a forma que encontrei de curar minha criança interior”, conta. "Para mim, Barbie sempre foi uma amiga, um símbolo de força e coragem. Me trazia a noção de que há um mundo para explorar.”

O professor Cidney Sousa, 30, voltou a comprar Barbies para curar sua criança interior — Foto: Reprodução/Acervo pessoal
O professor Cidney Sousa, 30, voltou a comprar Barbies para curar sua criança interior — Foto: Reprodução/Acervo pessoal

O “de tudo” que Cidney quer dizer não é exagero. Desde de sua criação, Barbie teve mais de 160 profissões. Já foi astronauta, médica, presidente e era dona de casas luxuosas, tudo isso em uma época em que esses objetivos pareciam impossíveis para as mulheres conquistarem.

Apesar do afeto, Cidney reconhece que existem faces da Barbie que são questionáveis para muitas pessoas – e respeita essas visões. Se no início de sua existência a Barbie era vista como uma boneca intocável, com o tempo essa perspectiva foi sendo refletida de maneira mais crítica. Percebeu-se que a mensagem de “poder ser o que quiser”, como diz o slogan, poderia ser um conceito seletivo.

Pressão estética e reforço de papéis de gênero

Se por um lado Barbie se tornou uma ferramenta empoderadora para meninas, por outro, precisou abraçar alguns estereótipos de gênero para ver a luz do dia e se manter no topo.

Barbie é frequentemente criticada por incentivar a busca por um corpo impossível: a cintura inalcançavelmente fina, a silhueta magra, as pernas longas, os seios em pé e os cabelos dourados, só para citar algumas características. A principal inspiração para a criação dela veio de uma boneca Bild Lilli, uma pin-up alemã vendida para homens e que protagonizava contos eróticos em cartoon.

Cartoons e boneca da Build Lilli expostos no Toy Museum, em Praga, na República Tcheca — Foto: Reprodução/Barbie Museum
Cartoons e boneca da Build Lilli expostos no Toy Museum, em Praga, na República Tcheca — Foto: Reprodução/Barbie Museum

O corpo e os moldes de Lilli foram replicados em Barbie, e se mantiveram os mesmos, com poucas variações, por décadas. Com o movimento feminista aquecido nos Estados Unidos, a boneca foi criticada por reforçar padrões opressores com os quais as mulheres tentavam se desvencilhar.

No episódio dedicado à Barbie da série documental Brinquedos que Marcaram Época, disponível na Netflix, uma ex-estilista da Mattel explica que o corpo irreal de Barbie funcionava para que as roupas se acomodassem perfeitamente em seu corpo. Mas o culto à magreza ficou aparente em 1965 com o lançamento do kit Festa do Pijama, que tinha uma balança que marcava 50 kg e um livro que dizia “como perder peso: não coma” na capa e contracapa.

Balança e livro sobre como perder peso acompanham kit Festa do Pijama da Barbie, de 1965 — Foto: Reprodução/Reddit
Balança e livro sobre como perder peso acompanham kit Festa do Pijama da Barbie, de 1965 — Foto: Reprodução/Reddit

O potencial de despertar em meninas a vontade de fazerem algo grande em suas vidas e sua imagem sexualizada também fez Barbie ser vista como um risco para mães de meninas nos Estados Unidos.

“O maior medo das mães não era ter filhas libertas sexualmente, mas uma filha incapaz de conseguir um marido. Nos anos 1950, eles eram meios de sobrevivência. Se essa filha de maus modos aprendesse a se arrumar com uma Barbie, a mãe faria vista grossa para os seios e as compraria”, diz a escritora M. G. Lord, autora do livro Forever Barbie: The Unauthorized Biography of a Real Doll (Para Sempre Barbie: Uma biografia não autorizada da boneca real, em tradução livre. Não publicado no Brasil), na série.

Não à toa, o primeiro comercial da Barbie na TV a mostrava vestida de noiva, segundo M. G. Lord, “para lembrar às mães preocupadas qual era o objetivo da boneca”. Essa finalidade era notada pela pesquisadora de gordofobia Agnes Arruda, 38. “Quando brincava com ela, a versatilidade de profissões não era o forte. Para mim, ela era uma esposa troféu.”

Barbie em terras tupiniquins

Barbie foi alçada ao estrelato durante a Guerra Fria. “Neste momento, os Estados Unidos buscavam maneiras de evidenciar os valores capitalistas para se opor ao comunismo da União Soviética. A Barbie cumpria esse papel de exportar ao mundo a representação do sonho americano”, contextualiza Higor Gonçalves, professor e consultor de marketing.

A boneca aterrissou no Brasil em 1982, pela Estrela, enquanto o país enfrentava a ditadura militar – que chegaria ao fim cinco anos depois – e a crise da dívida externa, que aumentou a inflação e reduziu renda e emprego. Nada disso impediu que Barbie fosse uma grande febre. “As meninas que tinham Barbie estavam em outro patamar. Era motivo de status”, lembra Agnes.

Na época, a família da microempreendedora Renata Vidal, 45, vivia em situação de vulnerabilidade e mal tinha dinheiro para colocar comida na mesa. “Tinha um sonho tão grande de ter uma Barbie que tentei escrever uma carta para [o programa do SBT] Porta da Esperança. A que eu mais queria era a Barbie Noiva. Anos depois, minha irmã e eu ganhamos nossa primeira Barbie da minha mãe: era pirateada, tinha um cabelo de nylon que estragava fácil”, lembra.

Não bastava só a Barbie: ela queria a Casa dos Sonhos, o carro e a infinidade de roupas, sapatos, acessórios e bolsas – o que só conseguiu comprar depois de ter sua filha, em 1998. “Realizava por meio dela um sonho que eu tive. No meu aniversário de 33 anos, minha mãe finalmente me deu a Barbie Noiva que sempre quis.”

As promessas de libertação feminina que Barbie vendia não estavam ao alcance financeiro de todas as famílias. "Barbie era revolucionária apenas para a bolha a que pertencia. Naquela época já existiam mulheres que trabalhavam fora e precisavam sustentar as famílias. Mas elas não eram vistas, especialmente por serem mulheres não-brancas", pondera Sttela Vasco.

Barbie se comunicava diretamente com um público majoritariamente branco, que tinha recursos para gastar uma quantia razoável em um brinquedo. Assim, ela ainda carregava muito em si as noções de mulher ideal voltada à família. Era uma ‘emancipação’ com sabor de repreensão patriarcal
— Sttela Vasco

A vida em plástico

Filme de Greta Gerwig promete entregar diversidade entre Barbies e Kens. Na foto, destaque para Issa Rae como a Barbie Presidente — Foto: Reprodução/Warner Bros.
Filme de Greta Gerwig promete entregar diversidade entre Barbies e Kens. Na foto, destaque para Issa Rae como a Barbie Presidente — Foto: Reprodução/Warner Bros.

Ao longo dos anos, a Mattel atravessou fases de queda nos lucros, um indicativo de que Barbie precisava reinventar sua imagem e a forma como dialogava com as meninas. Talvez a crise mais intensa tenha sido a de 2014, com uma queda de 15% nas vendas.

O padrão da boneca se desgastou e Barbie foi perdendo o status de sonho. Em 2018, no Brasil, chegou a ser apropriada para parodiar mulheres brancas da elite do país. A Barbie Fascista aparecia posando de forma luxuosa acompanhada de frases como “Meu pai disse que o regime militar só matou bandido” ou “Não sou racista, tenho amigos negros”.

Antes de chegar à sua coleção de bonecas negras, Rafaele Breves sentiu um impacto na autoestima. “Talvez eu ter tido momentos em que não gostava do meu cabelo ou achava meu tom de pele errado vinha também do fato de ter brincado apenas com bonecas brancas.” Para Agnes Arruda, houve algo parecido: “Eu não conseguia me colocar dentro das situações da Barbie porque nunca me vi na Barbie. Eu era uma mera narradora.”

A marca só voltou a se reerguer de maneira positiva em 2016, com o lançamento da linha Barbie Fashionista, em que ganhou 4 novos biotipos, 35 tons de pele diferentes – incluindo a opção com vitiligo – e 94 versões de cabelo. Também se tornaram mais presentes as Barbies com deficiência, o que para a psicóloga Priscilla Souza, que é cadeirante, é emblemático.

“Fiquei sabendo pela minha sobrinha, que se empolgou com a possibilidade de brincar com uma boneca parecida comigo. Acho fantástico que as Barbies com deficiência existam. É uma maneira de contribuir com a desestigmatização e de lutarmos contra o preconceito”, celebra.

Depois de queda no lucro, Mattel se reinventa em 2016 para entregar diversidade em bonecas — Foto: Reprodução/Mattel
Depois de queda no lucro, Mattel se reinventa em 2016 para entregar diversidade em bonecas — Foto: Reprodução/Mattel

"Quando tive acesso à boneca gorda, passei a vê-la com olhos positivos. Ainda está distante da realidade, mas é mais próximo. Ao mesmo tempo, essas bonecas estão disponíveis em menor quantidade, não estão em todos os lugares, são mais caras... Parece muito mais algo para falar que existe no catálogo do que para alguém tê-la na prateleira", pensa Agnes.

O mesmo pode se enquadrar para a menor quantidade de Barbies asiáticas, negras e com deficiência nas lojas. Rafaele já ouviu relatos de lojistas afirmando que os lotes fechados da Mattel contam com uma quantidade menor de Barbies não-brancas.

Ao falar na representatividade maior da boneca, é preciso lembrar: foi preciso uma queda nos lucros para atender a uma demanda que existe há anos. Higor Gonçalves explica que esse é o cerne do motivo da adaptação da Mattel: se adequar ao que pensam os compradores para vender mais.

“Não podemos ser ingênuas e achar que a Mattel está criando Barbies diferentes por ser uma empresa preocupada com a representatividade. Vivemos em uma sociedade capitalista. Ela é um produto e vai fazer o possível para conseguir se manter relevante”, reitera Stella Vasco.

Mesmo com tantas problemáticas, Rafaele acredita que as Barbies possam ter um poder transformador, e que a mensagem “você pode ser o que quiser” pode prevalecer – foi o que aconteceu com ela. Desde 2019, ela compartilha as histórias de suas bonecas no YouTube e Instagram Minhas Bonecas Negras. Em 2022, organizou a primeira exposição no Museu Histórico Paulo Setúbal em sua cidade natal, Tatuí, no interior de São Paulo.

Também leva sua coleção para escolas para mostrá-la a crianças brancas e negras e, assim, promover autoestima às crianças negras e dialogar sobre racismo estrutural. “Ao tirar a coleção do meu quarto, percebi que poderia impactar mais pessoas. As crianças e os adultos podem se reconhecer representados na boneca mais famosa do mundo.”

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