Comportamento
Por
Paola Churchill
, redação Marie Claire — São Paulo

Em um mundo no qual padrões de beleza são impostos constantemente, é fundamental discutir as complexas nuances da fetichização do corpo gordo e o impacto que isso tem nas vidas das mulheres que vivenciam essa realidade.

Antes de sair para qualquer encontro, a programadora Karina*, 20 anos, sempre vai até o espelho para ver se está tudo em ordem. Cabelo, maquiagem, look. Após conferir cada detalhe, dá um último suspiro e pensa: “Por favor, que o cara não seja babaca só porque sou gorda.” Ela nunca teve problemas em relação ao seu peso. A infância foi feliz e não existiu nenhum tipo de bullying na escola. Mas ao entrar na adolescência e se deparar com o lado romântico da vida, percebeu que algo estava errado.

“Os caras queriam ficar comigo, mas no sigilo, como se fosse proibido ficar com uma mulher gorda. Me sentia desejada, mas não amada. É um pensamento bem ferrado, que só melhorou depois de muita terapia”, diz, em entrevista a Marie Claire.

O momento em que mais se sentiu fetichizada pelo fato de ser gorda foi em um encontro em 2022. “Saí com um rapaz, nos conhecemos em um bar e depois fomos para a casa dele. Quando fomos transar, ele me apertava demais. Não era nos peitos ou na bunda, que é algo mais comum. Mas na barriga, nos braços, nas coxas, quase como se tivesse raiva do meu corpo. Naquela hora, senti raiva de mim também.”

Thaís Carla já passou (e ainda passa) por essa situação: “Quando alguém fala que vai ficar com uma mulher gorda, é um evento. Servimos para matar o desejo alheio ou a curiosidade.” — Foto: Reprodução/Instagram
Thaís Carla já passou (e ainda passa) por essa situação: “Quando alguém fala que vai ficar com uma mulher gorda, é um evento. Servimos para matar o desejo alheio ou a curiosidade.” — Foto: Reprodução/Instagram

A fetichização do corpo gordo

A ativista e influenciadora Naiana Ribeiro se deu conta de que passou por várias situações constrangedoras desde a adolescência: “Estava no 3º ano do Ensino Médio e naquelas dinâmicas de ir fantasiado para arrecadar dinheiro para a formatura (quem não ia, pagava uma taxa), o tema era 'profissões', e fui de policial. Lembro de usar uma camiseta e calça legging preta, um quepe e acessórios. Um professor me puxou na sala de professores e, diante de outros dois ou três, falou: 'Dá para o gasto'. Fiquei tão mal e não me dei conta na época do quão violento e reducionista foi aquela fala. Ele me olhava como se eu fosse um pedaço de carne”, relembra.

Infelizmente, a fetichização da mulher gorda é muito mais comum do que se imagina. “Vivemos em uma sociedade na qual corpos padrões são os desejados. Então os corpos dissidentes, incluindo gordos, principalmente de mulheres, são colocados em uma categoria de fetiche para despertar desejo. A fetichização faz com que o corpo gordo seja reduzido a uma coisa, um objeto sexual, que só serve para dar prazer e não serve socialmente para namorar, trabalhar, para ser o que ele quiser. Só serve para satisfazer o desejo”, completa.

A jornalista Naiana Ribeiro fala sobre como a fetichização do corpo gordo muda a vida da mulher — Foto: Reprodução/Instagram
A jornalista Naiana Ribeiro fala sobre como a fetichização do corpo gordo muda a vida da mulher — Foto: Reprodução/Instagram

A filósofa, professora, doutora em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT, pesquisadora pós doutoranda em psicossociologia na UFRJ, PHD em Gordofobia, Malu Jimenez, tem se dedicado a compreender e revelar as camadas dessa problemática social e as consequências devastadoras que a fetichização tem na autoestima.

"A pessoa começa a se questionar se gostam dela pelo que ela é ou pelo seu peso. Isso acaba afetando todos os seus relacionamentos e até a relação consigo mesma", explica a filósofa. Jimenez enfatiza que essa questão raramente é discutida, perpetuando um ciclo de insegurança e desconforto.

E não são apenas anônimos que passam por isso. Com mais de 12 milhões de seguidores só no TikTok, a influenciadora Thaís Carla já passou (e ainda passa, nas redes sociais) por essa situação. “Quando alguém fala que vai ficar com uma mulher gorda, é um evento. Servimos para matar o desejo alheio ou a curiosidade. Porém, não somos válidas para o afeto. Passei muito por isso. Quando recebia uma cantada, me sentia um extraterrestre. Às vezes, pedem para me ver comendo. Ninguém fala assim quando está se referindo a uma pessoa magra”, relata.

Malu Jimenez tem se dedicado a compreender e revelar as camadas dessa problemática social — Foto: Arquivo pessoal
Malu Jimenez tem se dedicado a compreender e revelar as camadas dessa problemática social — Foto: Arquivo pessoal

Fetiche e desejo: a linha tênue

Malu ressalta que o problema não está em apreciar o corpo de uma mulher gorda, mas sim em enxergá-la apenas como um objeto de desejo, sem humanizá-la. "Uma coisa é o fetiche em transar com pessoas gordas, outra é desumanizar essa pessoa", destaca a filósofa. Para ela, é fundamental reconhecer a individualidade e a humanidade por trás do corpo.

A pesquisadora observa ainda que a fetichização de corpos gordos é frequentemente abordada de maneira superficial e não é aceita. "Dentro de quatro paredes ou pela internet, o acesso para o desejo é permitido, mas isso não pode ser assumido socialmente", comenta, destacando que existe uma diferença crucial entre o desejo e o respeito pela pessoa por trás do corpo.

Jimenez também comenta como isso pode afetar a autoimagem. Ela menciona casos desconfortáveis, como ser tocada sem consentimento ou receber comentários desumanizantes. "As mulheres se sentem violadas, como se estivessem sendo escolhidas como pedaços de carne". Segundo ela, após passar por essas situações, é importante buscar apoio terapêutico e educacional para reconstruir a autoestima.

Naiana completa o pensamento dizendo que isso acaba acarretando problemas não só na vida sexual, mas na vida amorosa de quem passa por isso: “A grande dificuldade das pessoas gordas não é encontrar parceiros(as) para transar, mas sair do limbo fetichizante e da objetificação. Esse ambiente fetichista é um lugar propício aos abusos… A partir do momento que aquilo que desumaniza o corpo gordo passa a ser seu único valor, é instalado um ambiente de exploração.”

Thais Carla e a família  — Foto: Reprodução/Instagram
Thais Carla e a família — Foto: Reprodução/Instagram

Um olhar com carinho

Apesar de ter vivido momentos complicados na vida amorosa, Karina não desistiu de encontrar o amor. “Sei que está por aí, mas não sei muito bem onde. Depois de muita terapia, já consigo identificar quando o cara quer estar comigo ou só me vê como um pedaço de carne. E isso é bom, não?”, brinca.

Já Thais Carla teve seus maiores medos vencidos. Atualmente é casada com o fotógrafo Israel Reis e tem duas filhas, Eva e Maria. “A dica é não se contentar com qualquer coisa, mas sempre querer o melhor para si. Todas nascemos com autoestima alta, com amor próprio. Isso é tirado de nós. Passem a se olhar no espelho com mais amor”, finaliza.

Malu ainda acrescenta que as mulheres gordas também gostam de fazer sexo. “É preciso parar de achar que nós não transamos e temos relações sexuais boas. Nossas vidas não são apenas marcadas por momentos ruins. Gostamos de sair, transar e namorar, assim como todo mundo.”

*O nome foi mudado a pedido da entrevistada

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