Cirurgia plástica e figuras públicas: qual é a responsabilidade?
Jade Picon revelou que colocou silicone, mas que não vai compartilhar o processo da cirurgia para não incentivar os seguidores a passar pelo procedimento. A decisão provocou uma série de discussões em torno do assunto. Afinal, quais são os cuidados e as responsabilidades que as figuras públicas têm em relação a procedimentos estéticos e como chegamos ao ápice da cultura da imagem?
Por Juliana Picanço, Redação Marie Claire — São Paulo
Na era em que as redes sociais têm grande influência na percepção de beleza e autoimagem, influenciadores digitais e figuras públicas têm, cada vez mais, um papel significativo ao compartilhar suas experiências e opiniões sobre diversos temas. Esse impacto vai além da mera estética, estendendo-se à saúde mental e às decisões pessoais, como a consideração de procedimentos cirúrgicos.
Bastou que Jade Picon revelasse que passaria por uma cirurgia de implante de silicone nos seios para que a discussão sobre a responsabilidade que pessoas de influência devem ter em relação a cirurgias plásticas tomasse as redes sociais. A jovem, que atualmente tem 22 milhões de seguidores no Instagram, afirmou que não iria compartilhar detalhes sobre o procedimento para não influenciar ninguém a fazer o mesmo.
“A atitude mais madura que posso ter, sabendo de toda a responsabilidade que tenho, é dizer que não vou mostrar processo, não vou mostrar recuperação… nada que possa influenciar alguém a fazer o que estou fazendo. Porque estou aqui há anos, sei do impacto que as minhas ações têm na vida de quem me acompanha e admira. E esse não é o conteúdo que gostaria de repassar para vocês. Cirurgia é uma coisa muito séria e que tem que ser tratada com responsabilidade”, completou.
A influência na autoimagem e na autoestima
A revolução tecnológica transformou a maneira como nos relacionamos, comunicamos e percebemos o mundo ao nosso redor. As mídias sociais, ao conectar pessoas e compartilhar instantaneamente informações, tornaram-se um elemento inseparável da vida moderna, trazendo consigo também desafios significativos ao longo dos anos, como a influência na autoimagem e autoestima, especialmente entre as mulheres.
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“É importante incentivar a compreensão de que a mídia social não é vida real. O fenômeno da mídia social influencia a relação da mulher com o corpo e com a autoestima, mas essa é uma história muito antiga, que começa no cinema. Isso atravessa todo nosso comportamento cultural imagético desde o Renascentismo (entre os séculos XIV e XVI). O que está acontecendo hoje é que como nós, massa, não temos higiene digital, nós acabamos mais vulneráveis e expostos a ideais de beleza, estética e perfeição de uma forma mais radical”, explica a especialista em tendências de comportamento e consumo e cofundadora da Dezon Creative & Prospective, Iza Dezon.
O desafio está, muitas vezes, na forma como os ideais de beleza são absorvidos e internalizados na era digital. Iza explica que a falta de uma abordagem mais crítica e consciente sobre o consumo faz com que as pessoas fiquem mais vulneráveis a esses padrões, que podem afetar nossa autoestima e bem-estar emocional.
De acordo com os dados mais recentes da pesquisa realizada pela Sociedade Internacional da Cirurgia Plástica (ISAPS em inglês), divulgada em 2022, o Brasil é o segundo país que mais realiza cirurgias plásticas, perdendo apenas para os Estados Unidos. O Estudo contou com entrevistas de mais de mil profissionais da área e os dados são de 2020.
Ainda segundo a pesquisa, foram realizadas cerca de 1.306.962 operações no país. Entre os procedimentos mais realizados estão os de rosto/cabeça, corpo e extremidades e aumento de mama. A abdominoplastia foi a escolha mais popular entre as opções de cirurgias: cerca de 112.186 realizadas.
Quanto à distribuição de gênero, o levantamento indicou que, no panorama mundial, 86,3% dos procedimentos cirúrgicos são realizados por mulheres e 13,7% por homens. A mamoplastia de aumento é a operação mais feita por mulheres.
“Acima da responsabilidade sobre o comportamento estético dos influenciadores, o ponto dessa discussão é a responsabilidade para com o que é a realidade e o que é trabalho. Qual é a curadoria? Até porque, eu escolho mostrar o que está nas redes sociais, não é um reality show”, aponta.
Partindo desse princípio, a influenciadora digital Shantal Verdelho também decidiu não expor o processo da sua cirurgia estética. Em entrevista à Marie Claire, ela conta que a transparência é essencial na comunicação com os seguidores.
“Acho que a responsabilidade do influenciador digital é um assunto muito mais amplo, não só na questão da cultura da imagem. Não acho que a gente não possa fazer nenhum procedimento estético, mas é importante ser transparente com os seguidores. Ter uma conversa sincera, que não os influencie diretamente a passar pelos procedimentos.”
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A empresária conta que também mudou a forma de falar sobre cirurgias plásticas nas redes sociais ao longo dos anos: “Passei por duas. A primeira foi uma rinoplastia. Eu ainda era muito imatura em relação ao meu comportamento e responsabilidade na internet, então, mostrei todo o processo e romantizei muito, indiquei para as pessoas fazerem, dei todos os detalhes, etc. Já na segunda, fiz diferente. Acabei de fazer uma cirurgia de lipoaspiração com preenchimento no glúteo, e durante o processo, acabei decidindo não falar sobre o procedimento. Porém, as pessoas começaram a perceber que meu corpo estava diferente, a me fazer perguntas sobre como eu tinha conseguido ficar daquele jeito. Então senti que seria melhor contar, mas sem romantizar”, conta.
“Falei: ‘gente, fiz uma cirurgia, por isso que meu corpo está assim. Não vou entrar em detalhes do procedimento, de como foi, o que fiz, porque não quero incentivar ninguém a fazer. A recuperação demora horas, tem que ficar paralisada, você não pode carregar a criança no colo e por aí vai. Então, gostaria de dizer que sim, eu fiz algo. Não posso sugerir que ninguém faça. Porém, estou contando aqui que fiz e achei que desse jeito foi melhor’. Foi o meio termo e pra mim, o melhor caminho”, complementa.
Vida real X Vida virtual: a transparência como prioridade
O avanço da técnica de manipulação e de criação de uma realidade virtual ideal fez com que houvesse uma inversão do que é inspirado no real e o que é idealizado. “Antes, nós buscávamos sair o melhor possível naquela foto. Agora, nós criamos uma realidade nossa por meio de um filtro, de edição. Dessa forma, você se sente infeliz, corre atrás de uma imagem criada de você mesmo através de procedimento cirúrgicos, através de alteração”, explica a pesquisadora na área de Saúde Mental e Gênero, Valeska Zanello.
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“Isso também acontece com os influenciadores digitais. Mais ainda, porque eles ocupam um lugar que chamamos de transferência: são colocados num lugar que tem um impacto e uma influência muito grande, além de geralmente serem idealizados. Sendo assim, vemos grandes personalidades que gastam uma fortuna por mês por um tratamento para o corpo, mas vendem aquilo como se fosse algo natural, aparecem bebendo e comendo o que querem etc. Isso cria uma espécie de desejo e ao mesmo tempo de infelicidade nos seguidores, principalmente as mulheres, que são muito mais afetadas pelo ideal estético”, esclarece.
Enquanto enfrentamos os desafios impostos pelo mundo digital, também é importante lembrar que a história por trás da influência da mídia na relação da mulher com sua aparência é comprovada e tem raízes antigas. Ao fazer isso, podemos começar a abordar os desafios atuais de maneira mais informada, crítica e capacitada, buscando um equilíbrio entre a vida virtual e a realidade.
"O capitalismo lucra com a infelicidade de gênero, especialmente das mulheres. Esse lucro vem sobretudo pela infelicidade estética. A gente aprende que o maior capital que nós temos é o nosso corpo e que ele deve atingir um determinado ideal estético, que também é historicamente firmado. Quanto mais infeliz você estiver se sentindo distante desse ideal, mais você vai consumir", afirma Zanello.
"Promover essa infelicidade faz parte do sistema e de incitar as mulheres a consumir procedimentos e produtos estéticos. Quando uma influenciadora propaga isso, ela pode não se dar conta do papel que ela está exercendo nesse sistema, nem que incitando ou ajudando a manter o sofrimento das mulheres no ideal estético. É importante ter consciência dessa responsabilidade, inclusive para ajudar a mudar essa realidade", complementa.
No entanto, com uma audiência cada vez mais diversificada nas mídias digitais, além de gostos variados, a noção de um público homogêneo tem dado lugar a um panorama diverso. Esse movimento contribui para o aumento da valorização de diferentes perspectivas sobre beleza.
“Eu vejo que estamos vivendo uma tentativa de abordar essa conversa de outra maneira. Já vemos pessoas falando que se arrependem de terem feito cirurgias plásticas, como a Kylie Jenner. Também temos pessoas em transição, como quem decide não dar detalhes dos procedimentos. Nós estamos vendo esse movimento de pessoas falando até mais do que a gente esperava de algum aspecto ou outro da vida delas. Acho que isso é fundamental em um mundo em que, de qualquer maneira, alguém tem uma opinião sobre o corpo da mulher e que nós somos treinadas para ter uma opinião de outras mulheres”, reforça Dezon.
“A gente sempre vai ter narrativas paralelas. Porque o público não é um, ele é cada vez menos um. Acredito que, cada vez mais, vamos discutir lugares diferentes da beleza. Nós estamos tendo uma abordagem mais plural. Não vejo mais extremos, não acredito que chegaremos em um lugar onde tudo vai virar de um jeito ou de outro, como já foi. Eu vejo que, ao termos mais vozes diversas em todos os sentidos na Esfera Digital e mais noção do que é beleza, teremos mais focos diferentes, mais realidade e menos filtros’, reflete.
Uma tendência notável é a busca por autenticidade e transparência. Em um mundo onde a maioria das imagens compartilhadas é cuidadosamente editada e filtrada, os espectadores anseiam por conteúdo "sem filtros".
“Não acho que ninguém tem a obrigação de contar que passou por cirurgia plástica, porém, acredito que ninguém tem o direito de mentir para quem os acompanha, principalmente se você trabalha como produtor de conteúdo. Entendo que você ache nocivo estimular as pessoas a passar por procedimentos estéticos, mas quando você começa a mostrar o seu corpo e dizer que é resultado de um creme, uma massagem ou um treino milagroso, é mentira”, diz Shantal.
“Sempre mostrei o meu corpo como ele estava em todos os momentos. Quando engordei, engravidei, tive filho, nunca deixei de postar ou editei fotos porque era a realidade. Mesmo quando não me sentia bem com o meu corpo, não enganava as pessoas”, explica.
“São muitos cenários. Costumo dizer que o fundamental é o RH. A gente tem uma geração, que está aprendendo a programar, mais jovens, mais diversidade tomando conta deste lugar da imagem. Pode ser que a coisa comece a mudar de forma mais tangível e uniforme. Hoje, a gente ainda tem um uso da imagem da internet que é extremamente machista. Ainda é uma pressão que está sendo imposta por um sistema que objetifica o corpo da mulher em todos os sentidos”, complementa Dezon.









