Comportamento
Por
Bruna Liu
, redação Marie Claire — São Paulo

Do fenômeno que é o K-Pop à estética de animes no mundo da moda, a popularização da cultura do leste asiático na sociedade ocidental tem aumentado cada vez mais. Esse crescimento tem, no entanto, um efeito colateral: o asian fishing. O termo é recente, mas a problemática que ele carrega é antiga. Popularizada por criadores nas redes sociais, a expressão escancara o racismo contra pessoas amarelas.

Mas, o que exatamente é asian fishing? Semelhante ao catfishing, que vem do inglês e consiste em alguém fingindo ser outro on-line, ele acontece especificamente quando uma pessoa que não é asiática tenta se passar por um asiático, seja por meio de edição de fotos, maquiagem ou até mesmo cirurgias plásticas.

Um dos problemas da prática é quando essa ação passa a reproduzir várias opressões raciais, uma delas é a “manutenção da branquitude enquanto estrutura dominante”, como explica Karina Kikuti, psicóloga e pesquisadora de relações raciais, principalmente a racialidade amarela.

No caso, a branquitude seleciona “partes desejáveis” de características orientais para copiar por pura estética. “Historicamente, esses mesmos traços foram e são usados para ridicularizar, inferiorizar, animalizar, fetichizar e objetificar pessoas amarelas”, comenta, em entrevista com Marie Claire.

“Se em pessoas amarelas tais características são motivos de piada, enquanto que em pessoas brancas se tornam ‘bonito’ ou ‘na moda’, isso revela uma diferença imensa em como o mesmo traço pode ser interpretado pela cultura dominante de formas diferentes e opressoras quando se está no corpo de uma minoria racial”, exemplifica a especialista.

A influenciadora Bruna Tukamoto, criadora de conteúdo que discute sobre preconceito amarelo, chama atenção também para a maneira como os traços raciais asiáticos se tornaram “um simples objeto mercadológico, motivado principalmente pela recente popularização da indústria cultural leste asiática.”

“Sinto como se a etnia asiática tivesse se tornado moda e se transformado em meros adereços de beleza, sendo possível se apropriar dos nossos traços raciais e simplesmente se despir deles quando quiserem, como se fossem descartáveis.”

Um dos exemplos, que foi popularizado por Bella Hadid, Kylie e Kendall Jenner, em 2020, é o foxy eyes. A estética deixa os olhos com o formato mais amendoado, característicos de pessoas de ascendência asiática. Dentre os elementos da trend estavam o delineado que alonga o olhar, cirurgia plástica que estica as têmporas e pose puxando os olhos com as mãos.

 Bella Hadid foi uma das influenciadoras que popularizou o foxy eyes  — Foto: Reprodução
Bella Hadid foi uma das influenciadoras que popularizou o foxy eyes — Foto: Reprodução

A moda gerou discussão na época, com influenciadoras amarelas abrindo uma reflexão quanto a essa técnica. No Instagram, Gabriela e Thalita Zukera, as irmãs do @twolostkids, escreveram: "Meus olhos não são uma tendência. Não podemos simplesmente lavar o rosto e mudar o formato dos nossos olhos. Por isso, trouxemos essa reflexão por aqui. Por que nossos olhos foram motivo de piada e, hoje, quando reproduzidos em pessoas brancas, isso de repente vira bonito e tendência?"

À Teen Vogue, a influenciadora de beleza americana-filipina, Jordan Santos, relatou que seus olhos foram usados por seus colegas não-asiáticos para "diferenciá-la" em sua juventude: “Enquanto crescia, eu era um pouco insegura em relação aos meus olhos. Desejava que eles fossem mais redondos, menos amendoados, porque as pessoas zombavam dos olhos asiáticos. É perturbador, mas infelizmente não é surpreendente que o mesmo olhar usado pelos não-asiáticos para insultar os asiáticos pelo formato de seus olhos esteja sendo usado agora para fins estéticos.”

Jordan Santos: influenciadora comentou que seus olhos foram motivo de insegurança — Foto: Reprodução
Jordan Santos: influenciadora comentou que seus olhos foram motivo de insegurança — Foto: Reprodução

Bruna Tukamoto cita que o racismo contra amarelos ainda é muito deslegitimado: “Existe uma falsa ideia de que o racismo está presente somente nas agressões mais explícitas, como em violências físicas, verbais, quando, na verdade, o racismo também se manifesta em agressões mais sutis.”

“Quando falamos de racismo contra amarelos, estamos falando principalmente de micro agressões e, mais do que isso, em micro agressões que sempre foram tratadas como brincadeiras e piadas. Então, quando questionamos todas essas discriminações raciais que sempre foram naturalizadas, normalmente há uma resistência do outro para entender, e inclusive, aceitar a problemática racista por trás disso."

Karina Kikuti também colabora com o tópico ao afirmar que grande parte das pessoas brancas “banalizam o racismo justificando que ser considerado ‘mais inteligente, ético, trabalhador, pontual’, entre outras características que entendem como ‘positivas’, é algo bom e não se configura como uma violência racial porque são ‘elogios’”.

Apreciação cultural X Apropriação cultural

Para a especialista, apreciar só é possível “quando há respeito e entendimento sobre as diversas nuances daquela cultura” e elas envolvem não só a cultura enquanto “um conjunto de símbolos, modo de vida, costumes, saberes, expressões artísticas e estéticas, mas também, violência, desvalorização, marginalização, estereotipia, estigmatização, objetificação, fetichização.

“Pertencer à cultura dominante e adotar símbolos de uma cultura desvalorizada há séculos pode ser ofensivo e desrespeitoso quando não se está atento a essas particularidades”, continua Karina Kikuti.

“A apropriação cultural também depende de um contexto, porque tem a ver com cultura, que é algo construído coletivamente e, também, individualmente. Então, se eu, amarela nipo-brasileira, considero uso de kimono em festas de carnaval uma apropriação cultural, talvez uma outra pessoa amarela nipo-brasileira não considere, porque kimonos não tem o mesmo valor para nós individualmente, mesmo compartilhando da mesma ancestralidade.”

A psicóloga finaliza: “Se a pessoa quer apreciar a cultura asiática, sugiro que apoie iniciativas asiáticas, consuma conteúdo asiático feito por asiáticos, pergunte pras pessoas asiáticas ao redor como elas se sentem sobre apropriação e as ouça respeitosamente, pesquise sobre a história asiática e sobre como a Ásia (nesse recorte, o leste-asiático) se relaciona com o ‘ocidente’”.

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