Comportamento

Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo


Com a dinâmica viciante dos algoritmos das redes sociais, dar "só uma olhadinha" no feed se tornou uma espiral que dura muitas horas — Foto: João Brito (Imagens geradas com Inteligência Artificial)
Com a dinâmica viciante dos algoritmos das redes sociais, dar "só uma olhadinha" no feed se tornou uma espiral que dura muitas horas — Foto: João Brito (Imagens geradas com Inteligência Artificial)

Qual é a primeira coisa que você vê quando acorda e a última antes de dormir? Se a sua resposta foi a tela do celular, estamos juntas – e precisamos, mais do que nunca, falar sobre isso e sobre os efeitos (sorrateiros) do burnout digital.

Se, assim como eu, você recorre às redes para tentar relaxar, pode já ter sentido exatamente o oposto disso. No fim do horário de trabalho, dou ao meu cérebro meia hora para checar as novidades no Instagram, responder mensagens no WhatsApp e rir de alguns memes no TikTok. Esses minutos, num piscar de olhos, viram horas, e na vida real as coisas começam a sair do lugar. As tarefas acumulam, deixo de dar atenção para alguém e sinto meu fluxo de pensamento ser constantemente interrompido. Quando vejo que com o tempo que fiquei rolando o feed em busca de algo – que não sabia o que era – eu poderia ter lido 50 páginas do livro que pega pó na cabeceira da cama há meses, me percebo exausta e, pior, culpada.

Algo parecido também acontece com a comunicadora e ativista Gabi Oliveira, de 31 anos. “Quando passo mais tempo no celular, fico mais ansiosa e agitada. A gente está sempre com a sensação de que precisa estar com o telefone na mão para dar uma olhada em algo”, conta.

Gabi tem um canal no YouTube, em que soma 664 inscritos, e é dona do perfil @gabidepretas no Instagram, onde é seguida por mais de 630 mil pessoas. Mesmo trabalhando com internet, ela não está isenta de se sentir consumida. Tão consumida que, há três meses, tomou uma medida vista como drástica: comprou uma capinha de celular que tranca o telefone pelo tempo que ela desejar. Fez isso ao perceber que a tecnologia em excesso estava a dificultando de passar tempo de qualidade com os filhos.

“Ficava ansiosa para eles dormirem logo para poder usar o celular. Tentamos controlar o tempo das crianças diante das telas, mas não fazemos isso com a gente”, diz. A comunicadora “aprisiona” o celular à noite, pouco antes de dormir. “Nos primeiros meses é difícil, dá uma angústia. Mas vale a pena. Agora consigo interagir melhor com as crianças, conversar com atenção e brincar mais. Também retomei a leitura. Percebo que o tempo rende mais quando estou afastada do celular.”

Fato é que os smartphones e as redes sociais se tornaram uma extensão de quem somos – e a real é que nos tornamos encantados pelas possibilidades infinitas ao rolar o feed. Essa é uma relação com a tecnologia que foi descrita na década de 1960 pelo teórico e filósofo canadense Marshall McLuhan. Em seu livro Os meios de comunicação como extensões do homem (ed. Cultrix, 408 págs., R$ 34,90), ele diz que qualquer meio capaz de amplificar nossas capacidades humanas não só causam fascinação, como, se em contato constante, podem transformar a maneira como funcionamos no mundo.

Os smartphones são um ótimo exemplo dessa teoria. Por mais que existam uma infinidade de bons atributos, essa mudança acompanha o ritmo dos tempos em que vivemos, também podendo ser fonte de exaustão. “Era para a tecnologia ser nossa aliada, mas acabamos exagerando na dose”, define a psicoterapeuta Karoline Oliveira, fundadora do projeto de psicologia afrocentrada Orisun.

Estudos já apontam que o uso excessivo das redes pode afetar a saúde mental. Nos Estados Unidos, o Centro de Pesquisa em Mídia, Tecnologia e Saúde da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh encontrou indicadores da relação entre redes sociais e o aumento da depressão – mulheres e pessoas de menor escolaridade são consideradas “grupos de risco”. No Brasil, a edição de 2019 do Indicador de Confiança Digital (ICD), coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrou que as plataformas causam tristeza, ansiedade ou depressão para 41% dos jovens.

Para Janine Motta, que trabalha com marketing, essa ansiedade é familiar. “Gosto de ver a vida das pessoas próximas de mim, mas acaba não sendo saudável porque me comparo muito. Acho difícil fazer a distinção do que é post e do que é real”, diz. A sensação foi amenizada por oito meses, período em que ela desativou sua conta no Instagram.

Nos três primeiros meses sem o aplicativo, sentia as mãos suarem. Janine compara com o que imagina ser uma abstinência de drogas. Foi quando começou a encontrar novas formas de se ocupar sem depender do celular. O resultado: leu mais, apostou nas caminhadas na rua e fez mais amizades – inclusive com os vizinhos, que ela até então sequer conhecia.

"As minhas conexões com as pessoas melhoraram. Lembro que ia jantar com meus amigos e, enquanto todos olhavam para o telefone, consegui deixar o meu na bolsa. Foi enriquecedor”, conta. Janine reativou o Instagram em agosto deste ano e, em dois meses, sentiu que todo progresso foi embora. “Me sinto viciada de novo.”

A atenção é uma moeda valiosa

Burnout digital: como sair do ciclo de exaustão causado pelo vício em redes sociais? — Foto: João Brito (Imagens geradas com Inteligência Artificial)
Burnout digital: como sair do ciclo de exaustão causado pelo vício em redes sociais? — Foto: João Brito (Imagens geradas com Inteligência Artificial)

Esse fenômeno é intenso, complexo e coletivo. A jornalista e pesquisadora integrante do Grupo de Pesquisa em Comunicação e Mídias Digitais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Issaaf Karhawi, que estuda mídias e influenciadores digitais, percebe que há chaves que conseguem materializar o porquê de nos sentirmos tão sugadas. Segundo ela, vivemos uma era de avalanche informativa. Nunca antes na história fomos tão expostas a um volume intenso de informações como hoje, o que intensifica a sensação de estafa. Até um “oi, tudo bem?” se torna um caso de vida ou morte. Ao mesmo tempo, há uma reorganização da maneira como percebemos nossa atenção e o tempo.

“A atenção é uma moeda valiosa e escassa, e é reivindicada em todas as plataformas; e fazem isso de forma cada vez mais complexa, oferecendo conteúdos acelerados e curtos, já que não conseguimos prestar mais atenção nas coisas. O tempo hiper acelerado e não humano, nas plataformas, é orquestrado sob a lógica do algoritmo”, diz. Você já deve ter se deparado com perfis de Instagram que passaram a postar vídeos propositalmente mais acelerados, como forma de fisgar sua atenção em menos tempo.

Some esse consumo voraz à necessidade de satisfazer nosso sistema de recompensas e a dificuldade de controlar nosso tempo on-line. “Quando se interage nas redes, o algoritmo envia o que te interessa, o que dá uma sensação de satisfação. Mas isso é momentâneo. Vamos precisar de doses cada vez maiores para saciá-lo”, explica Karoline.

É de interesse das plataformas que fiquemos retidas e hipnotizadas por cada conteúdo horas a fio. Afinal, quando perdemos tempo ali, as big techs lucram. Toda estrutura de feed infinito, conteúdos rápidos e criação de bolhas sociais facilitam para que tenhamos o desejo de estar presentes nesses espaços. São refúgios confortáveis e preparados especialmente para nós.

Do lado de cá, há anos existe um coro que pede que as redes sociais tomem responsabilidades por essa dinâmica viciante. Redes como TikTok e Instagram disponibilizam ferramentas para ajudar as pessoas a reduzirem seu tempo online – como relatórios de tempo, silenciamento de notificações ou mesmo limite de tempo.

Os aplicativos que ajudam com isso também bombam. O Space ensina maneiras de usar o celular com mais eficiência. O AppBlock bloqueia por um tempo os apps que causam distrações. Já o Forest, baixado 10 milhões de vezes, é uma espécie de game: ao cumprir objetivos offline, o usuário ganha como recompensa uma árvore virtual.

Issaaf e Karoline concordam que medidas individuais de controle de tempo online fazem sentido – desde que sejam acompanhados de um prazo ou pensadas de forma temporada. O mundo real está interligado ao digital, afinal, e ficar totalmente fora dele pode causar outros impactos, principalmente no quesito socialização.

Karoline pensa o seguinte: "Quando usamos as redes, temos que ter uma intencionalidade, entender nossos limites e ter autocontrole. Mas, para isso, a gente não pode estar vivendo no automático, se não ficamos nesse looping de querer descansar, ir para a rede social, ficar mais do que deveria e se sentir mais ansioso. A tomada de consciência precisa ser acompanhada de ação."

“O que nos frustra é essa sensação de uma autonomia roubada quase que por uma imposição. Não há um cenário apocalíptico, mas de entusiasmo para mim, que é o da literacia midiática, uma educação focada em desenvolver competências de habilidades para lidar com as mídias sociais e o algoritmo. Quanto mais a gente entende essas dinâmicas, mais podemos desenvolver medidas coletivas”, espera Issaaf.

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