Gordofobia na praia: ‘Um corpo desse ainda tem coragem de vir aqui e a gente tem que ver isso?’
Se o verão é a estação favorita de grande parte da população brasileira, muitas mulheres gordas sofrem ou sofreram com comentários na praia, piscina e até mesmo nas redes sociais. Em entrevista a Marie Claire, elas contam suas histórias
Letticia Munniz acumula mais de 1,1 milhão de seguidores no Instagram. A modelo e influenciadora inspira outras mulheres gordas a se empoderarem. Mas nem sempre foi assim.
“Até os meus 18 anos, eu odiava meu corpo. Desenvolvi transtorno alimentar. Chegou um ponto que tomava laxante todos os dias e me culpava se comia demais”, relembra ela e continua: “Lembro que comprava shorts que me machucavam, porque eram de um tamanho menor, e usava como forma de punição para emagrecer e caber nele”.
Com os anos, Letticia fez as pazes com o corpo e além de aparecer em capas das revistas de moda mais importantes do país, frequentemente ela posta fotos curtindo pelo mundo. Em um desses momentos, a modelo aparece ao nascer do sol do primeiro dia do ano com um vestido com transparência e brilhos.
A foto fez tanto sucesso que acabou virando notícia em um veículo de comunicação. E assim que abriu o link, sentiu todas as dores de quando era adolescente. A manchete dizia: “Letticia Munniz escandaliza ao surgir com os seios imensos à mostra”.
Ao relembrar, a modelo chora. “O recorte que deram foi gordofóbico, foi a primeira vez que me afetou uma matéria assim. Não porque me senti feia, mas sim porque me ofendi com as palavras. Percebi que tudo na minha vida não é só sobre mim, penso nas outras mulheres gordas que sofrem essas agressões diariamente. Foi de uma violência extrema”, revela.
“Várias famosas usam transparência, e para nenhuma delas foi usado o termo ‘seios imensos’, então por que na minha usaram? As mulheres que estão fora do padrão tem sentimentos, mas parecem que não tem o respeito e o corpo está ‘à disposição’ da sociedade para ser ofendido”, pontua.
Em fevereiro de 2018, fazia muito calor em Botucatu, interior de São Paulo. Talita*, que morava na cidade para estudar Engenharia, tentou de tudo: ficou na frente do ventilador no máximo, tomou sorvete e nada passava. Até que seu então namorado, Luís*, a chamou para ir à praia passar uns dias e aproveitar o recesso da universidade. Receosa por ser gorda e temer os julgamentos que poderiam vir, a estudante decidiu vencer a barreira, colocar um biquíni lilás que havia comprado recentemente e ir se divertir e se refrescar.
“Estávamos curtindo quando cheguei perto do mar e vi um grupo de adolescentes apontando para mim e me chamando de 'Okja'. Na hora meu namorado (agora ex) riu e eu fiquei sem entender, pois não sabia o que era. À noite, cheguei em casa e pesquisei e desde então não vou nem para praia, nem piscina”, conta em entrevista a Marie Claire.
Okja faz referência ao animal do filme de mesmo nome, dirigido por Bong Joon-ho. Ela é um animal místico que se assemelha a uma mistura de hipopótamo com elefante. “Eu fiquei mal por dias, até hoje essa história me dá gatilhos”, pontua.
O preconceito escancarado nas ruas, nas lojas e na falta de leis
Para as mulheres gordas, a estação mais quente do ano pode também ser a mais desafiadora. A influenciadora Amanda Emilio conta que além das dificuldades para encontrar roupas de banho em tamanhos maiores, ela passa por situações constrangedoras que envolvem olhares atravessados e risos de deboche.
“Tinha muita vergonha do meu corpo, muito medo do julgamento das pessoas quando eu usava roupa de piscina. Sentia que estava todo mundo olhando, me julgando e acho que isso vinha da insegurança que tinha comigo mesma e foi uma coisa que demorei muito tempo para me desconstruir”, relembra.
A publicitária Camila*, apesar de morar na região litorânea de São Paulo, não frequenta nenhuma praia por medo dos julgamentos. Mas teve um dia que a prima a convenceu a ir em um famoso beach club no Guarujá.
“Fui com uma regata preta e comprei um short de renda amarelo, bem de praia mesmo, aqueles que dá para ver o corpo. Eu sentia os olhares quando passava, eram de nojo. Uma hora, me levantei para ir no banheiro, e um dos homens virou para a filha e disse: ‘Nossa, um corpo desse ainda tem coragem de vir aqui e a gente tem que ver isso?”, relembra.
No Brasil, 57,25% da população é considerado acima do peso, segundo dados levantados pelo Ministério da Saúde no começo de 2022.
E mesmo assim, ainda não existe uma lei federal que fale de gordofobia especificamente no país. Mesmo não possuindo legislação própria, esse ato pode, por analogia e interpretação, se manifestar como injúria, assédio moral ou violência psicológica. Hoje em dia, a influenciadora conseguiu retomar a autoestima que lhe foi negada durante a vida toda e ajuda os seus mais de 190 mil seguidores a se olharem com mais carinho.
“Acho que fui melhorando quando percebi que a vida era curta e não podia deixar de viver por conta do que os outros pensavam. Fiz terapia por um tempo. Foi o que me ajudou a abrir os olhos e enxergar beleza no meu corpo. As redes sociais também facilitaram a encontrar outras mulheres que viviam as mesmas questões que eu. Pegar a força delas me ajudou muito”, pontua.
*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas









