Casal 'LAT': o que é modelo de relacionamento já praticado por algumas famosas, como Isabeli Fontana?
Dinâmica de relacionamento chama a atenção por ser diferente da ideia de 'casamento tradicional': nesse caso, o casal escolhe não morar junto mesmo estando em uma união estável. A Marie Claire, especialistas refletem sobre seus prós e contras e se há restrições legais no Brasil
A dinâmica de um casal ir morar junto depois de um certo tempo — ou até mesmo em menos — é vista quase como uma regra social. Então, quem opta pelo contrário chama a atenção: é o que tem acontecido em uma nova tendência de relacionamento que tem crescido na Europa e América do Norte com os chamados “casais LAT” (Living Apart Together).
O termo significa “vivendo separados juntos” traduzindo ao português, e se refere aos casais que escolhem ter um espaço para cada um mesmo estando em um relacionamento sério — sendo ele uma união estável ou não. Esse é o caso de alguns famosos como Kourtney Kardashian e Travis Barker, que só foram morar em um mesmo local cerca de dois anos após se casarem.
Na atual temporada de The Kardashians, a empresária revelou que ela e o baterista do Blink-182 decidiram levar seu tempo antes de “juntarem as escovas” por causa dos filhos que têm de relacionamentos anteriores. “Travis e eu realmente temos levado nosso tempo para descobrir onde faz sentido para nós morarmos juntos porque as crianças estão todas muito confortáveis em seus espaços”, disse.
Depois do nascimento do bebê do casal em novembro de 2023, eles alteraram os planos: “Vamos nos mudar para a casa dele, que fica a um quarteirão de distância, e então reformar a minha casa ao mesmo tempo para que possamos ficar todos juntos, vivendo juntos sob o mesmo teto”.
Antes da modelo Ashley Graham e seu marido Justin Ervin terem três filhos, a norte-americana revelou que o casal também residia em lugares diferentes, inclusive em áreas opostas dos Estados Unidos. “Temos uma regra”, explicou Graham ao Entertainment Tonight em 2016, acrescentando que ela morava em Nova York enquanto o marido morava em Los Angeles. “Não ficamos mais de duas semanas sem nos ver. É absolutamente fabuloso. Eu adoro. Nós nos encontramos em Los Angeles, Nova York, Paris ou Miami. É bem sexy.”
Aqui no Brasil, outros casais famosos já fizeram o mesmo, como Isabeli Fontana e Di Ferrero. Os artistas casaram em 2016, mas viveram alguns meses em casas separadas. “Acho importante cada um ter o seu momento e quando eu falo isso todo mundo pensa que é loucura. As pessoas estão presas em uma caixa, parece que tem que casar, tem que morar junto e na verdade não tem nada! Cada um faz o que quer”, declarou o músico ao É de Casa.
Já Mocita Fagundes e Tarcísio Filho, que estão juntos há 15 anos, seguem com um relacionamento à distância: enquanto ela vive em Porto Alegre, ele mora no Rio de Janeiro. "Muita gente me pergunta como meu casamento sobrevive à distância. Sinto saudades sempre (risos). Da companhia, do beijo, das conversas boas, do sorriso, do cheiro, do sexo. Sinto saudades de tudo. Mas convivo bem com essa saudade. Superbem," escreveu a publicitária, em postagem feita no Instagram em 2022.
“Não existe um modelo ideal de namoro”
Um estudo da Statistics Canada, agência de análise de dados sociais e econômicos, revelou que a dinâmica é adotada, majoritariamente, por jovens de 20 a 24 anos. A mesma pesquisa indicou que os relacionamentos LAT são mais comuns em países da Europa Ocidental, América do Norte e Austrália.
A psicóloga e especialista em terapia de casal pela UFRJ, Renata de Azevedo, avalia que esse conceito de relacionamento pode estar em alta porque muitos prezam pela individualidade nos dias de hoje. “Os jovens, principalmente, evitam ter que ceder, então acabam preferindo morar em casa separadas para não precisarem flexibilizar em situações do cotidiano”, diz, em entrevista com Marie Claire.
“Pessoas mais velhas que já passaram por uma separação ou por um falecimento de cônjuge, que já estão estabilizadas e a sua vida independente podem acabar preferindo não abrir mão disso em prol de morar com outra pessoa”, completa ela.
A terapeuta afirma que não existe um modelo ideal de namoro, isso sempre vai variar de casal para casal. “Não tem como a gente colocar algo único como sendo o melhor, porque vai depender de várias circunstâncias e também do objetivo daquele casal pensando em si próprio e no futuro do relacionamento”.
Quais são os prós e contras?
Segundo a psicóloga, os benefícios incluem manter a individualidade e ter mais tempo para poder estabelecer uma rotina própria, sem a influência de outros: “Você não precisará negociar com outra pessoa sobre as questões do lar, o que é um ponto positivo”.
Por outro lado, um ponto negativo é a insegurança que essa situação pode gerar. “Isso pode levar a um dos parceiros a se sentir menos vinculado, resultando em um distanciamento no relacionamento. A presença física da pessoa não está garantida em todos os momentos, e isso pode fazer com que um dos parceiros se sinta menos importante ou como se não fosse uma prioridade”.
“Para quem deseja morar separado, é fundamental que o casal continue cuidando da relação e de si mesmos, demonstrando proximidade e fazendo com que o outro se sinta importante, mesmo morando em casas diferentes. A presença emocional é essencial, mesmo na ausência física”.
Existem restrições legais para casais LAT no Brasil?
Não há lei que proíba casais, mesmo em união estável, de morar em casas separadas. “A união estável é reconhecida quando duas pessoas se apresentam socialmente como sendo um casal que tem uma relação de forma pública, contínua e com a intenção de formar uma família, mas morar na mesma casa não é uma exigência obrigatória para isso”, declara a advogada Mérces da Silva Nunes, especialista em Direito de Família e Sucessões.
“O Código Civil diz que o importante é que o casal tenha um relacionamento sério e estável com o objetivo de constituir uma família. Morar junto é comum, mas não é uma condição essencial. Se o casal tem um compromisso e quer formar uma família, eles podem ser considerados em união estável mesmo morando em casas diferentes”, explica.
Os casais “LAT” que estiveram em uma união estável, inclusive, continuam com os mesmos direitos e deveres que qualquer casal casado que mora junto. “O fato de viverem em lugares diferentes em nada altera o que está garantido por lei, desde que o relacionamento seja sério e tenha o objetivo de formar uma família”.
A advogada ainda aponta que para evitar questionamento de qualquer natureza, pode-se celebrar um “contrato de convivência”, no qual devem ser definidos todos os detalhes da relação e os direitos de ambos. “Poderão ser formalizados os detalhes do relacionamento, como a decisão de morar separados, por exemplo. Isso ajuda a garantir que ambos estejam protegidos em caso de algum conflito”.
Contrato de namoro é aconselhável para quem não quer que relação seja confundida
Aos casais que não procuram garantir os mesmos direitos de uma união estável: se quiser evitar que a relação seja confundida, a especialista instrui para fazer um contrato de namoro. “É um documento que o casal pode assinar para deixar claro que, apesar de estarem juntos, não têm a intenção de formar uma família ou de ter os mesmos direitos e deveres assegurados na união estável, como divisão de bens, herança ou pensão”.
Entretanto, Nunes alerta para outros fatores, como tempo de relacionamento e a forma como o casal se apresenta para a sociedade, que podem fazer com que a Justiça entenda a relação como uma união estável, mesmo que o contrato de namoro tenha sido formalizado. “O documento é apenas uma forma de o casal demonstrar suas intenções naquele momento, mas não impede que possa ser interpretado de forma diferente”, finaliza.









