Deborah Secco: 'Quando me senti amada sendo quem eu sou, me levei à minha potência máxima'
'Terceira Metade', novo reality comandado por Deborah Secco estreou nesta sexta (18) no Globoplay com proposta ousada: acompanhar casais em busca de uma terceira pessoa para a relação. A Marie Claire, a atriz discorre, ao lado da psicanalista Regina Navarro Lins, sobre não monogamia e diferentes formas de amar: 'Estamos vivendo uma transição entre antigos e novos valores'
Imagine entrar em um reality show de relacionamento com o seu parceiro — e, juntos, buscarem uma terceira pessoa para compor a relação. Essa é a proposta de Terceira Metade, novo programa original do Globoplay que estreia nesta sexta-feira (18) com a promessa de provocar debates e reviravoltas na tela. Quem comanda a atração é Deborah Secco, em sua primeira experiência como apresentadora. Para a atriz, o convite chegou em boa hora.
“Sou uma super fã de reality. E acho que venho flertando com esse lugar de apresentadora há algum tempo”, conta ela a Marie Claire. Deborah já teve experiências pontuais fora da atuação, como na cobertura da Copa do Mundo de 2022, mas se encantou especialmente pelo tema de Terceira Metade. “A gente já tem realities sobre relacionamento, mas não tem nenhum que contemple formas diferentes de se relacionar. Falar de amor, de diferentes formas de amor, sempre me atraiu.”
Na atração, quatro casais buscam uma “terceira metade” e interagem com pessoas solteiras dispostas a se envolverem na dinâmica. Ao longo das gravações, Deborah diz que aprendeu muito com os participantes. “Sou muito mais careta do que imaginava”, diz, aos risos. “Aprendi sobre respeito ao diferente. Tínhamos pessoas em níveis distintos de preparação emocional, e ninguém impunha nada. Cada um só queria poder ser quem é.”
A convivência intensa entre pessoas com formas diferentes de enxergar o amor, segundo ela, foi reveladora. “O que é bonito de ver é que todos se respeitavam e se admiravam dentro de suas limitações e capacidades de olhar para esse tema tão diverso. O Terceira Metade traz, de cara, um debate sobre respeito. Não é porque eu não escolhi viver dessa forma que a outra está errada ou é pecaminosa.”
"A força de ser aceito como você é"
A experiência no reality também fez com que Deborah refletisse sobre suas próprias relações. “Eles [os participantes] se reconhecem um no outro. É muito emocionante. É a força do pertencimento, de se sentir representado, aceito e amado como você é.”
Ela relembrou momentos pessoais. “Durante muito tempo, fingi ser quem eu não era. E aí, claro, eu não me sentia amada. Como vou me sentir amada se finjo pro meu companheiro que sou algo que não sou? Ele vai amar algo que não sou, e eu nunca me sentirei amada.”
Para Deborah, o amor verdadeiro é aquele que aceita imperfeições. “Quando você se sente amada apesar dos seus defeitos, quando alguém olha com afeto e fala: ‘Eu compro a mulher que você é, mesmo você não sendo perfeita’, a potência que tem um amor verdadeiro e genuíno é libertador.” E completa: “É o mundo que desejo para minha filha. Se eu pudesse escolher um mundo ideal, seria onde todo mundo se ama ‘apesar de’.”
“Quando a gente não quer aprisionar a pessoa num formato que não é o que ela é de verdade, onde a gente se respeita, apesar de tantas diferenças. Se amar, se gostar e se querer ‘apesar de’ é o que faz com que a gente se potencialize à potência máxima. Quando eu me senti amada, sendo de fato quem eu sou -- com todas as minhas qualidades, com todos os meus defeitos -- eu me levei à minha potência máxima.”
Atualmente em um relacionamento monogâmico com o produtor musical Dudu Borges, Deborah reforça que acredita nas expressões variadas do amor, desde que haja respeito. “Eu acredito nas diferentes formas de amar e que a monogamia possa sim ser muito possível. Nunca vivi de fato uma relação que não seja entre duas pessoas. Eu não acredito é nessa monogamia em que as pessoas não se respeitam, não dialogam, se enganam nesse padrão instituído.”
“Ir contra o social inteiro é muito difícil"
Além de Deborah, o reality conta com a participação da psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, referência nos estudos sobre amor e relações contemporâneas. Durante o programa, ela esteve presente na casa para oferecer escuta, acolhimento e orientação emocional aos participantes.
Mesmo ciente de que parte do público ainda não está pronto para o debate, Regina acredita que abrir esse espaço já é transformador. “A mudança de mentalidade, que é a forma como cada cultura, cada época pensa, deseja, se comporta, só acontece porque existem pessoas corajosas que vão na frente. Esse reality é um sinal de uma tendência. E isso é tão importante, porque vai mostrando para onde a gente está caminhando.”
Ela reforça que a proposta não é convencer ninguém a fazer o que não quer. “A gente não quer que ninguém mude sua forma de amar. A gente só quer que as pessoas respeitem quem pensa diferente.”
Para a psicanalista, a resistência de muitas pessoas com a mera ideia da não-monogamia vem do medo do julgamento social. “Elas têm medo de não serem aceitas, de serem repudiadas, discriminadas. Nós todos somos frutos da cultura que a gente vive. Então você vai recebendo esses valores desde que você nasceu. Quando chega na idade adulta, você não sabe nem o que você deseja de verdade e o que você aprendeu a desejar.”
Deborah complementa: “Fomos criados acreditando que só existe um formato possível de relação. A Regina me ensinou muito durante o programa. Ela fala sobre o amor romântico que nos faz acreditar que ‘você é minha única possibilidade de felicidade’. Mas, na prática, isso nem sempre se encaixa. Para alguns, sim. Para outros, não.”
A atriz reconhece a complexidade de romper padrões. “Ir contra o social inteiro é muito difícil. Mas todo mundo tem o direito de existir, mesmo fora do padrão imposto pela sociedade.”
A crise da monogamia compulsória
Com quatro décadas dedicadas ao estudo das relações, Regina acredita que a monogamia compulsória está em crise -- e os sinais disso já são visíveis. “Você vê um ator falando sobre não monogamia numa entrevista, um programa abordando o tema, uma novela, agora um reality que aborda isso… estando atento aos sinais, percebe-se que as coisas estão mudando.”
A especialista projeta um futuro de mais liberdade nas relações. “Acredito que, em cinco ou dez anos, menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois. Mais gente vai optar por relações múltiplas, livres.”
Regina faz questão de frisar: não é contra a monogamia, desde que seja uma escolha genuína, o que para ela, geralmente não é. “Estamos vivendo uma transição entre antigos e novos valores. Hoje, há uma busca pela individualidade, que não tem nada a ver com falta de amor. O amor romântico tradicional propõe a fusão: os dois viram um só. Isso vai contra os anseios contemporâneos.”
“Cada um quer desenvolver seu potencial, saber das suas possibilidades na vida. E esse tipo de amor romântico propõe o oposto. Ele propõe a não individualidade. Os dois se transformam em um só. Então não tem divisão, ninguém respeita a individualidade do outro, um se mete na vida do outro.”
“Então o que acontece? Esse modelo está batendo de frente com os anseios contemporâneos. Está dando sinais de sair de cena. E, ao sair de cena, está levando sua característica básica, que é a exigência de exclusividade. Por isso, nós estamos assistindo a essas novas formas de amar”, defende.
A psicanalista acredita que, no futuro, nem deveríamos falar mais em “modelos” de amor: “A gente passou a vida toda com modelos, né? Quem não se enquadrasse era discriminado”. Para ela, o modelo tradicional de casamento não se sustenta mais. “É o casamento do controle, da possessividade, do ciúme, do desrespeito à individualidade do outro.”
Ela defende relações com mais autonomia, respeito e individualidade. “Espero que possam ser com total respeito ao outro, à forma de ser, de pensar, de se comportar. Liberdade de ir e vir, de ter amigos inseparáveis, de ter programas independentes. Eu não sou obrigada a gostar de todos os amigos do meu marido. Eu gosto de alguns, de outros não. Ele tem o direito de sair com os dele. E vice-versa. É total respeito à individualidade do outro. É o que eu acredito que funciona.”









