Comportamento
Por
Rafael Nascimento

A Odete Roitman da versão do remake de Vale Tudo, escrito por Manuela Dias, tem chamado a atenção pela sua forma de enaltecer a sexualidade após os 60 anos. A personagem, vivida pela atriz Débora Bloch no folhetim das 21h da TV Globo, é uma mulher segura, inteligente, sensual e dominadora.

Ela utiliza sua influência, poder e dinheiro para ter acesso ao prazer e à dominação. A poderosa escolhe seus parceiros baseados em critérios como juventude e estética – e não se sente culpada por isso. Enquanto há desejo, Odete se empenha em satisfazê-lo.

A personagem tem inspirado mulheres pelo Brasil, assim como levantado um debate sobre a exposição da sexualidade de uma mulher madura no horário nobre da TV.

“A Odete Roitman está certinha. Ela busca o prazer sexual, ela busca o tesão. A Odete não quer uma companhia para conversar, ela quer um instrumento de prazer. Nada diferente do que homens sempre fizeram”. A declaração é da escritora Isabel Dias, de 70 anos, autora do livro 32: Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você (Livros da Safra, 2015).

Na obra, ela conta as aventuras sexuais que viveu após se separar de um longo casamento. Ela narra histórias com 32 homens diferentes, um para cada ano em que esteve casada. “Quando eu lancei o livro era tudo ‘meio na penumbra’”, afirma Isabel se referindo ao debate de há uma década sobre a sexualidade feminina na velhice. Na atualidade, ela acredita que houve um avanço significativo.

“Acho que culturalmente houve nesses últimos cinco anos um movimento muito positivo para nós velhos. Tem a Cláudia Raia, tem a Déborah Bloch, tem mais mulheres mais velhas envelhecendo sem vergonha. Você vê a Zezé Motta, ela é poderosa, é maravilhosa. Você consegue dissociar ela de uma mulher completa? Com sexualidade, com desejo, com prazer? Eu não consigo!”.”

“É muito importante a gente se assumir como mulher mais velha”

Isabel Dias, de 70 anos, é autora do livro '32: Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você' — Foto: Reprodução/Instagram
Isabel Dias, de 70 anos, é autora do livro '32: Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você' — Foto: Reprodução/Instagram

Uma década após o lançamento de sua obra de estreia, a autora Isabel Dias revela que amigas que haviam se distanciado na época do lançamento do livro repensaram a postura após a sexualidade na velhice feminina ganhar novos olhares na atualidade.

“Eu sinto que foi como se muita gente hoje estivesse ‘vestindo a carapuça’. ‘Carapuça’ no sentido: ‘Olha que bobagem a minha, julguei tanto ela e agora ficou na moda mulher mais velha se empoderar sexualmente e falar de desejo.”

A escritora, que se tornou uma pessoa pública, já realizou trabalhos com marcas para tratar do tema e entende que as empresas têm aberto os olhos para este debate. “Não adianta só falar do creme antirruga. A gente tem que falar do resto. O desejo e o prazer não acabam.” Ativa e cheia de planos, Isabel se mostra preocupada com o futuro da geração atual que ainda vai precisar lidar com questões como machismo e violência de gênero.

“Penso que nós temos que educar nossos meninos para enxergar as mulheres como seres completos e não como aquele ‘complemento’ para o homem”, afirma Isabel, que também se preocupa em reformular a educação passada a meninas e jovens mulheres.

“Nós temos que trabalhar o desejo das meninas para não ser pecado, não ser feio, para a proteção delas. Se as meninas passarem a ser mais empoderadas, com certeza elas vão gritar muito mais. Nós não vamos mais esperar 10 anos, 15 anos para denunciar um assédio.”

Uma mulher à frente do seu tempo

A empresária Ana Paula Bernardo, de 57 anos, teve uma criação rigorosa. Filha de pai militar, ela cresceu vendo sua mãe ter um comportamento submisso ao marido.

“Ele era totalmente homofóbico, a minha mãe foi criada para ser dona de casa”, explica. Com o exemplo no convívio familiar, Ana Paula decidiu que iria tomar outro rumo na vida. “Eu sempre falava: ‘Eu não vou ser assim’, e não fui.”

A empreendedora se define como uma mulher à frente do seu tempo e defende que mulheres mais velhas também possam expressar sua sexualidade de forma aberta. Ela é mais uma que se diz favorável à “Odete versão 2025” e defende a personagem de opiniões mais conservadoras.

“A minha irmã, que é bem mais nova do que eu, tem 40 anos, fala assim: ‘Eu acho um absurdo a Odete com essa idade ser uma ‘velha galinha’. Eu respondo: ‘Meu amor, ela tem desejo igual a você, ela é uma mulher, ela está viva. Não existe data para gente parar de transar. Eu seria ela.”

“Homens não gostam de camisinha”

A empresária utiliza a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) para se precaver da contaminação pelo vírus do HIV. Ela passou a tomar a medicação, que é oferecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde), porque sente resistência dos homens em realizar testes de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e utilizar preservativos.

A empresária Ana Paula Bernardo, de 57 anos, utiliza a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) como forma de prevenção à exposição ao vírus do HIV — Foto: Arquivo pessoal
A empresária Ana Paula Bernardo, de 57 anos, utiliza a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) como forma de prevenção à exposição ao vírus do HIV — Foto: Arquivo pessoal

“Eu fiquei com uma pessoa por 10 anos. Quando eu soube de uma traição, eu fiz ele fazer o teste [para ISTs]. Os homens não gostam de camisinha”, afirma Ana Paula.

A empreendedora relata que também teve dificuldades para falar de forma aberta sobre sexualidade e prevenção com o parceiro. “Ele falava para mim: ‘Eu não tenho nem gripe, como que eu vou ter HIV?’”. Ana ainda lembra que este mesmo companheiro tirou o preservativo durante uma relação sexual, o que a fez interromper o relacionamento. “Homem quando está com tesão não pensa em nada”, declara.

A retirada de camisinha sem consentimento e sem que a outra pessoa perceba é chamada de stealthing. No Brasil, a prática pode ser formalmente denunciada já que é equiparada aos crimes de violação sexual mediante fraude e estupro, descritos nos artigos 213 e 215 do Código Penal.

Experiência trans na maturidade

A travesti, ativista LGBT+ e empreendedora Andréa Brazil, de 52 anos, se diz uma mulher livre e não monogâmica e também se viu na personagem da novela das nove. “Eu não vejo sentido nenhum na monogamia”, diz. Ela é mais uma adepta do “estilo Odete Roitman” quando o assunto é a sexualidade.

“Eu me identifico muito com ela”, afirma a graduanda em Direito. “Teve um meme na internet que usei com a figura dela, que estava escrito ‘ativona loba’. Eu me identifico totalmente com esse perfil”, explica.

Andréa afirma que adota um estilo livre porque na maioria de suas relações afetivo-sexuais desempenha o papel da amante. “Eles têm sempre uma relação e eu tenho sempre que lidar com isso. Quando o cara é legal, mas eu sei que ele é casado, eu até prefiro, porque eu não crio vínculo com ele. Eu não fico me imaginando casada”, declara.

A ativista conta que nos relacionamentos que vive acaba sempre se deparando com homens que, de alguma forma, querem obter vantagens financeiras para além das sexuais. Contudo, a empreendedora diz que sabe impor seus limites.

“Se eu tiver que ajudar uma pessoa que me dá prazer e me dá algum tipo de afeto, a contrapartida financeira tem que partir de mim, da minha vontade de querer ajudar. Quando eles colocam isso como uma condição, eu fico um pouco incomodada.”

Andréa Brazil, de 52 anos, relata a experiência sexual travesti após os 50 anos — Foto: Arquivo pessoal
Andréa Brazil, de 52 anos, relata a experiência sexual travesti após os 50 anos — Foto: Arquivo pessoal

Objetificação de mulheres trans

Andréa traz à conversa um ponto de atenção inerente às relações afetivo-sexuais de pessoas trans e travestis: a objetificação destes corpos. O Brasil segue sendo o país que mais assassina este grupo, segundo dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais).

De acordo com o dossiê da instituição Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais em 2024, lançado no início deste ano, foram assassinadas 122 pessoas trans e travestis no Brasil no ano passado. Em contradição, o conteúdo adulto trans continua figurando entre os mais consumidos por brasileiros, segundo a plataforma Pornhub.

“Por ser uma pessoa trans, a gente já é objetificada, embora eu acredite que isso também afete as mulheres cis”, amplia Andréa. “O fator principal é entender o quanto é difícil existir um relacionamento afetivo e duradouro para a população trans e travesti. A dificuldade de assumirem uma relação conosco. A gente é conveniente apenas para realizar fantasias.”

Por estas condições, Andréa diz que aprendeu “a jogar o jogo”, e que sua resposta a esse cenário de violência “é o troco”. “Enquanto eles tentam me objetificar, eu também objetifico eles. A falta de romantização e a falta de afetividade é um problema dos homens e não das mulheres, sejam trans ou cis.”

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