Calça baggy, ecobag com Labubu e música indie: quem é o 'homem performático', que tenta conquistar ao ser 'desconstruído'
Entenda o que significa o termo, pauta para a geração Z na internet e que até ganhou concursos pelo mundo. A Marie Claire, psicóloga comportamental explica o impacto dessa persona nas relações
Ele usa calça baggy, carrega uma ecobag com um Labubu pendurado, pede matcha latte no café descolado do bairro, posta stories ouvindo a cantora indie do momento e provavelmente tem uma coleção de vinis. Mas por trás dessa estética cuidadosamente montada existe algo maior do que estilo: o desejo de performar.
Do termo inglês “performative male”, o “homem performático” é o personagem do momento — dos Estados Unidos à Europa e até aqui no Brasil, concursos sobre a melhor representação do tal “homem performático” tem viralizado nas redes sociais, principalmente no TikTok.
Nos registros, os participantes se apresentam com poucos segundos para convencer o público de que é o mais “performático”. Desfilando com looks estereotipados, alguns dançam ao som de Clairo ou Mac DeMarco, outros recitam frases sobre terapia, astrologia ou cultura indie, tudo com uma dose calculada de ironia. O público vibra, filma e ao fim, vota no favorito.
Concursos de 'homem mais performático' viralizaram nas redes sociais
No Brasil, as universidades têm se tornado palco para versões locais desse fenômeno. No X (antigo Twitter), viralizou um cartaz anunciando o “Concurso de Homem Mais Performático e Desconstruído da Universidade de São Paulo (USP)” — e os prêmios reforçam a sátira. “Primeiro lugar: um livro escrito por uma mulher. Segundo lugar: um maço de Rothmans sabor melão. Terceiro lugar: uma ecobag.”
O que é ser um homem performático?
A ideia de “homem performático” pode ser melhor entendida a partir da teoria da performance de gênero de Judith Butler. Para a filósofa e teórica queer, gênero não é algo fixo ou biológico, mas uma construção social que se expressa por meio de atos repetidos como gestos, falas, modos de se vestir e de se comportar.
"Quando dizemos que o gênero é performativo, geralmente queremos dizer que adotamos um papel ou que agimos de alguma forma, e que a nossa atuação ou a nossa interpretação de um papel é crucial para o gênero que somos e o gênero que apresentamos ao mundo”, diz a autora no livro Desfazendo Gênero (Editora Unesp, R$ 78, 452 páginas).
É nesse ponto que surge o “homem performático”, como explica a analista de tendências J’Nae Phillips ao jornal The Guardian. Ele não está necessariamente preocupado com quem é de fato, mas com a forma como projeta sua masculinidade diante dos outros, especialmente online. “Ele é alguém extremamente consciente de que a masculinidade está sendo observada, avaliada e consumida, e por isso a encena."
Já em um artigo publicado na Hypebeast, o escritor Nico Gavino descreve o “homem performático” como um arquétipo da Geração Z que se tornou o centro de um meme viral. Os vídeos e posts que circulam nas redes sociais satirizam justamente essa identidade construída, caracterizando “homens que citam teoria feminista, ouvem indie pop e bebem matcha latte” como parte de uma persona pensada para o olhar alheio.
Lanna Rain, organizadora de um dos concursos nos Estados Unidos que celebram (e ironizam) esse comportamento, opina: “Minha melhor descrição de um homem performático é um homem que usa feminismo, suavidade e certa música como um cara para seduzir mulheres sem realmente saber nada sobre o que elas estão fazendo ou falando.”
Como saber se a ‘performance’ é genuína?
A Marie Claire, a psicóloga comportamental e pesquisadora da USP Juliana Pato, explica que, no fundo, é difícil dizer se esse tipo de comportamento é genuíno ou apenas construído para um “marketing pessoal”.
“Você pode passar horas olhando o perfil de alguém no Instagram, no Twitter [atual X], no TikTok, tentando encontrar sinais de que aquilo é só uma encenação, mas, no fim, como em qualquer relação, a verdade aparece com o tempo, na convivência, nas conversas e nas experiências compartilhadas”, afirma.
O problema, segundo ela, é que essa tentativa de “decifrar” o outro cria um estado de vigilância constante, principalmente para as mulheres. “Existe sempre a suspeita de que, se um homem fala de feminismo ou se veste de determinada forma, isso só pode ser uma estratégia para conquistar. A cultura das redes sociais alimenta essa lógica: qualquer gesto que fuja do que se entende como ‘masculino’ é lido como marketing pessoal, nunca como expressão genuína.”
Essa desconfiança, no entanto, tem efeitos nas relações. “Quando a ideia de um homem desconstruído passa a ser vivida como encenação, surge um espaço de dúvida constante sobre o que é expressão autêntica e o que é estratégia. Se ele não apresenta determinados sinais, pode ser visto como machista; se apresenta, pode parecer que está apenas reproduzindo um roteiro para agradar”, explica Juliana.
O resultado, diz ela, é uma dificuldade de construir intimidade verdadeira. “Vínculos sólidos dependem de experiências consistentes, não de símbolos que rapidamente viram moda e se transformam em credenciais de comportamento. Quando cada gesto pode ser interpretado como performance, sobra pouco espaço para confiar de fato no que o outro demonstra.”
“Nesse cenário, até a ironia aparece como recurso para suavizar escolhas que poderiam ser lidas como inadequadas para a masculinidade. O problema é que, em vez de abrir espaço para maior liberdade, esse uso reforça a sensação de que existe sempre um disfarce em jogo. A consequência é que a espontaneidade se perde e a possibilidade de relações mais autênticas fica comprometida.”
Afinal, tudo é performático?
A especialista destaca que a própria palavra “performático” passou a ser usada de forma mais ampla, quase sempre com uma conotação negativa. “Não se trata apenas de pensar no homem que performa, mas de perceber que a própria expressão de gostos pessoais passa a ser lida como performance, simplesmente por estar sendo exibida, comentada ou usada como marcador”, analisa.
Esse movimento revela algo sobre a forma como nos relacionamos hoje. “Diversas áreas que estudam o comportamento humano mostram a relevância do grupo e do pertencimento. Até mesmo na ecologia, a noção de construção de nicho é central para entender como os indivíduos se posicionam em seu ambiente.”
“Seguindo por esse caminho, fica a questão: se descartarmos aqueles que de fato encenam com a finalidade de conquistar a confiança das mulheres, será que toda forma de demonstrar personalidade não poderia ser vista também como performance? O problema maior talvez esteja na reinterpretação dessa expressão como algo falso ou negativo, quando, na prática, expressar-se sempre envolve algum grau de mediação social”, finaliza.









