Por que as mulheres sentem mais ansiedade ao lidar com o dinheiro?
Uma pesquisa realizada pelo Itaú Unibanco em parceria com o Grupo Consumoteca revelou diferenças marcantes entre homens e mulheres na forma de lidar com o dinheiro. A Marie Claire, a economista Mila Gaudencia analisa como o papel social atribuído a cada gênero influencia a maneira como as finanças são administradas
A psicóloga Franciele*, de 28 anos, já perdeu noites de sono por conta de sua vida financeira. Sua ansiedade ao pensar em dinheiro se intensificou depois de ter saído da casa dos pais e ter ido morar sozinha pela primeira vez, em 2022. “Foi assunto de várias das minhas sessões de terapia”, conta ela, em entrevista a Marie Claire.
“Hoje em dia tenho maior confiança ao lidar com minhas finanças, mas ainda sinto a necessidade de maior cautela. Por mais que saiba que está de alguma forma sob controle, sinto dificuldade em tomar decisões financeiras mais profundas”, afirma.
Franciele não é a única. A pesquisa “Consciência e prosperidade: a nova relação do brasileiro com o dinheiro”, realizada pelo Itaú Unibanco em parceria com o Grupo Consumoteca, mostra que a nova geração feminina deseja independência financeira, mas ainda carrega mais ansiedade em relação ao tema.
O relatório expôs que as mulheres apresentaram maior estresse e insegurança ao lidar com o dinheiro, com sentimentos ligados à culpa e autocobrança.
Os dados revelam como elas seguem em busca de prosperidade financeira, enfrentando heranças culturais, insegurança em investir e a sobrecarga de conciliar múltiplos papéis. Enquanto isso, os homens tendem a encarar o dinheiro com mais autoconfiança e risco.
Uma diferença de comportamento histórica
Essa diferença, segundo a economista e educadora financeira Mila Gaudencio, tem raízes profundas na história, na cultura e na forma como o patriarcado moldou o papel social de cada gênero. “Por muito tempo, não nos foi ensinado a lidar com as finanças, mas sim a cuidar: dos outros, da casa, da família”, observa.
A especialista lembra que, por lei, até há 63 anos, as mulheres casadas precisavam da autorização do marido para trabalhar, abrir uma conta bancária ou movimentar dinheiro. Essa regra estava prevista no Código Civil de 1916 e só foi alterada com o Estatuto da Mulher Casada, aprovado em 1962.
Mas, como ressalta Mila, essa mudança não foi vivida da mesma forma por todas as mulheres. “O Código Civil foi pensado para as famílias brancas, da classe média, e não refletia a realidade da maioria das brasileiras. Mesmo quando a lei declarava a mulher ‘incapaz’, as mulheres negras já trabalhavam dentro e fora de casa, sustentando filhos, famílias inteiras e, muitas vezes, cuidando também das casas de outras mulheres”, afirma.
Essa herança histórica ajuda a explicar por que o dinheiro ainda carrega tanto peso emocional entre as mulheres. “A gente fala de culpa, de medo, de raiva. É uma cobrança constante de dar conta de tudo. Os homens, por outro lado, foram socializados para o risco, para a autoconfiança e para a ideia de que o erro financeiro é até mesmo parte do aprendizado.”
Para Mila, transformar esse estresse em um controle financeiro mais saudável passa por ressignificar o lugar do dinheiro na vida das mulheres. “Cuidar do próprio dinheiro não é egoísmo, é autocuidado. É uma forma de garantir bem-estar e, acima de tudo, liberdade.”
“Quando falamos de liberdade, falamos de liberdade de escolha. O controle financeiro não é sobre rigidez, é sobre presença. É sobre entender para onde o dinheiro está indo, tomar decisões conscientes e, principalmente, se permitir viver com liberdade de novo: liberdade para escolher, para descansar, para sonhar e não viver apenas apagando incêndios."
Dentro de sua família, Franciele avalia como sua educação financeira foi diferente dos parentes homens. “Vejo meu pai conversando com meus cunhados e meu primo livremente sobre investimentos, conversa essa que nunca foi apresentada a mim. Mesmo minha mãe sendo formada em contabilidade, não discutimos sobre questões financeiras com muita profundidade”, declara.
Liberdade emocional x capacidade de prover
A pesquisa também apontou que a autonomia financeira para mulheres é ligada à liberdade emocional e segurança, enquanto para homens é ligada à capacidade de prover e conquistar. “Para os homens, autonomia financeira é poder expandir. Para as mulheres, é poder existir sem depender”, analisa Mila.
“O patriarcado ensinou o homem a prover, o capitalismo reforçou esse papel. À mulher coube o cuidar, o preservar. Quando falamos de dinheiro, é essa lente que continua operando.”
Os efeitos são visíveis: homens arriscam mais e investem em negócios de maior ganho potencial, enquanto as mulheres planejam, constroem reservas e agem com mais cautela — ainda de acordo com o estudo do Itaú.
Mas isso não significa falta de preparo ou ousadia. Dados de 2023 da operadora da bolsa de valores de São Paulo (B3) mostram que, embora as mulheres ainda sejam minoria entre investidores, o valor médio dos seus aportes iniciais é mais que o dobro dos dos homens — R$ 167 contra R$ 62. “Elas entram depois, mas entram com mais método, estudo e propósito. É um passo mais firme”, diz Mila.
“Quando a mulher entende que o dinheiro não é apenas um instrumento de defesa, mas também de construção, ela começa a ocupar o espaço que historicamente lhe foi negado. Não estamos falando de disputa aqui. A gente está falando de direito.”
Preparadas, mas inseguras
Apesar de demonstrarem preparo técnico e disciplina, as mulheres ainda se sentem menos seguras para lidar com temas financeiros complexos: 64% dos homens dizem estar preparados, contra 47% das mulheres. Mila vê nesse dado um reflexo de percepção, não de capacidade.
“O desafio não é ensinar técnica, é fortalecer a segurança emocional. O mercado financeiro ainda fala mais com o homem que arrisca do que com a mulher que planeja. O preparo existe, mas falta reconhecimento, tanto das mulheres quanto do próprio mercado”, argumenta.
A psicóloga Franciele afirma saber pouco sobre finanças mais complexas, como investimentos, e que, por causa da falta de conhecimento, não se sente tão à vontade para falar sobre o assunto com terceiros. “Invisto de forma segura pelo pouco que conheço, nos meus aplicativos de banco mesmo”, diz.
Para Mila, falta traduzir a complexidade em experiências de aprendizado que gerem confiança. “Porque o preparo já existe, o que falta é que ele se torne reconhecido pelas próprias mulheres e pelo mercado. Quando o discurso financeiro for mais inclusivo e as mulheres se virem mais representadas como investidoras, esse índice de confiança, eu acredito de verdade, vai naturalmente se equilibrar.”
A economista afirma que também é preciso ampliar a sensação de pertencimento feminino, já que o mercado financeiro “ainda é percebido como um espaço masculino”, e isso “afasta muitas mulheres, que não se veem representadas”.
Ela aponta três passos para que esse cenário mude:
- Primeiro: Começar pequeno, mas começar. O hábito é mais importante que o valor.
- Segundo: Aprender com propósito, entendendo o porquê de cada investimento.
- Terceiro: Participar de espaços de troca entre mulheres, onde a linguagem e as referências sejam acessíveis.
Entre a prudência e o risco
A pesquisa também mostra diferenças na forma de lidar com o crédito. As mulheres tendem a adotar estratégias preventivas — evitando financiamentos e controlando limites —, enquanto os homens agem de modo mais reativo, renegociando dívidas com frequência.
Segundo Mila, essa diferença revela o que cada gênero aprendeu a chamar de risco. “Atendo majoritariamente mulheres nas minhas consultorias e cursos, mas também homens. E vejo um padrão: as mulheres dedicam muito mais tempo à parte do planejamento; os homens querem ir direto para os investimentos. Eles pulam etapas.”
Ela explica que essa diferença nasce ainda na infância e se reflete no comportamento adulto. “As mulheres foram educadas para evitar o erro. O que, nas finanças, se traduz numa postura mais preventiva. Elas evitam financiamentos longos, controlam limites e bloqueiam o cartão quando sentem que estão perdendo o controle. Já os homens foram socializados para o risco e a resolução: errou, renegocia e segue em frente. É o ‘levanta, o homem não chora’. Ainda existe isso.”
O resultado é que o erro financeiro costuma ter consequências mais severas para as mulheres, já que muitas delas são chefes de família e têm menos rede de apoio, diz a economista. “Por isso, o risco é percebido de outra forma. É uma diferença comportamental, mas também emocional.”
“No curto prazo, essa estratégia de prudência é positiva: protege a renda e reduz o endividamento. Mas, no longo prazo, pode limitar o crescimento, pois impede o acesso a instrumentos de crédito que poderiam impulsionar o patrimônio ou viabilizar um negócio.”
Já os homens, com uma postura mais reativa, favorecem a expansão, mas se expõem mais. “Eles renegociam mais, mas também se endividam mais”, observa Mila.
O equilíbrio ideal, segundo a especialista, está em unir as duas forças: “A prudência feminina com a capacidade de resolução masculina. Aprender a usar o crédito de forma estratégica, sem medo, mas com método. Quando a mulher entende que crédito não é vilão, mas pode ser ferramenta, ela deixa de apenas se proteger e passa a projetar. Une proteção e projeção. E isso muda completamente o seu lugar na economia.”
*A identidade foi preservada a pedido da entrevistada









