O ‘sister effect’: por que homens com irmãs viraram sinal verde nos relacionamentos?
A teoria de que homens que cresceram com irmãs seriam parceiros mais maduros ganhou força nas redes sociais. Mas até que ponto essa ideia é uma realidade? Especialistas ouvidas por Marie Claire alertam para os riscos de transformar experiências individuais em regras universais
Como irmã mais nova, crescer com um irmão mais velho sempre me trouxe uma sensação natural de proteção. Mas, o que eu nunca havia questionado era qual seria o impacto contrário nessa relação. Afinal, é comum que existam estereótipos ligados à estrutura familiar: filhos únicos muitas vezes são vistos como individualistas, enquanto quem foi criado pela avó costuma ser rotulado como “leite com pera”.
Mais recentemente, no entanto, uma dinâmica específica passou a ganhar destaque (e elogios) nas redes sociais: a de que os homens que cresceram com irmãs seriam “partidões”.
De acordo com essa ideia, rapazes que têm uma irmã são considerados “green flag”, ou seja, um sinal positivo para se ter um potencial relacionamento. A discussão viralizou no TikTok, onde algumas mulheres afirmam que muitos dos homens maduros ou, de modo geral, “decentes”, não seriam assim sem uma irmã “super legal” com quem eles aprenderam tudo isso.
Nessa narrativa, as meninas servem como modelos ou são quem os ensina a não reproduzir comportamentos machistas e inadequados. Elas também incentivam seus irmãos a serem mais atenciosos, empáticos e autoconscientes — qualidades comumente atreladas às mulheres.
Em um vídeo com 6 milhões de visualizações, uma usuária reflete sobre o “sister effect” (efeito irmã, em tradução livre), que é como ficou conhecido esse conceito. Ela afirma como “todo cara legal que já conheceu sempre tem uma irmã.” “E eles odeiam isso, mas é importante reconhecer a correlação. Eles são legais por causa delas”, diz.
Jovem viralizou ao falar sobre o 'sister effect'
A teoria foi apoiada pelas próprias meninas que têm irmãos. “Além de serem legais por causa de mim, aprenderam a fazer skincare”, contou uma internauta. “Meu irmão nem é tão legal comigo, mas ele me dá crédito por seu raciocínio rápido e senso de humor”, declarou outra. “Meu irmão deve tudo a mim e minhas irmãs”, falou ainda uma terceira.
Na cultura pop, Sandy e Junior costumam ser lembrados como exemplos quando se pensa em uma dinâmica saudável de irmãos que resultou em uma “personalidade legal”. O cantor frequentemente exalta a sua irmã e ex-parceira de dupla, destacando a cumplicidade e a conexão que compartilham. No aniversário dela de 42 anos, ele publicou uma homenagem chamando-a de “parceira de vida, de música e de tantas histórias”.
Será que existe alguma verdade psicológica por trás dessa teoria?
Um estudo de 2018, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, em parceria com as Universidades de Calgary e Toronto, indicou que irmãos exercem influência relevante no desenvolvimento um do outro e que podem aprender “empatia por meio de interações diárias, trocas emocionais e discussões construtivas”.
“Crianças gentis, solidárias e compreensivas influenciam seus irmãos a agir e se comportar de maneira semelhante. E se um irmão tem dificuldade em ser empático, mas tem um irmão com fortes habilidades empáticas, ele consegue se tornar mais assim com o tempo”, diz o levantamento.
Outra pesquisa do mesmo ano, divulgada na revista Child Development por pesquisadores da Universidade de Calgary, da Universidade Laval, da Universidade de Tel Aviv e da Universidade de Toronto, afirmou que irmãos mais velhos desempenham um papel importante na vida dos mais novos. “Crianças cujos irmãos mais velhos são gentis, afetuosos e solidários são mais empáticas do que crianças cujos irmãos não possuem essas características.”
O problema da generalização
A ideia de que homens que cresceram com irmãs seriam parceiros emocionalmente mais sensíveis, porém, não pode ser vista como verdade universal. É o que diz a psicóloga ouvida por Marie Claire, Ingrid Olivieri. Para ela, essa associação precisa ser vista com cautela e longe de generalizações.
Segundo a especialista, crescer com uma irmã pode, sim, ter algum impacto na forma como um homem se relaciona com mulheres, mas isso está longe de ser uma regra. “Essa influência não é automática, nem determinante. Ela depende muito de como essa convivência aconteceu e de como essas experiências foram compreendidas ao longo da vida”, explica. A relação fraterna costuma ser uma das primeiras experiências de contato próximo com o feminino e, em alguns casos, pode favorecer aprendizados sobre comunicação, expressão emocional e manejo de conflitos dentro do ambiente familiar.
Ainda assim, Olivieri reforça que nenhuma vivência isolada define o comportamento afetivo de alguém. Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, o que pesa são os significados construídos ao longo do tempo, os modelos parentais e os reforços recebidos. “Esses padrões não são fixos e podem ser revistos, flexibilizados e transformados ao longo da vida”, afirma.
A crença de que homens com irmãs seriam parceiros “melhores” também não encontra respaldo científico consistente. De acordo com a psicóloga, trata-se muito mais de uma generalização cultural baseada em observações sociais. “Essa ideia surge da associação entre a convivência precoce com o feminino e o desenvolvimento de empatia e sensibilidade. Em alguns contextos isso pode acontecer, mas o problema é tratar essa possibilidade como regra”, destaca.
Na Psicologia do Desenvolvimento, não há evidências de que ter uma irmã por si só garanta maior empatia, melhor comunicação emocional ou mais respeito aos limites. O que os estudos indicam são efeitos indiretos, fortemente ligados à qualidade do vínculo fraterno e ao clima emocional da família. “Não é o gênero do irmão que determina essas habilidades, mas a forma como as relações são construídas”, resume Olivieri.
A psicanalista Jhulie Campello também faz um alerta sobre as generalizações. Ela explica que a convivência com diferentes dinâmicas familiares pode ampliar repertórios emocionais, mas não é o fator decisivo na formação da empatia ou da comunicação afetiva.
“Existem estudos que indicam que crianças expostas à diversidade emocional e relacional podem desenvolver maior flexibilidade emocional”, afirma. Ainda assim, segundo Campello, a base dessas habilidades está na modelagem emocional oferecida pelos adultos de referência. “Empatia, comunicação emocional e respeito aos limites são aprendidos principalmente pelas figuras parentais. Se o menino cresce vendo respeito, escuta e validação entre os adultos, isso é o que constrói um homem emocionalmente equilibrado, com ou sem irmãs”, destaca.
“Mulheres não são escolas emocionais”
Olivieri chama atenção para um efeito colateral dessa narrativa: a transferência da responsabilidade emocional masculina para as mulheres. “Existe o risco de reforçar a ideia de que o homem se torna mais empático porque foi ‘ensinado’ por uma mulher”, observa. Para ela, isso desloca o foco da responsabilidade individual e reforça uma crença cultural de que cabe às mulheres educar emocionalmente os homens.
Além disso, esse tipo de discurso pode alimentar estereótipos e criar falsas expectativas nos relacionamentos. “Quando se espera determinado comportamento com base apenas na história familiar do outro, e não na forma como ele realmente age, se comunica e assume responsabilidade emocional, surgem frustrações e conflitos”, alerta.
Para Campello, exaltar homens que cresceram com irmãs como se isso explicasse seu comportamento emocional pode trazer efeitos problemáticos. “Essa narrativa reforça, de forma sutil, a ideia de que o homem ‘aprende a ser melhor’ por causa das mulheres ao redor dele”, pontua ela, que completa: “Homens são responsáveis pelo próprio desenvolvimento emocional. Mulheres não são escolas emocionais, nem instrumentos de cura”.
No fim, Olivieri conclui que relacionamentos saudáveis não se constroem a partir de rótulos, mas de atitudes. Ter uma irmã pode ser parte da história de alguém, mas não define, por si só, quem essa pessoa será nas relações afetivas.









