Banho de esterco, banheiro seco e jejum de 18h: como é morar em uma ecovila hindu escondida em MG
Espaço situado no sul de Minas Gerais promete experiência transformadora a partir da espiritualidade hindu. Em entrevista a Marie Claire, mulheres contam suas experiências no local, entregando os ônus e bônus de viverem em um mundo no qual tudo acontece em outro ritmo
A vida de Tatiane Bordon mudou quando ela descobriu um cisto no rim, em meados de 2025. A empresária, que já praticava ioga há dez anos e tinha interesse em saberes esotéricos, procurou um astrólogo em busca de um vislumbre sobre seu futuro. Ela queria mais mais segurança. Na conversa, foi apresentada ao Vrinda Bhumi, uma ecovila hindu localizada em Baependi, no Sul de Minas Gerais.
Até que ela fizesse sua visita à comunidade, houve um conflito. Fabrizio Bordon, seu marido, ficou preocupado com a viagem, já que o templo ficava a 360 km de distância da casa deles, em Americana, no interior de São Paulo. Ela não teve medo. Algo a chamava.
“Senti essa vontade de encontrá-los pessoalmente e viver a experiência presencialmente”, conta ela em entrevista a Marie Claire.
A rotina em Vrinda Bhumi
Em março de 2025, Bordon chegou à ecovila. Nesta primeira vez, passou aproximadamente uma semana vivendo como os membros da comunidade. Sua rotina incluía acordar às 4h da manhã para participar do Mangal Aarti – ritual religioso em que se reuniam para cânticos devocionais às divindades, o que acontecia pontualmente às 4h15 da manhã. Em seguida, congregava no Harikatha, momento em que os mestres contam histórias focadas nas entidades hindu. Como estava lá como voluntária, ia à cozinha ajudar na preparação da primeira pranchada - uma das únicas duas refeições lactovegetarianas servidas ao dia –, o que acontecia às 9h. Em seguida, ficava livre para ajudar em outras tarefas da comunidade ou praticar estudos religiosos. A segunda refeição, a “pranchada”, era servida às 15h.
A comunidade oferece muitas atividades artesanais e serviços como acupuntura, aulas de ioga e pintura, e experiências de conexão com a natureza, como banhos de cachoeiras e trilhas. As atividades se encerram todos os dias às 20h30, quando começa o horário de silêncio, em que apagam-se as luzes e cada um vai para seu quarto descansar.
“Gostei de tudo, mas principalmente dos kirtanas, que são eventos congregacionais de música que acontecem esporadicamente. É emocionante, uma experiência muito forte. Eles ficam repetindo o mantra Hare Krishna e aquilo entra no coração… é de chorar. Foi bem bonito”, diz, ao avaliar sua experiência na ecovila.
Bordon garante que voltou bem diferente dessa primeira experiência por lá. “Foi uma experiência incrível, porque é realmente uma comunidade muito acolhedora. São pessoas incríveis. Parece uma fuga por ser um lugar tão diferente, mas não tem a ver com fuga. Tem a ver com voltar para o seu eu interior, estar conectado com quem você é. Estamos tão longe da nossa própria natureza e vivendo em um mundo virtual que auxilia confusões, ansiedade e frustrações, então estar em um lugar com pessoas tão distantes disso, vivendo de forma comunitária é muito bacana.”
Um novo ponto de vista
Quando chegou ao local, Bordon conta que estava em busca de autoconhecimento e de uma experiência que a transformasse internamente. O estudo do hinduísmo permitiu essa conexão.
“O Hare Krishna fala que nós somos centelhas divinas. Tem uma ramificação que diz que somos o próprio Deus e que, em algum momento, vamos nos fundir a Ele”, conta. “Acho que para quem quer resgatar alguma coisa interna, voltar para si, procurar a comunidade é perfeito, porque você vai realmente conseguir se reconectar. Mas acho que tem que estar disposto a encontrar pessoas que vivem de uma forma totalmente diferente. Se você for muito urbano e muito conectado, talvez não seja uma experiência muito boa”, avalia.
Esse não foi o caso de Leticia Lima. A criadora de conteúdo mineira sempre gostou de conhecimentos holísticos e espiritualidade. No ano passado, foi a uma rave na qual conheceu um morador de Vrinda Bhumi, que se tornou um amigo. Ao contar para ela sobre a ecovila, Lima viu seu interesse despertar imediatamente, então decidiu fazer uma viagem para se voluntariar na comunidade.
“Senti um chamado muito grande de que precisava estar lá. Na época, estava sem dinheiro, fazendo voluntariado em São Tomé das Letras, também em Minas Gerais. Não tinha me programado, mas compartilhei minha situação nas redes sociais e pessoas que não conheço deram dinheiro para me apoiar. Chegando lá, foi um grande baque.”
A criadora de conteúdo explica que sentiu seu “ego” ficar “incomodado” com algumas peculiaridades do estilo de vida dos habitantes da comunidade. “Não podia fumar no quarto, tinha que sair para ter acesso a internet e só podia comer duas vezes ao dia. Não era obrigatório, mas quis viver a experiência completa”, justifica. Depois de sua primeira refeição, acreditou que passaria fome nos dias seguintes. “Tinha cravo no feijão, o arroz não tinha sal, era uma comida muito diferente. Fiquei desesperada, nem consegui comer”, admite.
Quando finalmente deitou para dormir no final do primeiro dela, Lima deixou as lágrimas escaparem. “Comecei a chorar e falei: ‘Não conheço ninguém neste lugar’”. Naquele momento, pensou que seria uma experiência rígida e dogmática.
O susto não foi à toa. Olhando de fora, quem está acostumado com a vida comum nos centros urbanos pode se chocar. Alguns devotos fazem jejum de um mês comendo apenas arroz. Quem está por lá usa o chamado banheiro seco, no qual o hóspede sobe em uma plataforma para ficar de cócoras, evacua as fezes em um buraco e cobre com areia e serragem. Há também a prática do banho de esterco, na qual alguns monges esfoliam a pele e purifiicam a energia do corpo com fezes de boi. A abstinência de sexo fora de uma relação estável também é recomendada, bem como a instrução para não se intoxicar com álcool e drogas em geral.
Com o tempo, Lima admite ter abraçado o estilo de vida hindu e seus hábitos inusitados. “Quando comecei a entender o porquê dos costumes, passei a ver a magia acontecendo. Minha perspectiva mudou”, pontua. Ela entende que as maiores lições que tirou de sua estadia dizem respeito à simplicidade de amar as pessoas ao seu redor, a capacidade de ver o melhor em cada um e também a habilidade de respeitar o próximo e a natureza.
“Estava saindo de um momento da minha vida em que estava trabalhando muito. Foi o momento que mais ganhei dinheiro. Mas tive um burnout dois meses antes de ir para Vrinda Bhumi e fiquei muito mal, com a sensação de que nunca tinha dinheiro o suficiente, estava sempre faltando, sempre para trás e que nunca tinha conquistado o suficiente”, recorda.
Quando chegou ao local, sua energia foi modificada. “Lá, me senti tão bem, tão em paz, uma energia de tanta simplicidade que pude falar: ‘Não preciso realmente de mais nada, só de um alimento nutritivo, pessoas amorosas ao meu redor, contato com a natureza e saúde.”
A experiência fez com que ela tivesse a certeza de que já não pertencia à sua antiga vida. Depois de Vrinda Bhumi, ela decidiu se mudar para o interior de São Tomé das Letras, em uma região mais rural e isolada. Mas não vê a hora de retornar à Vrinda Bhumi.
“Sinto que não concluí tudo que tinha que concluir em Vrinda Bhumi”, entende. “Eles têm uma firmeza espiritual nessa simplicidade e uma base muito bem estruturada de amor e dedicação.”
Nas redes sociais, muitos se referem à ecovila como uma “seita", algo que ela rechaça. “Fiz um vídeo das curiosidades de lá para o TikTok, que viralizou e as pessoas comentaram: ‘Eles estão te manipulando e você não está vendo’. Fiquei dando risada. Sei que é absurdo pensar que tem pessoas que realmente querem viver dessa forma, porque a gente é condicionada a pensar que qualidade de vida é outra coisa. Mas é realmente isso: eles não estão nem aí se você não quiser ficar lá, estão cagando e andando [risos].”
A história de Vrinda
Descrita como um ashram, isto é, uma espécie de mosteiro ou monastério que promove a prática espiritual da Bahkti Yoga, o espaço promete uma conexão com o Senhor Supremo através do serviço. O Vrinda Bhumi existe há pouco mais de vinte anos e tem Puri Goswami Maharaj como guia espiritual.
“Aqui tudo gira em torno da espiritualidade. A gente entende que cada alma que chega aqui não vem por acaso, vem por algum propósito, purificação ou por algum mérito espiritual”, explica Harinama Vrata Devida Dasi, coordenadora de Vrinda Bhumi e monja.
Ela explica que há três formas de visitar ou experienciar o espaço: como voluntário, o que permite ficar em quartos privados, comunitários ou na área de camping, cobrando uma pequena taxa de hospitalidade a depender do período que ficará; para hospedagem, sem a necessidade da realização de tarefas comunitárias; e para retiros, imersões ou cursos, com oportunidades sazonais.
“A gente sempre vê a alma e o que a pessoa vem buscar. Aceitamos qualquer pessoa e, quem não tem condição de fazer o aporte financeiro também pode trocar estadia por serviço”, reforça.
Ela, que encontrou Vrinda Bhumi depois que começou uma busca por respostas sobre a vida após a perda do pai, em 2009, diz que encontrou o que buscava. Depois de morar em Vrinda Bhumi por três anos e deixar o local para focar no seu casamento, entendeu que seu propósito era realmente relacionado à espiritualidade e se separou. Retornou recentemente, com o intuito de ser uma renunciante e dedicar sua vida à comunidade.
“Aqui é como se você tivesse saído do mundo. Não tem dia, hora ou mês. Assim, você consegue se perceber mais, viver em comunidade com Deus no centro, deixar o ego de lado e ficar em harmonia. No mundo material, estamos sempre preocupados com sobrevivência, com o que vai fazer, comer, não consegue ter esse sentido aqui não. Aqui, todo mundo está querendo servir ao outro.”









