“Nunca gozei tanto quanto no dia em que não me depilei”: como pelos em mulheres viraram luxo do desejo
Por mais que o Brasil tenha exportado a depilação total para o mundo, os pelos pubianos têm seus picos de glória em que deixam de ser sinônimo de 'sujeira' para virar símbolo de autonomia e desejo. Em tempos de corpos "perfeitos" gerados por IA, a busca pelo natural virou um diferencial?
Juliana* teve o melhor sexo oral da vida sem estar depilada. Foi um desvio de rota: geralmente, os pelos estão aparados, mas com a correria do dia a dia não deu tempo. “Ele começou a me pegar forte no bar e deslizou a mão para dentro da minha saia. Ele gemeu quando sentiu os pelos fora da calcinha e apertou bem forte”, diz ela. O encontro migrou para o motel — onde, nas palavras dela, recebeu “a melhor chupada da minha VIDA”. Em seguida, ri: “Acho que nunca gozei tanto antes da penetração, e não imaginava que tudo isso era porque ele queria uma peluda.” A pressão estética — e os mitos que vêm com ela — levam mulheres a passarem por excruciantes sessões de depilação (e vamos combinar, o máximo que der para adiar ficar curvada no chuveiro para dar uma aparadinha, melhor).
Em um mundo que deseja com intensidade incômoda as vulvas com pele a mostra, os pelos acabam ganhando muito valor — tem peso metafórico e literal. A criadora de conteúdo adulto Cherry the Mistress contou que saltou de uma renda mensal de US$ 4 mil para até US$ 50 mil depois que se tornou uma uma "70's bush babe" (algo como "musa com matagal dos anos 1970" em português), como se descreve no X. Artista britânica, Calita Fire foi pelo mesmo caminho e constatou que se exibir "peluda" na internet trouxe a ela mais estabilidade financeira do que… arte. Se dentro da criação de conteúdo os pelos aparecem aparados ou em menor quantidade, os bushes tornam-se um diferencial — um luxo, como um produto de colecionador. Em meio a tantos conteúdos pornográficos gerados por Inteligência Artificial (IA), mais pessoas buscam por experiências reais — e os pelos podem trazer essa sensação de naturalidade sem retoques, que passa mais autenticidade.
O consumo pode não ser imenso, mas tem amantes fiéis. Na cama é a mesma coisa, e essa informação pode causar choque na visão mais recorrente no Brasil: de que pelos pubianos são sujos, desleixados e feios. Um estudo de 2017 do Ambulatório de Estudos em Sexualidade Humana da Universidade de São Paulo (USP), que ouviu 52.787 mulheres e 17.133 homens, apontou que 64% delas e 62% deles preferem vulvas totalmente depiladas. É o tipo de depilação mais comum entre pessoas sexualmente ativas, independentemente de gênero, e a mais desejada quanto mais jovem é a faixa etária. Nossas vulvas inteiramente depiladas são tão famosas por isso que, nos Estados Unidos, a depilação total se chama Brazilian wax — que viveu um boom nos anos 1990 ao ser mencionada em Sex and the City.
No fio da navalha
A atriz Lady Milf, de 29 anos, também tinha pelos quando transou pela primeira vez com uma mulher, ainda nova. Mas a mãe a ensinou a se depilar cedo. “Foi com ela que aprendi a suportar a dor da cera a cada 30 dias”, diz. Anos depois, ela deixou os pelos crescerem a pedidos de colegas de trabalho no pornô e de clientes que assinam seu perfil no Hot Vips, onde vende conteúdo adulto. “O que mais gosto nos pelos é ter a autonomia de escolher se vou ou não me depilar, sem medo de julgamentos ou cobrança de que ‘O marido está achando feio’. Isso é gratificante”, diz.
Nathalie, 26 anos, conhecida como Neter, foi ensinada igual, mas com o tempo pensou que “não fazia sentido sentir tanta dor para algo que vai crescer de novo”. Aos 15, teve um “pensamento intrusivo” enquanto tonalizava o cabelo de verde. “Foi a primeira vez que descolori e passei tinta”, diz ela, que já aderiu a tons do azul turquesa ao laranja neon.
"A sensação é indescritível. Fiquei cada vez querendo ter mais pelos para colorir mais. Sempre recebi muitos elogios. Quando saio com alguém que não me conhece e a xereca está trocada, é sempre um choque."
A relação da humanidade com os pelos pubianos é, de fato, muito volátil. No Império Romano, depilar era sinônimo de higiene e status social, por exemplo, e nos anos 1970 os "matagais" foram abraçados no movimento hippie como forma de naturalizar o corpo e viver a sexualidade livremente. Mas o episódio considerado marcante pela preferência de depilar é apontado em estudos com a chegada dos depiladores femininos, lançados pela Gillette no começo do século 20 — antes disso, a depilação íntima tinha sido decretada como desnecessária no Norte global. Para criar demanda, o anúncio associa a depilação a "método mais seguro e sanitário" e diz que "a axila deve ser tão lisa quanto o rosto". Nos anos 1980, as vulvas sem pelos voltaram a ser hit por interferência da pornografia e do olhar masculino sobre como uma vulva "deve ser".
Existem algumas razões pelas quais os brasileiros podem se interessar mais em tirar os pelos: o clima no país é quente, as roupas são mais soltas e, dependendo de onde se mora, nunca se sabe quando vai acabar na praia — e a depilação em dia ganha status fundamental. Mas o estudo da USP, citado lá atrás, indica que por mais que elas se depilem por considerarem "mais higiênico", há uma grande inclinação da preferência de homens ao escolher raspar. Consequentemente, mulheres sem pelos se sentem mais satisfeitas com a aparência da vulva lisinha.
Mas essa tendência tende a mudar depois dos 40: a preferência aqui torna-se em aparar, não em remover tudo. Em uma entrevista, a psicóloga e especialista em sexualidade humana Maria Luiza Sangiorgi, que conduziu o estudo, afirma que elas podem ter influências maiores de tendências anteriores, citando como exemplo o ensaio de Claudia Ohana na Playboy. Por falar nela: um estudo de 2011 analisou fotos publicadas na revista entre 1953 e 2008 e constatou que os pelos pubianos foram diminuindo com o tempo nos ensaios.
“Meus pelos são um lembrete da minha personalidade”
Não dá para dizer que o grande rebuliço causado por pelos em vulvas tenha deixado de existir. Dentro de uma sociedade demarcada pelo padrão de beleza e pela castração do desejo de mulheres, os pelos passaram a aparecer como sinal de rebeldia. Um dos casos registrados aconteceu na Alemanha, quando feministas reivindicaram um “retorno à natureza” para serem o mais natural possível. "A onipresença da vulva depilada na cultura popular e na pornografia criou um padrão em que o corpo da mulher adulta deve parecer com o de uma criança", já afirmou a jornalista e pesquisadora alemã Mithu Sanyal, que contou a história da vulva em profundidade no livro Vulva: The Revelation of the Invisible Sex (Vulva: A Revelação do Sexo Invisível, em tradução livre). "O pelo pubiano tornou-se um tabu porque ele é o sinal visual mais óbvio da maturidade sexual e do poder biológico da mulher, algo que a sociedade patriarcal historicamente tenta domesticar ou esconder."
A conversa sobre higiene também está defasada. No atual estado da medicina, os pelos são considerados, na verdade, barreiras protetoras naturais contra patógenos e ferimentos. Eles também exalam os feromônios, o aroma afrodisíaco do corpo. Com o tempo, então, parar de depilar pode ser considerada tanto uma forma de desafiar o poder masculino — ao negar a preferência deles — como, também, uma maneira de autoafirmação estética: de nadar contra a corrente e se aceitar do jeito que se é, como diz o movimento body positive.
Neter não sente o impacto só na atenção por seus pelos, mas também na autoestima. “Meus pelos são um lembrete pra mim de como minha personalidade é: colorida. Também me dão a sensação de que posso, sim, me sentir bem, feminina, caprichosa, sem seguir o padrão de xereca lisa. O normal é chato, e minha xereca não." À medida que Lady Milf passou a se interessar por homens maduros, percebeu que eles não se importam — e que alguns ainda caem ainda mais em tentação. “Não me sinto mais incomodada mesmo sabendo que estão me julgando, e fico feliz que tive essa virada de chave. Gosto de saber que me desprendi de um sofrimento e obrigatoriedade de uma prática que consome nosso psicológico e nosso financeiro a troco de agradar pessoas.









