Comportamento
Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)

Sabe quando você vai a um date e, depois de alguns drinks, a conversa flui tanto que você acaba compartilhando detalhes da sua vida, como términos traumáticos, bullying na adolescência e a relação tóxica com um chefe de um trabalho anterior? Se isso já aconteceu, você pode ter praticado o floodlighting e nem está sabendo.

A jornalista Caroline*, 30 anos, percebeu isso na prática. Quando era solteira, seus dates começavam despretensiosos, mas bastava a conversa engatar, para que as histórias começassem a surgir. “Eu acabava contando tudo, sempre com humor, fazendo piada da minha própria desgraça”, lembra.

Mas, quando a relação não avançava, o incômodo aparecia. Ela sentia que tinha se exposto demais com alguém que ainda não tinha espaço na sua vida. Inclusive, começou a perceber que essa abertura acabava sendo usada contra ela. “Já aconteceu de um cara se sentir à vontade para fazer piada com coisas que eu tinha contado”, conta.

Com o tempo, Caroline entendeu que ao contar suas experiências boas e ruins, logo de cara, existia uma tentativa de validação: seja para se mostrar uma mulher forte e decidida ou até tornar a própria história interessante aos olhos do outro, gerando empatia.

Esse comportamento também aparece no relato da babá Giovana*, 35 anos. Ela conta que teve um encontro com um cara que durou horas e a conexão parecia imediata, mas veio acompanhada de uma exposição intensa. “No final do dia, eu tinha contado todos os meus traumas, problemas amorosos e familiares para alguém que eu tinha acabado de conhecer”, diz.

O padrão se repetiu em outros encontros, até que ela começou a perceber o quanto esse tipo de abertura surgia de forma automática para ela, mas nem sempre era confortável depois.

Entre os vários termos em inglês que surgem para descrever comportamentos em relacionamentos — como ghosting, gaslighting e lovebombing — o floodlighting aparece para dar nome a um padrão que por mais natural e identificável que possa parecer, pode acabar antecipando uma intimidade que ainda está em construção.

O que é floodlighting?

O termo foi popularizado pela pesquisadora Brené Brown, que descreveu o floodlighting em seu livro O Poder da Vulnerabilidade: Ensinamentos de Autenticidade, Conexões e Coragem. Segundo a autora, trata-se de uma “vulnerabilidade fora de contexto”: ele é usado para simbolizar a decisão de uma pessoa compartilhar experiências, dores e traumas de forma intensa, antes de construir uma conexão e intimidade com a outra pessoa.

A própria etimologia do termo ajuda a entender a lógica do comportamento. “Flood remete a inundar, transbordar, enquanto lighting tem a ver com iluminação. É como jogar uma luz forte demais, cedo demais, em parte íntimas de si, antes de existir base emocional para sustentar isso”, explica a sexóloga especialista em relacionamentos Fernanda Purificação.

O floodlighting pode acontecer não só em encontros presenciais como pode aparecer em conversas na internet — principalmente quando você ainda não conheceu a pessoa e acaba “falando demais”, perdendo a oportunidade de contar certas coisas aos poucos.

Quando a vulnerabilidade vira excesso?

Embora possa ser confundido com autenticidade ou algo positivo que acontece quando uma conversa “encaixou”, o floodlighting está menos ligado à troca e mais a uma intensidade intempestiva. “Nem toda exposição é uma vulnerabilidade. Às vezes, é ansiedade, carência ou dificuldade de regular as próprias fronteiras emocionais”, afirma Purificação.

Uma das maiores críticas a esse tipo de comportamento é que ele pode transformar o outro em um depósito emocional na pessoa que acabou de te conhecer — que às vezes só foi simpática e está querendo dar uns beijos e te levar para a cama.

Segundo Purificação, pode existir um certo potencial de manipulação, mesmo que não intencional. “A pessoa pode usar essa abertura do outro para testar a reação ao contar suas experiências pesadas ou tentar acelerar uma intimidade que ainda não existe. Nem sempre é consciente, mas acontece”, explica.

Para quem está do outro lado, a experiência pode ser ambígua. Já que mesmo que exista uma proximidade e uma vontade de conhecer melhor a pessoa, pode gerar um desconforto. “A pessoa pode se sentir sobrecarregada, confusa e até culpada. Vem aquele pensamento: ‘Será que se eu não corresponder à altura, vou parecer frio?”.

A pressa por compartilhar informações pode fazer o efeito contrário do esperado. “Quem está ouvindo pode se sentir em um lugar de responsabilidade emocional que não foi combinado, e isso pode fazer a pessoa se afastar, em vez de se aproximar.”

Mas existe um lado positivo se abrir por inteiro no primeiro encontro?

Como em quase tudo quando o assunto são relações afetivas, a resposta não é tão simples. Nem toda abertura pode ser automaticamente lida como floodlighting. As duas pessoas podem criar uma conexão espontânea e sentir que não tem barreiras para falar sobre vários assuntos de forma natural, sem que pareça forçado.

Renata*, 30 anos, viveu uma experiência que foge do padrão e acabou em casamento. Depois de um tempo conversando por mensagem, ela resolveu encontrar o então pretendente pessoalmente. “Achei de bom tom contar que tinha ansiedade, que tinha pensamentos suicidas, que não estava muito ligada com a vida”, lembra.

Na época, a intenção dela era quase oposta à de antecipar uma conexão. Existia uma expectativa de que a intensidade afastasse quem não estivesse disposto a lidar com ela. “Na minha cabeça, ia espantar a pessoa errada e ficar só quem me aceitasse como eu sou”, diz.

Apesar do susto inicial, a relação seguiu. “Ele me contou depois que pensou ‘essa aí é maluca, vou fugir’. Mas não fugiu, porque a gente tinha realmente criado uma conexão de verdade”.

Segundo Purificação, a forma de diferenciar se pode ser algo positivo ou não está na intenção e no contexto do que está sendo dito. Em vez de julgar o quanto a pessoa está se expondo, é importante observar como essa troca se sustenta.

“É como se a pessoa estivesse se abrindo sem esperar nada em troca, deixando fluir, realmente presente na conversa. Mas, a partir do momento em que se compartilha algo tão profundo esperando que o outro me devolva na mesma medida, aí a gente começa a ter um problema.”

Na prática, a especialista explica que o que define esse limite positivo é o ritmo, reciprocidade e a ausência de cobrança. Quando vem carregada de autenticidade, sem expectativa de validação, ela tende a aproximar. Mas o contrário pode acabar pressionando, mesmo que não seja a intenção.

O que o floodlighting revela sobre os relacionamento atuais

Mais do que um comportamento isolado, o floodlighting também ajuda a entender o momento atual das relações. Segundo Purificação é como se existisse uma contradição: “Nunca se falou tanto sobre vulnerabilidade, mas isso ainda se confunde com exposição sem medida. Quando isso acontece, a conexão pode parecer intensa, mas não necessariamente ela é segura ou madura”.

Ao mesmo tempo em que cresce o discurso sobre a importância de melhorar a comunicação e se mostrar emocionalmente disponível, ainda existe uma dificuldade para entender os limites dessa abertura. “Tem muita gente com fome de conexão, mas sem tolerância para o tempo que ela exige para ser construída”, analisa.

Nesse cenário, a exposição emocional acaba sendo usada como um atalho. “Existe uma vontade de ser visto, entendido e escolhido rápido. Só que a intimidade não nasce da pressa nem do esvaziamento. Ela nasce na presença, da constância e de uma construção gradual”, explica Purificação.

Esse movimento também ajuda a explicar por que o floodlighting pode parecer conexão, mesmo quando não é. Ao compartilhar demais, cedo demais, se cria uma sensação de proximidade e pertencimento, mas nem sempre consegue ser sustentada por uma segurança emocional.

No fim, o ponto não é evitar se abrir, e sim entender que intimidade não se acelera, ela se constrói. E, para existir de verdade, vai precisar de muito mais tempo do que uma conversa intensa de duas horas numa mesa de bar.

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