Ninguém segura o poder de Zezé Motta
Celebrando 80 anos de uma história que vale muito e 56 de carreira, a artista exalta trajetória profissional e transforma os fios: “meu cabelo remonta toda a minha identidade e a minha militância”
É inegável, indiscutível e até mesmo incomparável o talento de Zezé Motta. Ao longo de 56 anos de carreira, a atriz sempre aliou competência e comprometimento, sem deixar de lado seu próprio estilo e beleza.
Para além de seus vários personagens, Zezé Motta conseguiu imprimir, mesmo que subliminarmente, sobretudo numa época em que empoderamento sequer era cogitado, que o poder da mulher preta está expresso, também, em sua imagem.
Do black, passando por perucas, alisamentos, entrelaces e penteados, a beleza de Zezé Motta jamais se esgotou. Pelo contrário: cada vez mais inspira e encoraja, com a imponência de seus fios crespos e cacheados.
Em cada coroa que a mulher preta carrega, ninguém segura o poder da ancestralidade! E Zezé Motta, em toda a sua imponência e plenitude, traz consigo a representação do orgulho, resistência, identidade e luta por liberdade. Mais do que uma identidade, sua coroa é uma afirmação, agora realçada pela nuance loiro escuro(6U), de Excellence sem Amônia, de L’Oréal Paris.
Cuidar da beleza é, além de autocuidado, um realce do nosso poder, sobretudo da nossa ancestralidade. Como é a sua relação com o cabelo, uma vez que sua profissão exige, por vezes, transformações bruscas na imagem?
Zezé Motta: Acredito que não só eu, como todas as mulheres, temos a liberdade para escolher o cabelo que quisermos. No caso da mulher negra isso é ainda mais potente, mas também mais complexo. O cabelo passa a ser não apenas um instrumento de vaidade, mas também de identidade e autoestima. Ao longo da minha vida, fui percebendo como a aceitação do meu cabelo natural também é um ato político e uma forma de resgatar características que foram inferiorizadas por tantos anos e rotuladas como menos desejáveis. Então, de certa forma, o meu cabelo remonta toda a minha identidade e a minha militância. Isso não significa que também não posso usar qualquer outra forma que eu quiser. Sou livre para fazer o que quero com o meu cabelo, mas hoje me sinto muito feliz com meu estilo atual e com a minha nova cor, um loiro escuro que é bem novo pra mim.
O cabelo da mulher preta – a nossa coroa – nos dá segurança e poder. Mas sabemos que assumir os fios crespos é algo relativamente novo para muitas. Contudo, o seu black já fazia sucesso quando a palavra “empoderamento” sequer existia no nosso vocabulário. Como adquiriu essa segurança, assumindo sua beleza natural que hoje entendemos que pode ser realçada, por exemplo, com uma coloração?
Zezé Motta: Conquistei esse tipo de amor próprio quando percebi que não precisava copiar padrões e estéticas da supremacia branca para ser bonita, bem-sucedida e respeitável. Quem iria dizer isso era eu mesma e a minha carreira. Quando entendi que não há nada de errado com meu cabelo natural, percebi que a ideia de não assumir o cabelo crespo é apenas uma forma de alienar pessoas pretas.
Essa foi a mudança mais radical que você, em relação à coloração, já fez nos fios?
Zezé Motta: Acho que sim. Recentemente, utilizei o chocolate acobreado. Foi uma grande mudança em relação às cores naturais do meu cabelo e uma das poucas vezes em que assumi tons mais claros. Agora esse novo tom, que é um loiro escuro (tom 6U, de Excellence sem amônia, de L’Oréal Paris), me encantou. Adorei o resultado final, e principalmente como a coloração fez sentido com o penteado black e os fios crespos naturais.
Celebrando 80 anos de idade e 56 de carreira, há alguma história específica com seus cabelos que marcaram essa trajetória?
Zezé Motta: Na adolescência, tive a fase de embranquecimento. Quando meus pais saíram do morro do Cantagalo e foram morar numa área nobre do Rio, amigas minhas que eu considerava brancas, mas que só tinham a pele mais clara, falavam: “Você tem um nariz chato, o cabelo ruim, a bunda grande”. Então, passei a alisar o cabelo, queria operar o nariz, o bumbum. Teve uma época em que minha mãe lavava o rosto com água de arroz, porque diziam que clareava a pele. Uma prima botava limão no olho para deixar mais branca uma área do olho que não era tão branca. Uma tortura!
Eu já alisava o cabelo, mas pensava: “Não é isso que eu quero. Quero ter cabelo de branco”. Então passei a usar uma peruca chanel bem lisa. Até que, em meados de 1969, essa história mudou para sempre. Fui fazer um circuito universitário com o grupo do Boal (Augusto Boal (1931-2009), um dos mais importantes dramaturgos brasileiros) nos Estados Unidos, México e Peru. Encenávamos Arena conta Zumbi e Arena conta Bolívar. O Lima Duarte interpretava Zumbi dos Palmares. Mas o Boal tinha um sistema que ele chamava de coringa, em que em algum momento do espetáculo cada um de nós fazia o Zumbi. Na encenação que fizemos no Harlem (bairro de maioria negra em Nova York na época), lá fui eu levantar o braço com meu Zumbi de peruca chanel.
Quando acabou a apresentação, chamaram o Boal e falaram: “O que essa mulher alienada está fazendo no grupo?”. Ele se sentiu no dever de me contar: “O pessoal do Harlem ficou chocado com o seu embranquecimento”. Ninguém tem que policiar ninguém. No meu caso, era mesmo um processo de embranquecimento que comecei pelo cabelo.
No Harlem, vi aqueles negros maravilhosos, com cabelos black power tão bem tratados que chegavam a brilhar. Me perguntava: “Por que não acho os homens negros no Brasil lindos como estou achando esses daqui?”. Não achava os negros do meu país bonitos porque aqui me diziam que eu era feia e eu acreditava. Quando percebi isso, entrei para o movimento negro na primeira oportunidade que tive. Passei a frequentar as reuniões do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra (IPCN). Anotava tudo, queria fazer as coisas, mas não era uma ativista completa.
Teve um outro episódio, depois de alguns anos de carreira como atriz, em que tive a oportunidade de interpretar uma executiva, que era rica e bem-sucedida. Para a caracterização dessa personagem, foi determinado que o cabelo dela seria liso. Esse episódio me fez compreender como é construída no imaginário popular, de forma sutil e implícita, a ideia de que os cabelos crespos não fazem parte de um ambiente de sucesso.
Conseguiria destacar 8 transformações, uma para cada década vivida?
Zezé Motta: Sempre fiz muitas mudanças em meu cabelo, tanto por uma questão de gosto pessoal quanto pelo meu trabalho de atriz. Já tive cabelo longo, curto, liso, crespo, já fiz tranças e colori diversas vezes, não só para realçar minhas cores naturais mas também para usar os tons que desejava. A transformação mais impactante foi quando assumi o cabelo crespo, porque foi quando passei a aceitar a minha identidade. Mas para todas essas mudanças sempre tive cuidado para não danificar os fios do meu cabelo, não só usando laces mas também sendo fiel a minha rotina de cuidados. Minha nova transformação segue esse mesmo caminho, conseguir cobrir os fios brancos e garantir uma cor de longa duração, com brilho, sem quebrar ou danificar meus fios.
Se resumisse a sua história em um estilo de cabelo ou penteado, qual seria?
Zezé Motta: Sem dúvida o penteado black, com o cabelo crespo, por representar tanto para a minha aceitação e amor próprio enquanto mulher preta.









