Cultura

Por Raphaela Cunha

Vista retrata um caso real de estupro que aconteceu no Alto da Boa Vista, na zona norte do Rio de Janeiro, um dos principais pontos turísticos da cidade. Na época, o caso ganhou destaque pois a capital fluminense estava prestes a sediar as Olimpíadas de 2016. Fato impactante e recorrente, que virou tema da peça de teatro, que pode ser vista até 9 de Abril no Espaço Sérgio Porto.

A obra é uma adaptação do livro Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy, lançado em 2012, e é encenada por Julia Lund, que dá vida à personagem que também se chama Julia. Em conversa com Marie Claire, a atriz comentou a importância de retratar assuntos mais pesados por meio da arte.

“É um dos crimes que mais acontecem e são menos denunciados. Tem alguma coisa estranha nisso. A gente precisa jogar luz nessa conversa. Esse trabalho pode ajudar a despertar consciência sobre esse problema cultural e social e, de certa forma, ajudar a transformar o imaginário --sobretudo o dos homens.”

Ela ainda reflete: “O estupro é um crime muito invisibilizado e silenciado, o que protege os estupradores e agressores. Enquanto qualquer tipo de expressão, seja escrever um livro, fazer uma peça, denunciar, isso fortalece as mulheres. Estou feliz que eu possa contribuir para abrir essa questão.”

Confira, abaixo, trechos da entrevista:

Julia Lund — Foto: Divulgação
Julia Lund — Foto: Divulgação

MARIE CLAIRE Como surgiu a ideia de adaptar o livro Vista Chinesa para uma peça de teatro?

JULIA LUND Assim que acabei de ler o livro, fiquei muito impactada. A personagem também se chama Julia, e eu senti uma espécie de chamado lendo o meu nome naquelas páginas. Quando terminei, eu pensei: ‘Isso é uma peça’. O importante dessa obra é o relato dessa mulher, que é superforte. Ele tem um lado político, cultural e social, porque ela narra o crime. Ela fala de violência de gênero e sexual e é um elogio à nossa capacidade humana de regeneração. Apesar de ter vivido o pior, ainda assim a gente consegue voltar a ter prazer na vida, na relação com o outro e, no caso da peça, com o próprio corpo. É uma peça densa, mas ao mesmo tempo luminosa, porque foca o processo de regeneração da personagem.

MC A peça retrata um caso real e que infelizmente é recorrente nos dias de hoje. Você fez alguma preparação para o papel? Conversou com mulheres que passaram por isso?

JL Eu não conversei, mas eu li o livro da Ana Paula Araújo, o Abuso - A Cultura do Estupro no Brasil. Ela entrevistou mais de 100 mulheres, estupradores, familiares dessas mulheres, juízes, advogados e tem muitas histórias. Também li o livro da Adriana Negreiros, [Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço], que viveu um estupro em 2003 e escreveu um livro sobre a história dela e de outras mulheres. Colocamos na peça trechos dessas outras mulheres. É um crime que acontece diariamente. O último dado que saiu é que no Brasil ocorrem 600 mil casos de estupro por ano e só 10% são denunciados. É um dos crimes que mais acontecem e são menos denunciados. Tem alguma coisa estranha nisso. A gente precisa jogar luz nessa conversa.

MC Como é dar vida a uma personagem com uma história tão impactante?

JL Todo mundo fala que é impossível descrever um estupro. Mas aí a gente para por aí e não diz nada? Acho que estou me aproximando da história dessa mulher. Não tenho como representar o que foi. É irrepresentável. Eu nunca vivi um estupro e, mesmo que tivesse sido comigo, a representação não dá conta do que é. Eu vejo como uma aproximação minha como mulher. Sei como é o medo de ser estuprada. O medo eu conheço e acho que é uma tentativa de falar. Para mim é muito importante sentir que eu estou de alguma forma contribuindo para a expressão desse assunto. O estupro é um crime muito invisibilizado, pouco denunciado e muito silenciado. Esse silêncio só protege os estupradores e agressores. Enquanto qualquer tipo de expressão, seja escrever um livro, fazer uma peça, denunciar, isso fortalece as mulheres. Estou feliz que eu possa contribuir para abrir essa questão.

MC Acredita que é papel da arte provocar reflexões sobre temas tão relevantes como este?

JL Acredito totalmente. Acho que a arte atua nas sensibilidades das pessoas. Nas percepções, na forma que veem e avaliam o mundo. Esse trabalho pode ajudar a dar esse ganho de consciência sobre esse problema cultural e social e, de certa forma, ajudar a transformar o imaginário --sobretudo o dos homens. É como se a gente tivesse trazendo esse assunto para o público, porque ele diz respeito a todo mundo, a essa sociedade machista e patriarcal em que a gente vive. E que precisa falar sobre isso e, principalmente, mudar isso.

Serviço

Espaço Sérgio Porto (rua Humaitá, 163, Humaitá, Rio de Janeiro)
De quinta a sábado, às 20h, domingo, às 19h - Sessão extra: 5/4, às 20h
Temporada: de 10/3 até 9/4
Duração: 80 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

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