Cultura

Por Paola Churchill, redação Marie Claire — São Paulo

Com o som do oceano, Lia de Itamaracá aprendeu a cantar. Ela, aos 12 anos, também bailava no ritmo das ondas e desde pequena sabia o que queria fazer: ser artista. A cirandeira pernambucana de 79 anos relembra em entrevista à Marie Claire que sempre foi apaixonada por música e era a única dos seus 17 irmãos a querer trabalhar com isso: “Esse talento foi um presente de Deus e abençoado por Iemanjá. O que eu queria era levar a música para o mundo”.

Na época, ainda se chamava Maria Madalena Correia do Nascimento, o nome Lia foi dado depois, por sua amiga e também colega de trabalho, Teco Calazans. “Ela foi uma das primeiras a confiar no meu potencial. Ela achou que podia aproveitar meu talento e nós começamos a compor juntas, na praia mesmo”, comenta.

Os versos foram um sucesso anos depois, mas naquele momento que nasceu uma estrela: a Lia de Itamaracá: “Oh cirandeiro, cirandeiro oh, a pedra do teu anel brilha mais do que o sol. Esta ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”.

Lia de Itamaracá sempre soube que seria artista  — Foto: Ytallo Barreto
Lia de Itamaracá sempre soube que seria artista — Foto: Ytallo Barreto

Roqueiros na ciranda

Com seus 1,80m, Lia se recorda que seus primeiros contatos com a ciranda foram ainda jovem. Ela trabalhava como merendeira em uma escola e se dedicava à música no tempo livre. Então, em 1977, ela gravou o primeiro disco: o A Rainha da Ciranda. Infelizmente, ele não teve o sucesso que merecia: ela recebeu 20 exemplares e nenhum centavo por ele.

Foi só duas décadas depois, quando o produtor Beto Hees a chamou para participar do Abril pro Rock, realizado em Recife e em Olinda, que ela ficou conhecida nacional e mundialmente.

A artista se recorda do dia com muito carinho: "Para mim foi mil maravilhas, imagina uma cirandeira no meio de um monte de roqueiro? Foi uma loucura, roqueiro vai, roqueiro vem. Ciranda vai, ciranda vem, e no meio do caminho a gente se encontra”, brinca.

Pouco tempo depois, ela gravou seu primeiro disco, Eu sou Lia, em 2002. Seu último álbum foi lançado em 2019, o Ciranda sem Fim. E Lia percorreu diversos países com a sua música e recebeu homenagens do mundo todo, incluindo do jornal The New York Times, que a considerou a “Diva da música negra”.

“Só vou parar de cantar quando Deus me chamar. Mesmo com a demora para o reconhecimento, eu nunca considerei desistir da música, sempre pensei em me incentivar, resolver e fazer o possível para realizar meu sonho”, pondera.

Lia do Itamaracá irá ser enredo de 2 escolas de samba em 2024 — Foto: Ytallo Barreto
Lia do Itamaracá irá ser enredo de 2 escolas de samba em 2024 — Foto: Ytallo Barreto

Homenagens

“Receber homenagens e ter meu trabalho reconhecido em vida é bom demais”, comemora a cirandeira. No último dia 4, ela recebeu a homenagem do Prêmio Profissionais da Música, no Distrito Federal, e se apresentou. De lá, segue para São Paulo, onde receberá o Troféu Tradições, da UBC, na próxima terça (6), com show exclusivo e participações especiais, na Casa de Francisca. “Estou louca para chegar lá, já recebi vários prêmios ao longo da vida, um artista não deve se cansar disso não, é sempre uma honra”, acrescenta.

E no ano que vem, Lia será enredo de duas escolas de Samba do Rio de Janeiro e São Paulo: Império da Tijuca e Nenê de Vila Matilde.

“Eu estarei lá nas duas, fiquei muito feliz e honrada. Era um sonho, um dos tantos que eu ainda tenho para realizar. Quero muito conhecer alguns países da África, ver se é tão bonito pessoalmente quanto é pela televisão”, brinca.

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