Fernanda Young é ‘mistura de Frida Kahlo, Kurt Cobain e Virginia Woolf’, diz diretora de documentário sobre a escritora
Fernanda Young, Foge-me ao Controle, dirigido por Susanna Lira, será exibido na mostra É Tudo Verdade, no Rio e em São Paulo, e entrega imersão na mente, alma e rebeldia da escritora morta em 2019
“Acho que a reclamação é um movimento otimista”, diz uma Fernanda Young de olhos franzidos e saco cheio ao reclamar da longa caminhada pelo deserto do Atacama, no Chile, em janeiro de 2007. Em seguida, alfineta o guia turístico para o marido e companheiro de trabalho, Alexandre Machado: "Esse cara falando o tempo inteiro essas informações que nem aprendi no segundo grau. Não interessa! Eu quero comungar com a natureza, ficar de boa."
Essa é a cena de abertura de Fernanda Young, Foge-me ao Controle, documentário de Susanna Lira que passa a ser exibido a partir desta quinta (4) na mostra É Tudo Verdade; e sintetiza bem a personalidade autêntica de Fernanda, que nunca se importou em ser gostada e fez do descontentamento com o mundo sua manifestação de desobediência e rebeldia – um ato ousado e proibido para qualquer mulher, algo com o qual Fernanda também não se importava.
O filme é a primeira obra que se propõe a expor a vida da escritora, roteirista, atriz e apresentadora, que morreu em 2019 em decorrência de uma parada cardíaca, após uma crise de asma.
A ideia de ter Fernanda Young como tema de documentário veio da pesquisadora audiovisual Marcella Tovar, e teve total apoio de Alexandre Machado. "Ele sempre segurou a minha mão e chegou a literalmente dizer para eu, por favor não desistir. De uma certa maneira, acho que era isso que ele fazia com Fernanda."
Com uma linguagem ensaística, o documentário é um mergulho em como deveria ser a mente de Young: caótica, intensa, provocadora e profundamente interessada nos sentimentos mais extremos que embalam a essência humana – sobretudo o amor, o tempo e a morte, a tríade de suas obras.
São fotografias, instalações em vídeo, trechos de entrevistas concedidas ao longo dos anos, inúmeras de suas ilustrações poucos vistas e passagens de seus mais de 15 livros – ora lidos por ela, ora pela escritora, atriz e amiga Maria Ribeiro. Tudo isso sobreposto a rabiscos, jogos de luz, formas, trechos de filmes vintage e inúmeras imagens de acervo pessoal.
"Traduzir Fernanda Young para o mundo é uma tarefa complexa", conta Lira em entrevista a Marie Claire. "Na verdade, esse é um dos vários filmes que devem ser feitos sobre ela, porque foi uma figura que marcou toda uma geração. Pode parecer exagero, mas para mim ela é uma mistura de Frida Kahlo, Kurt Cobain e Virginia Woolf”, expressa a diretora.
Ao longo de 90 minutos, são apresentadas as multifacetas de Young – tanto na arte como na vida pessoal, sem filtros. O público acompanha sua visão de mundo enquanto mulher feminista, punk, que não teve medo de escancarar o lado não romantizado da maternidade e foi aberta sobre sentimentos nada bonitos, como depressão, dislexia, a ausência do pai e violência sexual – algo que, aliás, ela revelou em 2016 em entrevista a Marie Claire.
Também é um mergulho no íntimo de uma mulher que versou sobre a liberdade e antecipou debates que, hoje, se mostraram urgentes – mesmo debaixo de críticas por sua honestidade brutal.
“Ao longo dos livros, se percebe o quanto ela era uma mulher coerente que falava para nossa geração de mulheres de feminismo, violências que a gente sofre e nossos sonhos. Falar dela dá mesmo, mas não falar é silenciar a voz de quem ela foi”, aponta a diretora.
Young é considerada a primeira mulher a fazer sucesso como roteirista no Brasil – é ela quem está por trás de séries como Os Normais, Os Aspones, Surtadas na Yoga e Shippados. Mas, sobretudo, gostava que seu ofício de definição fosse de escritora, o que definiu ser ainda quando criança, mesmo tendo terminado o Ensino Médio em supletivo, depois dos 20 anos.
Young conseguiu dar voz a uma geração de mulheres quando o mercado editorial era (ainda) mais fechado ao permitir a publicação dos dilemas, dores e prazeres femininos.
O reconhecimento pela escrita, no entanto, nunca veio em vida. Só ganhou um Prêmio Jabuti, na categoria Crônica, três meses depois de morrer, pelo livro Pós-F: Para Além do Masculino e do Feminino; e verbalizou com todas as letras que se sentia “extremamente desrespeitada”, algo que ela atribuiu a ser mulher, não parecer intelectual, não reverenciar os coronéis da cultura e por fazer sucesso em outras áreas, o que ela via que magoava quem era da literatura. São palavras dela.
"Gostaria que o filme estimulasse as pessoas a terem curiosidade de ler Fernanda. A questão de ela ter sido intensa e verdadeira afastava um pouco as pessoas, porque esses não são atributos que uma mulher deve ter. Ao quebrar esse padrão, ela sofre por isso. Mas ler Fernanda faz bem a todas nós e à memória dela", pensa Lira.
Recomendações
Além de eternizar Fernanda e fazer jus ao que ela foi em vida (mesmo que, em partes, sem o reconhecimento que ela queria ter tido), Lira acredita que essa pode ser a chance de aproximar a escritora das gerações mais novas e gerar “um interesse profundo pela imagem dela – como uma coisa mítica, mesmo”.
"No poema Às vezes sinto vontade de faltar com a verdade, ela se define como uma pessoa lambida pela coragem. Acho que é uma frase que a define bem."









