Cat Power sobre conflito em Gaza: 'As pessoas precisam abandonar a religião e olhar para a humanidade'
A norte-americana apresenta neste domingo (19) sua versão de um show icônico de Bob Dylan de 1966 no C6 Fest, em São Paulo. Nesta entrevista, ela reflete sobre sua arte, a de Dylan e fala dos esforços de tentar salvar um mundo que se recusa a morrer
Se tem alguém que consegue usar a melancolia como uma forma de revolução e de expressar o descontentamento com o mundo, esse alguém é Cat Power. Uma das vozes mais importantes do indie, Chan Marshall (seu nome verdadeiro) se prepara para tocar no C6 Fest, em São Paulo, no dia 19 de maio, em que emprestará a inconfundível voz a faixas de Bob Dylan, uma de suas maiores referências e ídolos.
Ela vem reproduzir, na íntegra, o álbum em que recria o icônico show de Dylan no Royal Albert Hall, em Londres, em 1966, que foi um marco cultural e político em meio a um mundo em transformações e polarizações – algo que, ela avalia, pouco mudou desde então. A seguir, leia os melhores trechos da entrevista feita por Marie Claire por vídeo chamada.
MARIE CLAIRE Em 2014, você fez um show gratuito numa estação de metrô em São Paulo. Pretende fazer algo assim de novo?
CAT POWER Eu ia amar! Talvez dentro de um barco à remo na calçada… Veremos, querida.
MC O que te atrai em tocar em espaços públicos?
CP Viajo muito, passo muito tempo sozinha e me sinto invisível. Acho que as pessoas na era moderna, que estão nos trens e nas calçadas, também se sentem invisíveis. Gosto de tocar na rua porque posso criar um momento que nos une fora da igreja, do escritório, da escola e nos torna o centro do universo. De repente, o corriqueiro pode ser um momento forte e poderoso.
MC Por qual motivo quis regravar o show de 1966 de Bob Dylan no Royal Albert Hall e porquê rodar o mundo com ele?
CP Levei em conta a temperatura política nos Estados Unidos naquele momento [a versão de Chan foi gravada em novembro de 2022] e quis homenagear o estado de espírito de um jovem Dylan que agiu em um momento crucial para avançarmos. Quando ele fez esse show, foi vaiado por meses, mas nem isso o parou. Pessoas jovens não têm noção do quanto são destemidas. Elas são o espírito de todos os movimentos sociais, estão na linha de frente para seguirmos em frente enquanto sociedade. Quis colocar minha versão no mundo na esperança de que alguém jovem, brilhante e questionador possa encontrar nas letras de Dylan uma forma de abrir a mente, aprender sobre o passado, a repetição dele e toda essa merda imperialista que continua acontecendo no mundo.
MC Você disse em uma entrevista que ser mulher muda a maneira de interpretar Dylan. De que forma?
CP Trago minha bagagem de uma mulher que está viva, é mãe solo, vinda da pobreza e que, mesmo assim, tem uma vida muito rica e pode ver o mundo continuamente, sem deixar de se inspirar e aprender. Quando canto as palavras dele tenho uma intenção, que é moldada de formas diferentes a cada noite. Às vezes, estou de coração partido pelo que está acontecendo na Palestina e canto para as almas do outro lado do mundo. Ou canto para o homem de 85 anos que está na primeira fileira de olhos fechados porque ama Bob Dylan. Se minha voz não estiver boa ou eu errar alguma letra, não importa. Minha intenção é sempre estar presente.
MC Você citou a Palestina, e é uma das poucas artistas de grande alcance que expressam esse apoio e que falam sobre a situação de Gaza. Como é para você acompanhar esse conflito?
CP Só de falar meu coração acelera. Me lembra de como é ser jovem e ser confrontada com o terror e com experiências traumáticas. Penso nas pessoas e nas famílias dos que estavam naquele festival em Israel quando o Hamas começou o massacre. Penso em Gaza, que é a continuação desse terror, e no julgamento rápido das pessoas em tomar um lado ou outro. Optou-se em olhar para a religião primeiro, o que é uma vitória do capitalismo, mas essa é uma questão de humanidade. Sinto que as pessoas precisam abandonar sua religião pelo resto de suas vidas e se concentrar na espiritualidade, na conexão deste planeta e nas pessoas que estão no poder.
MC Voltando ao show: Dylan era ótimo em “atirar” as palavras. Você, pelo contrário, as sussurra, como se estivesse oferecendo um colo e uma resiliência. Concorda?
CP Sim! E essa é a natureza das mulheres, é nossa vibe. É a energia do sagrado feminino de curar, proteger, estender a vida, nutrir. Esse mundo é o que sempre foi, e o recurso real que nós temos são as mulheres. Somos a chave da mudança. Somos tão fortes, brilhantes, compassivas e temos muito conhecimento. Agora, é sobre nos organizarmos, falarmos umas com a outras sem medo e entender como fazer essa revolução com bondade, diversão e risadas. Temos que tomar nosso espaço, não pedir por ele.









