Com rimas poderosas, Duquesa mostra por que é a nova diva do rap: 'Aqui não tem gracinha'
Ela é uma das vozes mais autênticas do trap brasileiro. Com rimas poderosas que celebram a autoestima feminina e colocam as mulheres em um lugar de autoconfiança e aceitação, a artista baiana desafia o status quo e subverte padrões, enquanto incendeia os palcos com suas letras despudoradas
"Gostosa inteligentes. Rebolo na sexta, conto grana na segunda. Fazendo pose pro flash, troco a wave, troco a lace, troco a unha. Uh, assim que a mágica acontece.” Foi impactante ouvir uma casa de shows lotada em São Paulo cantando esses versos a plenos pulmões, vozes predominantemente femininas. No palco, Duquesa, uma rapper de 24 anos, abria sua turnê Taurus, Vol. 2, a sequência do álbum lançado no ano anterior, que consolidou seu nome como uma das mulheres mais ouvidas no trap, uma vertente do rap, no YouTube. no Spotify e nas demais plataformas do gênero.
Nascida Jeysa Ribeiro em Feira de Santana, Bahia, Duquesa começou sua carreira em 2015. Cinco anos depois, foi contratada pela produtora Boogie Naipe, conhecida por gerenciar carreiras icônicas como a de Mano Brown e os Racionais MC’s. Foi por meio dessa produtora que ela lançou Taurus, projeto que conquistou os fãs com trechos virais como “Como fica [sic] triste com um rabo desse?” Nas redes sociais, muitas mulheres, especialmente de sua geração, adotaram a frase enquanto postavam fotos de seus treinos, fortalecendo sua conexão com as “gostosas inteligentes”.
Antes desse sucesso, Duquesa lançou o EP Carta Para Mim Mesma, revelando seu lado mais íntimo e vulnerável. “Naquela época, estava em uma energia introspectiva mas queria levantar a cabeça. Me vi independente, sustentando uma casa. Não valia a pena me prender a um relacionamento antigo e frustrado”, explica.
“Gostei dela de bate-pronto e fiquei ouvindo sua música, estudando e entendendo suas rimas. Já eram ideias maduras. Pensei: ‘É isso que procuro: uma mulher negra que sabe rimar, cantar. E ainda por cima vem da Bahia, terra da minha avó’”, diz Kaire Jorge, diretor executivo da Boogie Naipe e filho de Eliane Dias, CEO da empresa, e do rapper Mano Brown.
“Ela bebe de várias referências e não fica presa a nada. Se você a coloca dentro de uma caixa, ela dá um jeito de sair dali. Ela te dribla. Quando você pensa que ela vai para um lado, ela já está em outro”, conta ele. Carol Castro, assistente executiva da Boogie Naipe, complementa: “O maior diferencial da Duquesa é sua versatilidade. Ela se entrega em tudo que faz, seja na música, no palco, no figurino ou na narrativa”.
A garota dos números
Os Taurus – a artista é taurina, de 1º de maio – impulsionaram Duquesa como uma referência no trap: mais de 1,3 milhão de ouvintes mensais no Spotify, 41 milhões de visualizações no YouTube e uma indicação a Melhor Novo Artista Internacional no BET Awards, um dos maiores prêmios da música nos Estados Unidos. No Brasil, sua agenda está lotada até junho de 2025. “As pessoas querem estar nos shows para sentir a energia da música ao vivo”, afirma.
Após sua participação elogiada no Rock in Rio 2024, Duquesa integra o lineup do Afropunk Brasil, que acontece este mês em Salvador, junto a nomes como Erykah Badu e Lianne La Havas. “O fato desse show ser no estado onde nasci, com minha família e amigos na plateia, me deixa um pouco ansiosa. Sinto que volto para a Bahia de outra forma, sendo uma nova pessoa.”
"A minha música faz as meninas se sentirem felizes e livres. Isso é empoderador"
O recorte de gênero no rap, e mais ainda no trap, que é um fenômeno recente no hip-hop, faz parte da história de Duquesa, ou “Duq”, como é chamada pelos fãs. Ao lado de artistas como Ajuliacosta, MC Luanna, Tasha & Tracie e Ebony, ela criou uma trincheira de rimas para se sentir confortável em um meio predominantemente masculino. “Criamos um ambiente seguro, no palco e também para o público. Estamos ali para curtir, não para sofrer nenhum tipo de assédio. A gente se impõe, coloca o dedo na cara. Aqui não tem gracinha”, afirma.
“Bumbum GG, peitinho P”
Potente nas atitudes, Duquesa sabe que seu trabalho já foi subestimado. Por isso, foca em fazer o melhor para sua carreira. “Confio no meu taco e na minha intuição. Vim na contramão do que via ‘funcionando’ no rap, mas me coloquei onde me sinto confortável”, afirma. Esse caminho, no entanto, não é fácil, pois sua autoestima é reafirmada por letras diretas e muitas vezes divertidas, que enfrentam racismo, machismo e gordofobia.
Em agosto passado, Duquesa teve que se manifestar no palco e nas redes sociais após um episódio de racismo e sexismo durante um festival em Londrina, no Paraná. Ela e sua equipe, composta majoritariamente por mulheres gordas, retintas e crespas, foram alvos de comentários racistas de um público predominantemente masculino e branco, que pediu para que saíssem do palco. “Não admito que aconteça algo desse tipo. Ainda mais com uma equipe composta em sua maioria por mulheres. A vida pública, às vezes, é cruel.”
Apesar desse episódio, Duquesa diz que poucos momentos de ódio explícito ficaram na sua memória. “O que mais comentam sobre mim é meu corpo”, diz. Pouco antes de lançar Taurus, a artista descobriu que tinha hipotireoidismo, uma condição que dificulta a produção de hormônios pela tireoide, o que resulta, entre outros sintomas, no ganho de peso. Foi essa descoberta, somada a anos de terapia, que a ajudou a não sucumbir às pressões da magreza na música. “Nem se eu quisesse mudaria meu corpo de um dia para o outro, e ainda morro de medo de cirurgias plásticas. Claro que já pensei nisso, mas não vou lidar com meu corpo dessa forma”, afirma.
"Criamos um ambiente seguro no palco e para o público. A gente se impõe, coloca o dedo na cara. Aqui não tem gracinha"
E é com essa perspectiva que ela escreve suas letras combativas. “Minha música ajuda as meninas a se sentirem felizes e livres. Isso é empoderador”, diz ela. Duquesa celebra o corpo grande em várias de suas músicas. “Bumbum GG, peitinho P, não vou sufocar usando bojo. Se ele gosta de fartura, nunca mais vai ficar pobre, uh, ele tem sorte”, canta ela, em um de seus maiores sucessos.
A reafirmação da autoestima passa também pelos seus cabelos, e Duquesa está em uma nova fase: em outubro, ela se tornou embaixadora de uma marca famosa por xampus, cremes e produtos para cabelos crespos e cacheados. “Eu me senti desafiada, pois, do ano passado para cá, comecei a ter um leve distúrbio de imagem por causa das laces. Não me via mais com meu cabelo natural. Estava sempre com fios grandes e ondulados, o que não corresponde com o meu cabelo”, conta.
+ Karol Conká celebra reconhecimento internacional: 'Tenho sim uma carreira bem bonita lá fora'
Duquesa acabou sofrendo um corte químico e agora se sente como uma adolescente, aprendendo a cuidar dos fios naturais novamente. “Esse convite veio na hora certa, porque ter cabelo curto e crespo não era visto como feminino. Agora posso cuidar de mim e inspirar outras meninas.”
“Gosto da sensação que causo em mim mesma quando estou em frente ao espelho. Realizo muitos desejos que tinha na adolescência em relação a minha imagem. Sempre procurei mulheres para me inspirar, e agora o que faço é olhar no espelho e falar: ‘Eu seria sua fã e te amaria muito’.”









