‘Anora’, melhor filme do Oscar 2025, levanta debate sobre representação do trabalho sexual ser mais perigosa do que empoderadora
O filme Anora foi o grande vencedor do Oscar deste ano, levando para casa cinco estatuetas: de melhor filme; melhor diretor (Sean Baker); melhor edição; melhor roteiro original; e melhor atriz: Mikey Madison, por sua atuação como uma stripper de Nova York.
Em seu discurso de agradecimento, a atriz de 25 anos dedicou a estatueta às profissionais do sexo: "Quero reconhecer e homenagear a comunidade de profissionais do sexo. Todas as pessoas que pude conhecer foram o destaque de toda essa experiência incrível".
O longa traz a história de Anora, também conhecida como Ani, interpretada por Madison, uma trabalhadora sexual de Nova York que se casa com o filho de um oligarca russo (Ivan "Vanya" Zakharov, interpretado por Mark Eydelshteyn). O que começa parecendo um sonho de mudança de vida para Ani, ou ainda uma comédia romântica como descreveu o diretor, se transforma em um cenário caótico de violência e perseguição à medida que seus novos sogros a forçam a anular o casamento.
Anora se tornou queridinho dos críticos na temporada de premiações de cinema. Levou o Critics' Choice Awards de Melhor Filme, a Palma de Ouro em Cannes e o BAFTA de Melhor Elenco e Melhor Atriz para Mikey Madison.
E não é o primeiro filme de Sean Baker que aborda o trabalho sexual e questões de classe. Ele explorou temas semelhantes em Tangerine (2015) e The Florida Project (2017) e, ao responder a jornalistas sobre suas abordagens sendo um homem cis, branco e hetére disse que seus "filmes são apenas reações ao que não estou vendo o suficiente ou o que eu quero ver mais. Não sou o primeiro a ter uma abordagem empática ao trabalho sexual".
Mas é um filme que divide opiniões por causa da representação que ele traz de uma profissional do sexo. De um lado, há quem diga que é empoderador, progressista e brilhante. De outro, em maior coro, principalmente entre as mulheres, que é superficial e perigoso.
“Anora é uma personagem bastante limitada”
Em entrevista a BBC, atrizes, strippers e dançarinas do filme endossaram a divisão: Algumas elogiaram o filme por ser realista, especialmente por retratar a rejeição e a exaustão que as profissionais do sexo costumam sentir. Mas outras disseram que era "limitado".
“Não queria participar de um filme ruim sobre strippers, ou de algo que prestasse um desserviço ao nosso setor, por isso fiquei apreensiva", diz a britânica Edie Turquet, que faz críticas as produções Zola e Uma Linda Mulher. Mas, ao perceber que Anora era um filme de Sean Baker, ela mudou de ideia. "Os filmes dele se baseiam no realismo, ele tem um estilo de filmagem de ‘observação’, que eu adoro. Por isso, aceitei."
Turquet diz ainda que o final do filme é "bastante identificável e comovente", por retratar com precisão a "exaustão e a fadiga" que as strippers costumam sentir. Além disso, que tem sentimentos ambíguos sobre o longa.
"O que muitos filmes de strippers deixam passar — e o que Anora começa, mas não vai longe o suficiente — é a questão moral em torno dos homens que compram sexo", explica. E, de acordo com ela, também a deixa frustrada o fato de essas personagens "nunca existirem fora da sua profissão".
"[Anora] é uma personagem bastante limitada", conta. "Nunca aprendemos nada sobre ela. O filme adota a perspectiva dos [protagonistas masculinos] Igor e Vanya, ao definir quem ela é. É melhor do que qualquer filme que eu tenha visto sobre o assunto, mas, em última análise, é limitado, pois não é contado por uma profissional do sexo", acrescenta.
A opinião de Erika Lust, diretora, roteirista e produtora de pornô feminista, vai de encontro a de Turquet. A revista Grazia, ela disse que “Anora é um filme raro que se recusa a reduzir o trabalho sexual a vitimização ou glamourização".
“A narrativa de Sean Baker faz algo muito mais radical - trata as trabalhadoras sexuais como seres humanos completos e complexos. Ani não é um recurso de enredo; ela é uma mulher com agência, humor e contradições. Esse tipo de representação importa porque vai além dos estereótipos e permite que as trabalhadoras sexuais sejam vistas como elas são - indivíduos multifacetados, não apenas símbolos de luta ou contos de moralidade", continua Lust.
Para a diretora, Sean Baker tem o dom de contar histórias sobre “comunidades negligenciadas” com “nuance e empatia”. “Em Anora , ele continua essa tradição, colocando uma trabalhadora do sexo no centro da história, não como um arquétipo, mas como uma pessoa.”
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Política, sexo e violência
Na Angel Food Magazine, a escritora e trabalhadora do sexo Marla Cruz, escreveu sobre a alienação política de Baker em relação ao que o filme representa. Isso porque, segundo ela, na eleição presidencial dos EUA em 2024, a escolha era votar entre duas pessoas responsáveis por perdas políticas para as trabalhadoras do sexo, Kamala Harris e Donald Trump.
“Como procuradora-geral da Califórnia, Harris foi fundamental na apreensão e fechamento do Backpage.com pelo governo federal, um site popular onde trabalhadoras do sexo anunciavam seus serviços, em 6 de abril de 2018. Apenas cinco dias depois, Trump sancionou a lei SESTA/FOSTA, tornando os proprietários de sites responsáveis pela atividade sexual criminosa dos usuários de seus sites, efetivamente fechando várias plataformas onde trabalhadoras do sexo anunciavam e compartilhavam informações relacionadas à indústria entre si", lembrou Cruz.
E lembrou ainda de quando, questionado pelo LA Times sobre o potencial político de seus filmes, dados seus temas marginalizados, Baker falou que não queria um filme político. "Já estamos tão divididos como país que, se eu começar a pregar minha política, vou alienar 50% da população. Acho que a arte é sobre unir as pessoas e provocar discussão."
Alerta de spoiler.
Marla Cruz aborda ainda a violência em uma sequência do filme, quando Ani é deixada por Vanya em casa e três capangas de sua familia entram em uma luta física com ela para que ela assine o documento que anula o casamento. “A câmera não habita seus olhos para revelar a realidade aterrorizante desta cena. Em vez disso, observamos a luta física que se segue entre Ani e Toros, Garnick e Igor através de uma tomada de ângulo aberto", escreve ela. “Ela pode estar lutando com unhas e dentes pelo controle de sua vida, mas a cena contorna a empatia por ela ao convidar o público a rir da energia maluca entre seus três captores. Os homens são apresentados como desajeitados e incompetentes, mesmo quando a dominam fisicamente e ela concorda sob coação.”
Para tentar se salvar em meio a violência, Ani grita ela repetidamente "estupro!" “para a perplexidade dos capangas, o medo de Ani é sublimado em histrionismo feminino. A câmera corta para um close de sua boca gritando, encorajando o público a se identificar com os homens em sua missão de controlar essa mulher rebelde amordaçando-a com um lenço vermelho".
Para Cruz, o “horror de Anora está em nossa capacidade de ter empatia com o sofrimento de gênero das trabalhadoras do sexo e a humilhação implacável de lutar por um homem que não te ama sem o consolo de lidar com seus próprios termos ou experimentar o apoio de pessoas que te conhecem e se importam com você".
Ela ainda enfatiza o fato de que a personagem é “baseada em estereótipos regressivos sobre trabalhadoras sexuais: nesta narrativa, somos grosseiras, impulsivas e patologicamente sexuais. Essa premissa poderia ser perdoada — há muitos personagens cujo mau comportamento os humaniza em seres complexos — se não fosse pela implicação desconcertante do final de que deve ser emocionalmente inovador quando um homem mostra um mínimo de cuidado para com uma trabalhadora sexual porque as trabalhadoras sexuais têm pouca experiência em serem amadas e cuidadas. Que tipo de história de amor poderíamos esperar para a trabalhadora sexual quebrada e não amada?”
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