Isabelle Drummond anuncia volta às novelas com vilã: 'Sinto que é o momento de retornar'
Longe das novelas desde 2019, a atriz prepara seu retorno à TV Globo em um folhetim ambientado no universo da música sertaneja. Nos últimos anos, porém, mergulhou em uma nova fase como artista: começou a produzir e dirigir filmes. Nesta edição, com fotos que apresentam a coleção de outono 25 da Dior, feitas em Kyoto, no Japão, ela fala sobre liberdade feminina, espiritualidade, moda e a estreia na direção de um filme
O aniversário de 31 anos de Isabelle Drummond foi diferente dos demais. Primeiro pelo “atraso” nos parabéns de familiares, fãs e amigos — todos no Rio, onde mora, enquanto ela estava em Osaka, no Japão. São 12 horas de diferença. A atriz e empresária não é uma mulher de grandes estripulias e comemorou com simplicidade, na dela: comeu um cheesecake japonês que queria muito experimentar e, no jantar, ganhou uma ilustração especial de um sushiman, feita com tinta da cauda de peixe.
“Os japoneses têm essa coisa de olhar para dentro, refletir, se concentrar. Foi especial porque, para mim, aniversário é mais para dentro do que para fora. Preciso ter um momento para sentir o que mudou em mim, saber se recebi alguma mensagem divina e agradecer.”
Leu uma vez da jornalista Eliane Brum que chegar aos 40 trouxe sabedoria e tranquilidade. Por mais que ainda falte nove anos para chegar lá, é sob esse prisma que Isabelle decidiu acolher o passar do tempo. “Adoro envelhecer. É como se eu estivesse ganhando algo internamente — sabedoria, aprendizados da vida. Viver vai ficando mais fácil”, reflete.
Por mais que tenha se consagrado aos olhos do público nas novelas, a atriz, que tem praticamente uma vida dedicada à arte — já são 20 anos de carreira —, se afastou das telinhas em 2019 depois de interpretar sua sexta protagonista, a Manuela, de Verão 90. Agora, dois anos depois de encerrar o contrato com a Rede Globo, voltará aos folhetins para viver uma vilã, em um projeto ainda secreto. Ela já flertou com a vilania quando viveu a norte-americana Megan Lily em Geração Brasil (2014), mas diz que a nova personagem é "mais posicionada no antagonismo".
“A novela se passa em Goiânia e tem um enredo ao redor da música sertaneja. Acho que é o máximo de spoiler que consigo dar agora”, conta em um áudio de WhatsApp.
“É um momento especial, principalmente por causa da expectativa que as pessoas têm por esse retorno. A novela é um instrumento enorme para a cultura brasileira, e tenho muita alegria de poder contar histórias por meio delas. Sinto que é o momento de retornar.”
Novos passos
O ímpeto artístico de Isabelle não ficou adormecido nesses seis anos. Pelo contrário. Sua ida ao Japão, por exemplo, foi um cumprimento de agenda com a parceria que tem com a Dior, uma das maisons mais cobiçadas do mundo — as marcas de luxo passaram a se render ao estilo minimalista e elegante da atriz.
E ainda, vem se preparando para colocar em prática um novo desejo: tornar-se produtora e diretora de filmes. Não só: “Quero contribuir de alguma forma com meu olhar para contar as histórias de mulheres.”
Com direção de Bruno Safadi, ela produz e protagoniza uma cinebiografia de Laura Alvim, importante aristocrata carioca que transformou sua casa em um centro cultural para artistas no século passado — ela chegou a abrigar nomes como Fernanda Montenegro e Tônia Carrero, duas damas do nosso teatro.
Sua estreia na direção será num curta sobre a fundação do bairro de Ipanema enquanto efervescente região de liberdade e contracultura no Rio. Mais especificamente, sobre uma das primeiras famílias a morar no Arpoador: os alemães Hanz e Miriam Etz, que vieram fugidos do nazismo.
É em Miriam, no entanto, que Isabelle foca suas lentes. Ela é tida como a primeira mulher no Brasil a usar um maiô de duas partes — hoje mais conhecido como biquíni — e se vestia com tanta liberdade que foi vista pela sociedade carioca de 1948 como “rebelde”. O filme será estrelado por Hanna Svarts — “uma atriz nova”, explica Isabelle — e Antônio Benício — sim, o filho da Alessandra e do Murilo.
No dia anterior à entrevista por vídeo que concedeu à Marie Claire, de sua casa no Rio, Isabelle viajou 185 km ao interior do estado para encontrar os filhos dos Etz, que participam ativamente da construção do curta.
Marcar o papo com a atriz, aliás, não foi tarefa fácil: foram necessárias duas remarcações, já que não param de aparecer set visits, reuniões com produtoras — no mesmo dia, falou com “um pessoal dos Estados Unidos” — e eventos na agenda. Tudo isso com um sono ainda bagunçado, graças ao jet lag do Japão, que a vem fazendo trocar o dia pela noite.
“A escolha dessas duas mulheres foi um tanto pessoal. São de uma época em que não tinham muita liberdade e romperam com costumes: Miriam sequer viu essas barreiras, porque usar uma roupa ‘escandalosa’ era só mais um dia para ela, pelo background europeu. Já Laura rompeu com seu status quo para abraçar artistas, vedetes, meninas de programa e migrantes nordestinos. O Rio é conhecido como um lugar de liberdade, mas ainda tem muito preconceito nas entranhas. Como atriz, são histórias que me interessaram, e contá-las é, também, contar a história do Rio sob uma ótica feminina”, pensa.
No ano passado, ela levou parte da discussão sobre gênero para os palcos com a peça Tina-Respeito, inspirada na personagem de Maurício de Sousa e na graphic novel de 2019 da quadrinista Fefê Torquato. No enredo, Tina trabalha em uma redação jornalística e se vê diante do assédio sexual.
Outro projeto em que está envolvida é na gravação de uma campanha publicitária em forma de série para divulgar Agressão, segundo livro da jornalista Ana Paula Araújo, da TV Globo. "Ana Paula foi muito corajosa ao compartilhar as próprias experiências, e poder dirigir esse projeto é uma alegria para mim por poder ajudar a disseminar informações tão importantes para a proteção das mulheres."
Para ela, é no audiovisual que o terreno está mais fértil para criar uma nova corrente artística que trate do conturbado zeitgeist atualmente vivido no Brasil — e no mundo. Tal qual foi o Cinema Novo, por exemplo, para denunciar as mazelas da ditadura militar. Ou, nos palcos, a ressonância de grupos teatrais que resistiram ao regime, que vão do Teatro Oficina aos Dzi Croquettes.
“O fato de Ainda Estou Aqui ter ganhado um Oscar foi legal para olharmos e entendermos o potencial do nosso cinema. Cineastas brasileiros já acreditam no nosso audiovisual, mas quando é aplaudido lá fora, valorizamos mais. Temos um DNA cinematográfico próprio, não americanizado, e precisamos criar novos movimentos culturais fortes”, pondera.
Mulher metamórfica
Crescida em frente às câmeras, nem sempre Isabelle foi tão introspectiva e reservada. A impressão de menina espoleta deve vir de sua versão para Emília, de Sítio do Picapau Amarelo, na releitura de 2001 — fato curioso: Isabelle foi a primeira criança a interpretar a boneca de pano de Monteiro Lobato. Ou mesmo pela debochada Bianca, de Caras e Bocas (2009), que colocou o bordão “É a treva” na boca do povo. Ou ainda a Empreguete Cida, de Cheias de Charme (2012), um de seus maiores hits.
Na vida real, entendeu o quão sagrado é manter algumas coisas só para si mesma — um desafio quando se é uma pessoa pública. Em um mundo em que as redes sociais viraram vitrines de um estilo de vida invejável ou que número de seguidores se torna parâmetro para escalar atores para projetos/peças de publicidade, a atriz vai pelo caminho contrário.
Seguida por três milhões de pessoas e com um @ que sequer leva seu nome — @yeuxpapillon, olhos de borboleta, em francês —, ela vê a rede social meramente como ferramenta de negócios, nada mais. A postura low profile já gerou alguma pressão? “Sim, algumas vezes. Mas tomo minhas escolhas de qualquer forma. Outras coisas vão se encaixando.”
Mesmo assim, Isabelle não deixa de prestar atenção nos pedidos dos fãs, que vão desde seu retorno às novelas (podem comemorar!) até os que anseiam, há mais de uma década, por um filme das Empreguetes, com Taís Araújo e Leandra Leal.
“Não entendo como cobrança, mas como uma resposta à herança que deixei na televisão”, diz. “Busco corresponder a expectativa pelo compromisso com o público. Tenho carinho e gratidão pela TV e continuarei fazendo, mas também farei cinema porque é meu desejo entender como usar essa linguagem.”
Isabelle não é só reservadíssima com sua vida pessoal, como parece ter se esforçado para aprender a não ligar, por exemplo, para as especulações sobre se está namorando ou se está grávida. Ao mesmo tempo, ela adota a mesma postura quando está no centro de polêmicas — algo raríssimo, vale destacar.
Talvez uma das únicas tenha sido quando foi acusada publicamente, em 2021, de construir uma filial da igreja evangélica Casa Shores Rio pela proprietária de um imóvel que alugava. Pergunto a Isabelle se, de alguma maneira, não falar disso trouxe algum impacto negativo para sua carreira e imagem. “Esse é um assunto batido, e escolhi não me pronunciar.” E ponto.
Andar com fé
Durante a viagem ao Japão, Isabelle visitou alguns dos templos budistas e xintoístas mais belos do país. As fotos que ilustram esta entrevista foram feitas nos arredores do templo Daikakuji, em Kyoto. Ela também assistiu, deslumbrada, ao desfile da Dior, assinado por Maria Grazia Chiuri, no jardim do templo To-ji, fundado no ano 796, conhecido por sua construção anti sísmica de cinco andares, criada para proteger a cidade de energias espirituais negativas.
Evangélica, sua fé é inabalável. Isso ficou claro quando preferiu não jogar moedas em lagos sagrados nem se molhar em fontes religiosas. “Respeito as tradições japonesas, acho lindo. Mas, ainda assim, não é minha crença.”
“Acho a fé um direcionamento importante do que significa ser humano, assim como valorizarmos a liberdade religiosa que temos no Brasil”, reflete.
“Nosso país é maravilhoso porque não tem nenhum tipo de censura nesse sentido — o que não existe em alguns países. Isso garante que cada um possa ter suas escolhas. Tenho amigos de várias religiões diferentes e acho maravilhoso dialogar. A vertente de cada um é uma escolha muito pessoal, e isso não pode ser objeto de preconceito ou estereótipo.”
Numa realidade em que, cada vez mais, a religião volta a ser terreno de disputa — e até controle — política e moral, sobretudo segmentos evangélicos, esse preconceito chega na direção dela? “Imagino que sim, e precisamos rever isso socialmente. Sou uma pessoa que vivo sempre muito livre, nada nunca me impediu de fazer minhas escolhas. Já vivemos períodos muito difíceis no sentido de impedir a liberdade religiosa, como no caso da colonização, por exemplo. É um momento de olharmos para isso para garantir que não vamos retroceder.”
Equipe
DIREÇÃO CRIATIVA MARIA RITA ALONSO (de Kyoto, Japão)
DIREÇÃO DE ARTE JOÃO BRITO
EDIÇÃO DE MODA LARISSA LUCCHESE
MAQUIAGEM NANNAN SHINDO (com produtos Dior Beauty)
CABELO MIHA OSHIMA
STYLING NEEL CICONELLO MORIKAWA
PRODUÇÃO EXECUTIVA VANDECA ZIMMERMANN
PRODUTORA LOCAL MAYA SAUSE
ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA KAKERU TAKEUCHI
ASSISTENTE DE MODA RODRIGO HIDETOSHI MORIKAWA
TRATAMENTO DE IMAGEM TELHA CRIATIVA









