Quem é Lélia Wanick Salgado, companheira de Sebastião Salgado que transformou a fotografia e o meio ambiente com ele
Ícone mundial da fotografia morreu nesta sexta (23) e deixa viúva sua grande parceira de vida e companheira de projetos e dois filhos, Juliano e Rodrigo
Nesta sexta-feira, 23, o mundo perdeu Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos documentais da história, aos 81 anos. A notícia de sua morte, em Paris, foi confirmada pelo Instituto Terra, organização que fundou ao lado de sua esposa e parceira de vida e obra, Lélia Wanick Salgado, de 78 anos. Ele convivia, desde os anos 1990, com problemas de saúde em decorrência da malária que contraiu durante uma viagem à Indonésia, mas a causa da morte ainda não foi divulgada oficialmente.
Leia o comunicado na íntegra:
"Com imenso pesar, comunicamos o falecimento de Sebastião Salgado, nosso fundador, mestre e eterno inspirador.
Sebastião foi muito mais do que um dos maiores fotógrafos de nosso tempo. Ao lado de sua companheira de vida, Lélia Deluiz Wanick Salgado, semeou esperança onde havia devastação e fez florescer a ideia de que a restauração ambiental é também um gesto profundo de amor pela humanidade. Sua lente revelou o mundo e suas contradições; sua vida, o poder da ação transformadora.
Neste momento de luto, expressamos nossa solidariedade a Lélia, a seus filhos Juliano e Rodrigo, seus netos Flávio e Nara, e a todos os familiares e amigos que compartilham conosco a dor dessa perda imensa.
Seguiremos honrando seu legado, cultivando a terra, a justiça e a beleza que ele tanto acreditou ser possível restaurar.
Nosso eterno Tião, presente!
Hoje e sempre."
Em meio às homenagens ao fotógrafo, é impossível não voltar o olhar para Lélia — arquiteta, curadora, editora, ambientalista e a mente por trás da materialização de muitos dos projetos que imortalizaram o nome Salgado no mundo.
Uma parceria de vida e criação
Lélia e Sebastião se conheceram em 1964, em Vitória (ES), quando ela tinha 17 anos e ele, 20. Casaram-se em 1967 e, diante do contexto político brasileiro, mudaram-se para a França dois anos depois. Em entrevista para Marie Claire em 2014, ela falou sobre adaptação e o que motivou a decisão de sair do país: "Fizemos planos rapidamente. Sempre foi um sonho. Meu pai adorava a França. Eu e o Tião nos conhecemos na Aliança Francesa em 1964. Viemos estudar, mas não tínhamos bolsa de estudo, o começo foi difícil. Eu tinha 21 anos, meus pais tinham acabado de morrer. Foi um golpe muito duro. Larguei meu país, sem pai nem mãe, e vim para um lugar que não conhecia. Mas a gente queria viajar... e é assim até hoje".
Depois do início conturbado, ela estudou arquitetura e urbanismo, enquanto ele iniciava sua carreira na fotografia. Desde o início, formaram uma dupla criativa: Lélia foi responsável pela concepção gráfica e curadoria de todas as grandes exposições e livros de Sebastião, incluindo obras emblemáticas como Trabalhadores, Êxodos, Gênesis e Amazônia.
Eles tiveram dois filhos, o cineasta Juliano, de 51 anos, e o pintor Rodrigo, de 45, que tem obras expostas em igrejas e museus de Paris.
Mais do que uma colaboradora, Lélia era a força organizadora por trás da estética e da narrativa visual do fotógrafo. Ela fundou e dirigiu a agência Amazonas Images, dedicada exclusivamente à obra de Sebastião, e foi fundamental na produção do documentário O Sal da Terra, indicado ao Oscar em 2015, e dirigido pelo primogênito do casal ao lado de Wim Wenders.
Reflorestar como ato de amor
Em 1998, o casal fundou o Instituto Terra, com o objetivo de restaurar a Mata Atlântica no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. O projeto buscava reflorestar a Fazenda Bulcão, localizada nas margens das nascentes que formam o córrego Bulcão em Aimorés. O fotógrafo viveu nessa fazenda durante a infância com sua família, que utilizava a área para a criação de gado e essa atividade provocou o desmatamento do lugar. Lélia e Sebastião transformaram o terreno em uma floresta com milhões de árvores plantadas, recuperando mais de 600 hectares e tornando-se referência internacional em restauração ecológica e educação ambiental.
Esse trabalho foi reconhecido em 2023, quando Lélia recebeu o Prêmio Gulbenkian para a Humanidade, uma das mais importantes honrarias ambientais do mundo, também já entregue à ativista Greta Thunberg. A premiação celebrou não apenas a atuação de Lélia no reflorestamento, mas sua capacidade de articular arte, ciência e consciência ecológica em um só projeto de impacto global.
A mulher ao lado, não atrás
Lélia sempre rejeitou ser chamada de "a mulher por trás do grande homem". Em entrevista para Marie Claire, deixou claro: "Detesto esse rótulo. E as pessoas acham que estão fazendo um grande elogio. Eu não ando atrás de ninguém, ando ao lado. Atrás de um grande homem não tem uma grande mulher porque o que existem são grandes pessoas que se ajudam". Sua trajetória é marcada por autonomia, visão e uma sensibilidade que moldou não apenas a obra de Sebastião, mas também o impacto social e ambiental de seu legado.
Hoje, enquanto o mundo se despede de Sebastião Salgado, é essencial reconhecer que sua obra foi, desde o início, um projeto a quatro mãos. Lélia permanece como guardiã dessa herança, não como coadjuvante, mas como protagonista de uma história de amor, arte e compromisso com a humanidade e o planeta.









