No MASP, Clarissa Tossin transforma corpo, planta e terra em reflexão sobre colapso climático e menopausa
'Ponto sem Retorno', a primeira individual da artista em um instituição brasileira, propõe um mergulho radical no entrelaçamento entre natureza, finitude e cuidado
Por meio do próprio corpo, das plantas e da terra, Clarissa Tossin transforma o que é íntimo em um mergulho coletivo sobre meio ambiente. Em “Ponto sem retorno”, sua primeira exposição individual no Brasil — em cartaz no MASP até 1 de fevereiro de 2026 —, a artista propõe uma reflexão que entrelaça o corpo da mulher madura e o planeta, num gesto que costura urgência climática, ancestralidade e transformação.
“Essa exposição marca um retorno às minhas origens, ao meu país de nascimento”, diz Tossin, que vive há duas décadas em Los Angeles. “Sinto que inauguro também uma nova fase no museu, com essa sala sendo usada para exposições de arte contemporânea dentro da nova gestão.”
A mostra integra o ano temático “Histórias da Ecologia”, eixo curatorial que orienta toda a programação do museu em 2025. “Desde o início, buscávamos artistas cujas pesquisas lidassem com as questões ecológicas de maneira própria e inovadora”, explica Guilherme Giufrida, curador assistente do MASP. “O nome da Clarissa surgiu naturalmente, por ser uma artista brasileira cuja prática é completamente atravessada por essas questões.”
Giufrida também ressalta o simbolismo do espaço que abriga a exposição — a sala do primeiro andar, projetada por Lina Bo Bardi como o principal ambiente para mostras temporárias. “É uma sala com peso histórico e técnico. Agora, com o novo prédio e cinco salas expositivas modernas, podemos abrir a sala expositiva do primeiro andar para artistas vivos, com mostras instalativas e um espaço mais fluido. É a primeira vez, em muitos anos, que ela recebe uma exposição desse tipo.”
A mostra reúne obras de diferentes momentos da trajetória de Tossin — pinturas, instalações e monotipias que mesclam corpo, plantas e pigmentos. O fio condutor é o ecofeminismo como lente para pensar o colapso ambiental. A artista parte da própria experiência de entrar na menopausa para criar uma analogia entre o esgotamento hormonal e o da Terra.
“Essa exaustão do corpo é também a exaustão do planeta. Pensar o clima pode parecer abstrato, mas quando trazemos a transformação para o íntimo, para o corpo, para este nosso microcosmos, ela se torna palpável”, diz Tossin.
Na série “Piante Vagabonde” (erva daninha) é onde esta relação fica mais evidente, onde a artista cria monotipias com parte do seu corpo nu e dessas ervas que são aquelas que "queremos eliminar ou não são as consideradas bonitas". "Este trabalho experimenta a profusão do meu corpo e da natureza", explica. Em uma das telas, fios de cabelos de Tossin também se juntam a este desenho. "Essa composição mostra como o meu corpo está se transformando, que também nos lembra sobre a morte e a finitude da vida. A nossa, de outros seres vivos e do planeta".
A artista também leva para o centro da exposição a dimensão familiar e afetiva. Em parceria com sua mãe, de 84 anos, criou uma série de obras chamada “Mortalhas para as Deusas”, feitas com impressões do corpo materno coberto por base de rosto, em tons de pele variados. “Quis pensar nas representações da natureza para além da ideia de fertilidade e juventude. Minha mãe é uma mulher idosa, um corpo que também é natureza”, diz Tossin.
Entre as obras centrais está “Volume Morto”, que ocupa todas as paredes da sala e foi feito com terra coletada em regiões atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. “Quando começamos a montar a exposição, Porto Alegre — cidade natal da Clarissa — estava sofrendo com as enchentes”, lembra Giufrida. “Ela falava comigo sobre familiares deixando seus apartamentos, e isso tudo entrou no processo. Decidimos incorporar essa dimensão real e urgente na mostra.”
O curador destaca que o trabalho “faz o museu entrar no problema”. “A Clarissa trouxe a ideia dos cavaletes, e no início eu hesitei, mas percebi que, ao colocá-los no centro da sala, o museu passa a estar dentro desse alagamento imaginário. A questão climática deixa de ser algo que se observa de fora — o público entra nela.”
A decisão de cobrir as paredes com pigmento de terra foi também um gesto político. “A Lina Bo Bardi concebeu essa sala dentro da lógica do cubo branco, do espaço neutro. Aqui, nós abolimos essa neutralidade”, explica Giufrida. “Ao transformar as paredes em lama, tiramos a arte de um lugar asséptico e colocamos o museu dentro do desastre. É uma proposta radical, mas que cria uma conexão imediata com o público.”
O impacto é direto. “Já durante a montagem, ouvi pessoas comentando: ‘no meu bairro também alaga’. Percebemos que não estávamos falando só de Porto Alegre — mas de uma realidade brasileira muito mais ampla”, diz o curador.
Com a irmã, Moema, ela assina “Manta”, uma colcha de retalhos feita com sacos reciclados da Amazon — um aceno crítico à exploração de recursos naturais e à lógica extrativista do consumo global. “O quilt é uma tradição doméstica e feminina, transformada aqui em reflexão política e afetiva. É também sobre fazer junto, sobre o gesto coletivo do cuidado.”
Giufrida conheceu o trabalho de Tossin em uma mostra na galeria Luisa Strina, que representa a artista. “Fiquei muito impressionado com os trançados que ela faz com as caixas da Amazon. Era uma crítica muito inteligente ao consumo e à imagem, tudo trançado junto, literalmente. Parecia óbvio que era o tipo de pesquisa que o MASP deveria acolher neste ano temático.”
Entre 2024 e 2025, o curador visitou a artista em Los Angeles, onde acompanharam o processo de montagem e discutiram o posicionamento das obras. “Foi em janeiro, e novamente, quando eu estava lá, aconteciam queimadas na Califórnia. Mais uma vez, o mundo atravessou o trabalho — e o trabalho respondeu. É isso que a exposição faz: não tenta isolar a arte da catástrofe, mas pensar a beleza e o desastre ao mesmo tempo.”
Para o MASP, a mostra representa também uma forma de reposicionar o trabalho de Clarissa Tossin no contexto brasileiro. “Ela já tem carreira internacional consolidada, com individuais em museus nos Estados Unidos, mas ainda não tinha tido uma individual em instituição no Brasil. O MASP entende que esse era o momento certo de trazer esse olhar, de atualizar a discussão sobre o que é arte ecológica e política feita por uma mulher brasileira”, afirma Giufrida. “É uma exposição importante, que relocaliza o trabalho dela e o conecta a uma nova geração.”
Entre terra, corpo e memória, “Ponto sem retorno” não é uma visão apocalíptica, mas um convite à consciência. “O termo vem das ciências ambientais — o ponto em que não se pode mais voltar à temperatura anterior da Terra. Mas não é sobre desistir. É sobre entender que o contexto mudou e precisamos mudar com ele”, reflete Tossin.









