Como Catherine O'Hara enganou a misoginia de Hollywood ao interpretar ‘mulheres estranhas’?
Aos 71 anos, a estrela de 'Schitt's Creek' e ‘Os Fantasmas Se Divertem’ deixa um legado de autonomia: em uma indústria que relega mulheres a papéis de suporte, Catherine O’Hara usou a excentricidade para garantir seu lugar como protagonista
"Estou morta. É uma jogada de carreira", diz a personagem de Catherine O'Hara em Os Fantasmas Se Divertem 2, lançado em 2024. A frase não demonstra só o timing cômico da atriz, mas fazia parte da construção de sua personagem, a artista plástica egocêntrica e peculiar Delia Deetz. Curiosamente, a própria O'Hara insistiu que Delia morresse na sequência para garantir um desfecho épico à sua trajetória.
Nesta sexta-feira (30), Catherine O’Hara morreu aos 71 anos, em sua casa em Los Angeles. A informação foi confirmada pelo empresário da artista à revista Variety. A causa da morte não foi revelada, mas a reportagem diz que ela estava lidando com uma “breve doença”.
O’Hara conseguiu manter uma autonomia criativa ao longo da carreira e ficou marcada por papéis simbólicos da cultura pop: nos anos 1980, com Delia Deetz em Os Fantasmas se Divertem; em 1990, como Kate McCallister, mãe de Kevin (Macaulay Culkin) na franquia Esqueceram de Mim; e, entre 2010 e 2020, manteve-se no auge da televisão com Moira Rose, em Schitt's Creek, papel que lhe rendeu reconhecimento definitivo e o Emmy de melhor atriz.
Suas performances miram em retratar mulheres peculiares, únicas e cativantes — sempre com senso de humor ácido e personalidades tridimensionais. Mesmo em papéis coadjuvantes, O’Hara ocupava o espaço de protagonista, cativando a audiência até quando interpretava vilãs ou figuras de moral duvidosa.
Foi justamente essa a arma que O’Hara usou para conseguir enganar a misoginia e o etarismo de Hollywood e manter-se reconhecida por sua contribuição ao cinema e à televisão.
Como Catherine O’Hara combateu o machismo desde o início da carreira
Catherine O'Hara começou a carreira na comédia de improviso, um universo predominantemente masculino. Em 1970, ela e a amiga Andrea Martin passaram a integrar o elenco dos programas de humor canadenses SCTV e Second City.
"Andrea e eu éramos as únicas mulheres [no SCTV]", lembrou O'Hara no documentário The Second City: First Family of Comedy, de 2012. "Se não escrevêssemos algo para nós mesmas, não estaríamos no show. E se estivéssemos, estaríamos servindo café ou interpretando a esposa chata de alguém. Decidimos que não seríamos apenas o acessório de ninguém."
O pacto criado entre as amigas era de que suas personagens fossem tão (ou mais) inteligentes, esquisitas e cômicas que os homens — o que contribuiu com a contratação de mais mulheres em temporadas seguintes.
"Sempre preferi interpretar mulheres que não tinham noção do quanto eram estranhas ou ridículas”, analisou em uma entrevista ao The New York Times, em 2020. “Era a minha forma de garantir que eu teria algo real para fazer, algo que não dependesse de ser bonita ou de ser o interesse amoroso. Se você é a 'estranha', você é o centro da sua própria história."
O’Hara sempre foi crítica ao papel limitador dado às mulheres. Em entrevista à Vulture, em 2019, ela afirmou que "a mulher está em um filme apenas para garantir ao público que o protagonista não é gay", questionando o machismo estrutural e o papel de mulheres enquanto acessórios que engrandecem a jornada dos personagens masculinos.
Quando a atriz começou a atuar, viveu a efervescência da segunda onda do feminismo nos Estados Unidos. Seu engajamento sempre se deu nos bastidores, sobretudo na contratação de mulheres.
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O’Hara também apoiou instituições como a Women in Film (WIF), sobretudo quando foi doadora da iniciativa #HireHerBack durante a pandemia, visando proteger a diversidade na indústria. Também atuou como "mentora informal" para novas gerações de atrizes e roteiristas, incentivando fortemente que mulheres escrevessem seus próprios papéis como forma de evitar o machismo da produção.
"Naquela época, não falávamos sobre 'feminismo' ou 'machismo' enquanto trabalhávamos. Estávamos ocupadas demais tentando ser tão engraçadas quanto os caras. O foco era fazer o trabalho tão bem feito que eles não tivessem escolha a não ser nos respeitar”, afirmou em um dos painéis para promover a discussão "Women in Comedy" da WIF, em 2021.
Catherine O'Hara viu carreira consagrada aos 66 com 'Schitt's Creek'
Mesmo que tenha conseguido tal prestígio, O’Hara falou abertamente inúmeras vezes sobre a escassez de papéis — e a forma como seguiam o padrão de “mães histéricas” ou “avós dóceis”.
O papel de Moira Rose em Schitt's Creek foi um divisor de águas: a personagem é uma ex-estrela de novelas que, após perder a fortuna, reinventa-se como a dramática matriarca de uma família forçada a viver em um motel.
Moira fez a atriz alcançar o "grand slam" da TV. Em uma única temporada (2020-2021), aos 66 anos, ela venceu o Emmy, Globo de Ouro, SAG Award e Critics' Choice. Consolidou seu reinado no Canadá ao conquistar o Canadian Screen Awards por cinco anos seguidos, tornando-se uma das atrizes mais premiadas da história da comédia televisiva.
Foi só então que muitos a consideraram, tardiamente, uma das maiores atrizes de sua geração. Para ela, a série foi um alívio justamente por permitir que interpretasse uma mulher mais velha que é vaidosa, ambiciosa e cheia de falhas.
“Eu não queria que Moira fosse apenas ‘a mãe'. Eu queria que ela fosse uma pessoa completa, com uma carreira que ela sentia falta, uma vaidade enorme e uma vulnerabilidade real”, afirmou à Variety após ganhar o Emmy. “É um alívio interpretar uma mulher que ainda é a estrela do seu próprio palco."









