Artista La Chola Poblete abre exposição individual no Masp: 'É como gritar sem ser censurada'
Mostra da argentina articula identidade queer, ancestralidade andina e cultura pop através de variadas linguagens visuais, como fotografia, vídeo e desenho
La Chola Poblete passou por uma ruptura simbólica ao abandonar o nome de nascença e subverter um epíteto colonial em assinatura artística. Historicamente utilizada como um insulto para se referir às mulheres indígenas do território andino, a expressão la chola foi convertida por ela em motivo de orgulho. “Quando passei pela transição [de gênero], a única palavra que ressoava em mim e que me fazia sentir próxima das minhas origens era chola. Ao adotar esse nome, sentia que era como agradecer aos meus ancestrais”, diz. O gesto, mais do que nominal, foi uma tomada de posição diante de uma história de apagamentos.
Agora, a multiartista argentina inaugura uma mostra individual no Masp, em São Paulo, com variadas linguagens visuais – incluindo performance, fotografia, vídeo e desenho – que aprofundam essa operação de ressignificação identitária e transgressão iconográfica. Intitulada Pop andino, a mostra recebe o mesmo nome do manifesto que escreveu em 2023, após receber o mérito de Artista do Ano do Deutsche Bank, e que viria a ser um fundamento orientador de sua arte. Nele, organiza as tensões entre ancestralidade, cultura de massa e dissidência de gênero que atravessam sua produção. “É como uma radiografia de tudo o que me constrói ou me construiu. Há partes em que digo que posso ser uma colher, que posso ser ar, que posso seruma serpente. Acredito muito nessa coisa de que a gente vai se construindo, se desconstruindo e se formando”, conta.
O texto define sua percepção de identidade como pessoa queer ao mesmo tempo que ressoa em sua arte, que se apropria de elementos da iconografia pop – como uma capa de disco de Lady Gaga – e de símbolos do imaginário pré-colombiano para desafiar legados coloniais e concepções de sexualidade.
“Quando coloco em uma composição uma imagem que não é só reconhecível na Argentina, mas também no mundo, isso gera uma narrativa diferente e possibilita que a mensagem da obra se torne universal sem que uma pessoa tenha que falar vários idiomas”, explica.
Num momento em que a produção artística latina está sob holofotes, a exemplo do protagonismo do cinema brasileiro em premiações internacionais e do sucesso global de canções em espanhol, a mensagem ecoa com ainda mais força. “Vejo como um ato rebelde”, sintetiza a artista. A exposição faz parte do programa que o Masp dedica à construção da identidade latino-americana em 2026, que conta ainda com mostras da peruana Sandra Gamarra Heshiki, da venezuelana Sol Calero e da guatemalteca Rosa Elena Curruchich.
O impacto da chegada das obras de La Chola – muitas delas inéditas – se torna ainda maior considerando o histórico de violência contra pessoas queer no Brasil, país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Em resistência, a artista inaugura sua mostra com ares de celebração. Há três anos, ela visitou a capital paulista pela primeira vez e diz que se sentiu acolhida. Agora, espera retribuir o sentimento: “É uma grande oportunidade de me mostrar sem filtros e de me sentir muito mais livre. É como gritar sem ser censurada”.









