Cultura
Por
Marília Kodic
, redação Marie Claire — São Paulo, SP


Françoise Vergès — Foto: Divulgação/Bayar Tayachi
Françoise Vergès — Foto: Divulgação/Bayar Tayachi

Se tudo ao ser redor é limpo e confortável, é provável que alguém esteja pagando o preço da sujeira e do desconforto. O que não vemos – ou aprendemos a não ver – é parte fundamental de como a desigualdade se organiza. Em seu novo livro Limpar o Mundo (Ubu; 304 págs.; R$ 89,90), a cientista política francesa Françoise Vergès desloca a ideia aparentemente banal de limpeza do campo doméstico para o político e revela como o capitalismo depende do trabalho invisível e da produção contínua de corpos e territórios considerados descartáveis.

Em entrevista exclusiva a Marie Claire, ela aborda as práticas que sustentam o capitalismo racial, a naturalização da desigualdade e a onda masculinista que ganha corpo frente a avanços nos direitos das mulheres. Ao examinar a associação entre branquitude, pureza e ordem, Vergès expõe como hierarquias coloniais persistem na nossa vida doméstica, na organização das nossas cidades, na nossa cultura e até na nossa linguagem. No fundo, nada é tão limpo quanto parece.

O capitalismo não produz apenas resíduo material – poluição, lixo, degradação ambiental –, mas também humano: populações descartáveis, vidas precarizadas. Por que esse sistema precisa constantemente produzir algo a ser “limpado”?
A divisão racional entre limpo e sujo caminha junto com o projeto de desumanizar pessoas. O branco passou a ser associado à pureza, à limpeza, ao bom cheiro. Enquanto isso, aqueles descritos como sujos ou malcheirosos eram os responsáveis por manter limpo o mundo dos brancos. Essa divisão se consolidou no século 19 com o discurso do higienismo, que acompanhou a ideia de colonização e a noção de que outros povos não eram limpos, embora haja diversos registros históricos de civilizações com práticas muito desenvolvidas de limpeza, banho e perfumaria. Portanto, essa ideia foi uma fabricação.

O Ocidente depende de trabalhos invisíveis como limpar, cozinhar, cuidar. Quem sustenta essa engrenagem?
Pense em como se constrói a vida da mulher branca burguesa. Seu corpo precisa de dez outros corpos para se manter saudável. Pessoas que cultivam o avocado da sua dieta, a instrutora de ioga; a mulher que cuida de seus filhos; a trabalhadora sexual que atende seu marido. Quando essa mulher diz “Eu conquistei isso”, há um apagamento de todos os corpos que precisaram ser explorados e despossuídos para que ela tivesse uma boa vida. E essa divisão foi criada com a colonização. Se você abre uma torneira e sai água limpa, isso é excepcional. Mas não há povo que não queira isso. O mundo foi estruturado para que alguns tenham esse privilégio, que nem deveria ser privilégio, enquanto outros são privados dele – e a culpa recai sobre eles: dizem que não sabem se cuidar, que são responsáveis pela própria situação. A divisão entre países ricos e pobres, entre a burguesia e os de mais, se sustenta nisso. Dizem que a desigualdade é culpa do mau governo, que as pessoas são preguiçosas, mas quem diz isso não olha para as estruturas que a produzem. Há uma normalização desse estado de coisas. A desigualdade não é como o sol que nasce todos os dias, é produto de forças sociais. Não é uma lei natural, é uma construção ideológica. Somos educados a não ver o que está diante dos nossos olhos. Ou vemos, mas não sabemos dar sentido. Vemos pessoas em situação de rua e seguimos nosso caminho. Pensamos: “São muitas”, e temos muitos afazeres, não dá tempo de pensar sobre.

Françoise Vergès — Foto: Divulgação/Bayar Tayachi
Françoise Vergès — Foto: Divulgação/Bayar Tayachi

O Brasil tem 6 milhões de trabalhadoras domésticas, a maioria mulheres negras. O que isso revela sobre nossa herança colonial e escravocrata?
É uma relação fundamentalmente exploratória. Essa trabalhadora é separada todos os dias de seus próprios filhos para oferecer afeto aos de outra pessoa. E ela não pode se irritar ou repreender. Precisa aceitar tudo e ainda demonstrar afeto. Ao mesmo tempo, a empregadora quer acreditar que é generosa. Mas essa mulher não é sua igual. O afeto funciona como forma de ocultar a relação de exploração e fazer com que as pessoas se sintam bem consigo mesmas. Elas dizem: “Sou muito boa com ela, dou roupas no fim do ano, dou brinquedos para os filhos”, mas isso não tem nada a ver com dignidade ou respeito. É caridade. E a caridade é uma forma de insulto. Mesmo que a trabalhadora aceite porque precisa, o gesto é humilhante. É como um patrão que diz tratar bem os funcionários, mas não paga um salário digno.

A limpeza também aparece simbolicamente na linguagem. Cidades “higienizadas”, bairros “revitalizados”, populações “removidas”: tudo remete à ideia de pureza. A linguagem tem papel em legitimar a gentrificação?
Tem papel central. Esse processo determina que bairros onde vivem pessoas pobres sejam abandonados: o lixo não é recolhido diariamente, a água é poluída, há mau cheiro. Isso reforça a ideia de que são lugares sujos e que quem vive ali é responsável por isso. Perguntam: “Como conseguem viver assim?”, como se fosse uma escolha, como se não quisessem ter um jardim, um parque para seus filhos brincarem.

Você já escreveu sobre como o museu ocidental se construiu sobre pilhagens coloniais e uma narrativa eurocêntrica. Há uma relação entre a ideia de limpeza e o modo como eles tentam “limpar” seu passado colonial?
Sim. Os museus europeus estão cheios de objetos saqueados. E são espaços extremamente limpos, o que faz com que os objetos se tornem mortos. Museus são grandes cemitérios. Não se pode tocar nos objetos. Você não pode levar flores ou oferendas à estátua de uma deusa. Se fizer isso, será enxotada. Aqueles objetos foram roubados aos montes e colocados em um lugar estéril. E isso reflete como o ocidente gostaria que fosse o mundo: sem afeto, sem alegria, sem amor, sem lágrimas. É o de sencanto, o achatamento, a morte.

Para cada masculinista que pode vir a enriquecer, há milhares de seguidores solitários”
— Françoise Vergès

Temos visto uma reação conservadora contra debates sobre colonialismo, racismo e reparação histórica. Por que reconhecer essas violências é ameaçador para tantas sociedades?
Porque reconhecer crimes do passado exigiria aceitar que eles merecem reparação. Os mesmos que dizem que crimes cometidos por pessoas negras devem ser punidos não reconhecem os próprios crimes. A lógica não se aplica a eles. Confrontar isso significaria o desmoronamento de sua narrativa – a de que foram eles que trouxeram a civilização, de que as pessoas estão melhores agora, de que antes viviam sob governos tiranos e que eles trouxeram liberdade. Isso significaria o colapso da narrativa sobre a qual construíram a ideia de si mesmos.

Também temos visto o crescimento do movimento red pill, de homens que colocam as mulheres como inimigas e responsáveis pela frustração masculina. Como você interpreta essa reação violenta em um momento em que os direitos das mulheres avançam?
É um retrocesso impressionante. Estamos no século 21 lutando por coisas pelas quais nossas avós já lutaram. Nossas conquistas são extremamente frágeis porque, para esses homens, qualquer direito conquistado pelas mulheres é visto como um insulto. A reação conservadora aconteceu de forma intensa na América do Sul porque os movimentos feministas foram muito fortes. Os homens reagiram com um “O quê? Voltem para a cozinha!” Houve um medo de ver o próprio poder e a própria dominação enfraquecidos. Vemos um movimento cheio de jovens homens que quer retornar a um passado que nunca existiu, e ao qual não é possível voltar, e isso os deixa furiosos. Muitas vezes eles também são racistas, homofóbicos e transfóbicos porque não suportam nada que desafie minimamente sua virilidade extremamente frágil.

Isso também se deve à imagem de masculinidade projetada por homens no poder?
Sim. É uma imagem totalmente tóxica. O que esses jovens veem como sucesso? Dinheiro, estar cercado por mulheres que parecem modelos, a ideia de poder fazer o que quiser com quem quiser e uma convivência constante com outros homens em qualquer forma de interação social. Você nunca os vê com um livro. Eles nunca falam sobre uma paisagem que admiram. Não há fonte de alegria na vida deles. É tudo sobre toxicidade e agressividade. O que eles não entendem é que essa forma de masculinidade não vai levá-los longe. Para cada homem masculinista que pode vir a enriquecer, há milhares de seguidores que permanecerão solitários.

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