O olhar ancestral de Kaê Guajajara: Como a diva pop indígena usa o passado para hackear o presente
Entre a herança indígena e a reinvenção na favela carioca, a artista fomenta a Música Popular Originária para um amanhã mais diverso
Passado, presente, futuro. Ao ler estas palavras justapostas, desenha-se uma linha em movimento – um avanço que costuma se firmar a partir de uma ruptura com vivências anteriores. Para Kaê Guajajara, no entanto, a passagem do tempo é compreendida como uma espiral. “Caminhamos olhando para quem veio antes. A ancestralidade é uma tecnologia de vida e ela guarda respostas sobre como existir sem destruir o lugar onde vivemos, enquanto o mundo urbano acredita muito na inovação como ruptura. Talvez o maior aprendizado seja lembrar que não existe futuro sem raiz.”
Estrela da nova campanha da LIVO, a cantora, escritora e ativista indígena foi convidada pela marca de óculos a refletir sobre o futuro. Partindo do pensamento de que uma árvore só se mantém em pé a partir de suas raízes, Kaê nos conduz para as origens que a formaram.
Nascida em Mirinzal, no Maranhão, mudou-se ainda na infância para o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Ainda que, à primeira vista, pareçam mundos completamente distintos, a artista relata que existem muitas semelhanças entre os espaços que a formaram. “Assim como nos territórios indígenas, a favela também é um território que sofre invasões, disputas de poder e violência sobre quem vive ali. É um lugar de muita força coletiva.”
Foi a partir dessa miscelânea cultural, unindo as duas comunidades, que a artista consolidou sua identidade, compreendendo-se como uma “indígena favelada”. Segundo ela, para a maior parte das pessoas, o entendimento da atual vivência dos indígenas ainda é limitado. “Quando ocupamos espaços urbanos, artísticos ou intelectuais, algumas pessoas estranham, como se aquilo fosse uma contradição. Isso revela mais sobre o desconhecimento da sociedade do que sobre nós.”
Com o desejo de atualizar o imaginário cultural do país, a artista fundou o selo artístico Azuruhu, cujo nome faz referência a um papagaio conhecido por cantar alto e voar em bando. Desde 2021, o grupo tem recebido reconhecimento por formar uma rede de apoio para o desenvolvimento da Música Popular Originária – gênero fruto da combinação de sons ancestrais com referências contemporâneas, como pop, rap e eletrônica.
Expoente do estilo musical, Kaê se tornou a primeira mulher indígena a cantar no Rock in Rio, em 2024, em uma performance permeada pela denúncia de violências históricas e a celebração da diversidade. O show contou com dançarinos, coreografia e muito brilho, em uma desconstrução do que se espera de uma apresentação musical de povos nativos. “Em vez de tentar caber em estereótipos, transformo presença em afirmação política.” O pensamento fundamenta o mantra que repete antes de seus shows: “Sou diva pop indígena”.
Kaê também se apoia na moda como linguagem criativa para ampliar a potência de sua mensagem. Articulando elementos urbanos e indígenas, como pinturas corporais e acessórios nativos, ela costura um hibridismo de referências que transformam o corpo numa extensão do ativismo. Nesse processo, ela não abre mão da responsabilidade ambiental. “Quando a moda começa a olhar para a sustentabilidade, ela se aproxima dos princípios que povos originários sempre defenderam. Estilo, inovação e consciência ambiental podem caminhar juntos.” São diversos pilares conectados pela visão de quem atua no agora para formar o amanhã. “Tento construir um futuro onde ser indígena não seja visto como distante ou folclórico, mas como uma força contemporânea que também molda o mundo hoje.”









