‘Arrume-se comigo para fazer um aborto’: em meio a proibições nos EUA, mulheres protestam nas redes normalizando a prática
Norte-americanas buscam desestigmatizar e reforçar importância da legalidade do procedimento ao fazer vlog no TikTok. Após revogação da Roe v. Wade, que regulamentou o aborto por 50 anos, país vive ofensivas judicias que restringiram ou baniram o acesso em diversos estados
“Arrume-se comigo para fazer um aborto medicamentoso”, diz uma mulher chamada Elise enquanto está em frente ao espelho fazendo skincare. É como se ela estivesse se preparando para passear no parque ou para encontrar uma amiga: aplica maquiagem, escolhe a roupa, vai ao mercado e compra absorventes.
O vídeo faz de Elise é uma das centenas de vlogs que mulheres dos Estados Unidos começaram a publicar no no TikTok para mostrar como fazer um aborto. Elas também compartilham suas experiências e informações sobre cuidados após interromper uma gestação.
"Quero me certificar de que vou ficar confortável, então comprei absorventes, refeições fáceis de fazer, ajustar minha bolsa térmica e deixar meu filme preferido no jeito", Elise continua em uma narração, antes de aparecer se deitando para assistir Mulan enquanto as pílulas abortivas fazem efeito.
Na mesma toada está Sunni, uma mulher de 30 anos que vive em Nova York e decidiu fazer um aborto via telemedicina porque não conseguia lidar com mais um filho – ela já é mãe solo de uma menina pequena. “Faça um aborto comigo”, ela convida, sorrindo e dançando ao som de um jazz ao estilo lounge.
Enquanto faz compras, aparece fazendo skincare e hidratação capilar ou mesmo leva a filha ao parque, ela vai avaliando os estágios de dor e cada passo a passo do processo – inclusive os momentos em que tomava cada pílula ou quando precisou conversar com amigos e familiares sobre o que estava sentindo. "Há um momento em que a dor é como uma cólica menstrual forte. Não é nada demais."
A própria Sunni afirma ter procurado vídeos como estes para saber o que ela iria enfrentar, mas não teve sucesso. Por isso, achou que postar seu vlog seria uma maneira de desestigmatizar o procedimento, criar uma rede de apoio e mostrar que o aborto é só um acontecimento comum na vida de mulheres, meninas e pessoas que gestam.
“É algo pelo qual as pessoas passam. Você passa por pessoas que estão passando por um aborto até que isso se pareça normal e aceitável, elas não vão conseguir se curar”, ela afirmou em uma entrevista reproduzida pelo The New York Times.
Vídeos como os de Elise e Sunni são compartilhados com hashtags como #abortion, #abortionvlog, #abortionrights ou #abortionawarness (aborto, vlog de aborto, direitos de acessar o aborto ou informações sobre o aborto, traduzindo respectivamente). Esses registros das estadunidenses passaram a aparecer com mais frequência no TikTok a partir de 2022. Em junho daquele ano, a Suprema Corte revogou o litígio judicial Roe v. Wade, que legalizava e regulamentava o aborto em todo o país desde 1973.
Ao mostrar seus abortos como um procedimento médico comum, elas têm o interesse de normalizar sua realização, além de reforçar a necessidade de uma rede de amparo, clínicas especializadas, organizações e disponibilização de medicamentos – todo aparato que, antes da queda da Roe, funcionava normalmente em todo país.
Os vídeos também se tornaram uma maneira de divulgar organizações que fazem interrupções de gestação ou fornecem informações – como Plan C Pills, Planned Parenthood e Hey Jane – e dados relacionados à segurança do procedimento.
Revogação da Roe v. Wade impulsionou vlogs de aborto nos EUA
Após a revogação da Roe, o país vive um cenário de incertezas em relação ao acesso ao aborto, com cada estado podendo determinar as diretrizes que desejarem dentro do território; além de batalhas judiciais que buscam uma criminalização federal ou mesmo ameaças de retirar os medicamentos abortivos das farmácias.
Alguns estados, como Texas, Tennessee e Alabama adotaram medidas que restringem ou proíbem o acesso ao aborto. Neste mês, por exemplo, a Suprema Corte do Arizona restabeleceu uma lei de 1864 que proíbe o aborto quase que completamente, exceto quando for preciso salvar a vida da pessoa gestante.
Enquanto isso, outros como Califórnia e Nova York continuaram legalizando o procedimento. Em janeiro de 2023, a Carolina do Sul anulou uma lei que proibia o aborto após a sexta semana de gestação e definiu o procedimento como “direito constitucional”.
O assunto se tornou palco de uma grande disputa social e política no país. Inclusive, se tornou uma pauta chave que pode definir a eleição presidencial dos EUA, que acontece em novembro deste ano, já que 67% dos estadunidenses adultos são contra a decisão que derrubou a Roe, segundo pesquisa organizada pela Faculdade de Direito da Universidade Marquette em fevereiro deste ano.
O presidente Joe Biden, que tenta reeleição pelo partido democrata, tem investido numa campanha intensa em que enfatiza ser favorável à legalização do aborto. A vice-presidente Kamala Harris também participa da campanha, em que inclusive consistiu numa visita à uma clínica do Planned Parenthood em Minnesota, em março deste ano.
Por outro lado, ele pode enfrentar o ex-presidente republicano Donald Trump, que teve como mote em 2016 avançar em uma criminalização federal. No entanto, Trump voltou atrás neste mês, em que afirmou que não sancionaria um banimento nacional.
Com os vídeos, as TikTokers também pretendem organizar uma forte mobilização em torno da manutenção do direito ao aborto e sua essencialidade. Também buscam enfatizar a importância da garantia de venda de medicamentos nas farmácias e dos serviços de telemedicina ou de aborto cirúrgico. O medo das estadunidenses é que, com o aborto novamente relegado à clandestinidade, a taxa de morte por tentativa de aborto retome no país.
Vídeos sobre aborto desencadeiam criação de grupos de apoio
As mesmas hashtags usadas por mulheres que querem compartilhar seus vlogs de aborto também são usadas por usuárias do TikTok que são antiaborto, o movimento autodenominado pró-vida. Ilustrações de fetos sendo “assassinados” no útero, mulheres que se arrependeram de fazer um aborto ou falas de cunho religioso aparecem tanto em vídeos como em comentários das vlogers.
“Meu Deus, como você se permitiu chegar a ficar grávida se você não iria manter a gestação?” e “A culpa é sua. Olhe para esse pobre bebê. Ele morreu por sua culpa. Por favor, se arrependa” são alguns comentários deixados no vlog da TikToker Mikaela Attu, que foi assistido 3,6 milhões de vezes.
Na verdade, todo o perfil de Mikaela é dedicado a compartilhar os impactos do aborto em sua vida – inclusive o que ela e outras mulheres chamam de abortion grief, uma espécie de luto e sentimento de ansiedade que pode acompanhar algumas pessoas que tomam essa decisão. Ela é seguida por 22 mil pessoas, mas acumula em todos os vídeos 2,9 milhões de likes.
No entanto, comentários negativos são considerados menos comuns nestes vídeos, e tendem a ser superados por mensagens de apoio de outras pessoas – seja quem passou pelo mesmo ou não. "Só de compartilhar e ser vulnerável, você se tornou motivo pelo qual outras mulheres vão se sentir seguras e confortadas com suas decisões", celebrou uma mulher nos comentários do vídeo de Mikaela. "Vou fazer o meu na semana que vem. Obrigada. Me sinto muito melhor depois de ver isso", diz outra mulher.
No vídeo, Mikaela mostra a si mesma deitada com o cachorro e escovando os dentes horas antes do procedimento, e depois passeando no parque e ganhando uma massagem do marido: "Fazer um aborto foi, honestamente, uma experiência muito pacífica para mim. A equipe foi muito gentil e solidária. Durante todo o procedimento não senti nenhuma dor física e depois que o efeito da medicação passou me senti completamente bem, além de me sentir um pouco maluca. [...] Você não está só".
Recomendações
Mulheres brasileiras também aparecem com frequência nos comentários dos vídeos. No Brasil, o aborto é legal apenas em casos de estupro, gestação de feto anencéfalo ou risco de vida à pessoa gestante.
No país, um autoaborto pode levar a detenção de um a três anos, segundo o Artigo 124 do Código Penal. O Artigo 126 também determina que profissionais de saúde que fazem aborto consentido pela pessoa gestante podem pegar prisão de um a quatro anos.
“Que bom que você tem o privilégio de ter um aborto seguro, em casa”, escreveu uma usuária brasileira nos comentários do vlog da norte-americana TikToker Monica, The Human, visto 4 milhões de vezes. Nele, Monica mostra a agenda com os horários de quando deve tomar cada remédio e faz um passo a passo de como administrá-los. “Espero que um dia todas nós possamos ter essa chance”, finaliza a brasileira.









