Entrevista do Mês
Por
Camila Cetrone
e
Gustavo Assumpção
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


Anna Muylaert: diretora lança filme O Clube das Mulheres de Negócios, em que inverte as posições de gênero para discutir o patriarcado — Foto: Gleeson Paulino
Anna Muylaert: diretora lança filme O Clube das Mulheres de Negócios, em que inverte as posições de gênero para discutir o patriarcado — Foto: Gleeson Paulino

Ao abrir as portas de sua casa na Zona Oeste de São Paulo para Marie Claire, Anna Muylaert estava disposta a falar. Com uma vida dedicada ao cinema, a cineasta se mostra inquieta com as transformações da indústria – sobretudo as proporcionadas por uma audiência cada vez mais ansiosa e as novas fórmulas ditadas pelas plataformas de streaming. Reconhecida e respeitada por seu trabalho, sente um certo desinteresse do público. “As pessoas estão indo menos ao cinema, à sala física. Os números dos filmes brasileiros estão muito baixos, o que é assustador”, conta.

Muylaert oferece um café forte e sem açúcar, como aprendeu a tomar, e se senta confortavelmente à beira de seu jardim. Na sala, pôsteres de filmes como Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, e de suas próprias obras, em versões em múltiplos idiomas. Enquanto sua cachorra, Lua, e os três gatos dão boas-vindas à reportagem, Muylaert detalha com entusiasmo o processo de criação de seu novo longa-metragem, O Clube das Mulheres de Negócios, produzido pela Glaz Entretenimento, que chega aos cinemas este mês.

Na obra, a diretora deixa de lado o tom afetivo e propõe uma sátira ácida sobre o patriarcado, reimaginando um Brasil em que as mulheres são as detentoras dos privilégios de gênero e formam uma elite que tem o poder de decisão. Esse jogo de inversão – “raivoso”, como define – quer espelhar a dominação que os homens repetem incessantemente há séculos. “Os personagens são como as figuras históricas do presente, mas também do passado. Se você vai ao modernismo, em O Rei da Vela [de Oswald de Andrade], muitos deles já estão lá. É o patriarcado e suas figuras”, conta.

Após se formar em Cinema na Escola de Comunicações de Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), estreou dirigindo curtas na década de 1980 e se envolveu em projetos infantis. Em 2002, lançou o primeiro longa, Durval Discos. Mas foi em 2015 que ganhou projeção internacional com Que Horas Ela Volta?, com produção assinada pela Gullane. O filme levou prêmios em Sundance e Berlim, além do Troféu APCA, Abraccine e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Considerada um clássico moderno, a obra confrontou as relações entre trabalhadoras domésticas e as elites, marcadas pela herança colonial e escravocrata que insiste em permanecer.

A Marie Claire, a cineasta ainda relembra as idas aos cinemas de rua durante a juventude e diz que está esgotada depois de uma sequência incessante de trabalho. “Trabalhei tanto que me sinto exausta.”

MARIE CLAIRE O que a levou a fazer O Clube das Mulheres de Negócios?
ANNA MUYLAERT
Foram dois momentos. Primeiro em 2015, quando estava viajando o mundo [pelo sucesso de Que Horas Ela Volta?] e sentindo as mulheres muito inflamadas porque exerciam uma função e não tinham crédito. Tinha chegado ao limite. Depois, em 2017, teve o Me Too [movimento contra o assédio sexual], que foi uma explosão daquele pus que estava guardado. As mulheres passaram a falar e a sociedade entendeu que essa era uma questão que precisava ser olhada e transformada. Veio o golpe da Dilma, a eleição do Bolsonaro, a nova onda da direita. Pensei num filme de inversão que discute regras do patriarcado e do capitalismo de forma geral.

MC O filme tem uma linguagem visual muito marcante. Como trabalhou esses signos?
AM
Nossa ideia era fazer um filme tropicalista, modernista, colorido. Ele não é muito baseado na realidade. O filme todo foi por esse caminho da alegoria, do Carnaval, do Joãosinho Trinta. Tem um figurino que amo, que é de um casal [formado por Irene Ravache e André Abujamra] que usa a mesma roupa, o que dialoga com um certo tipo de casamento em que os dois formam um único organismo.

MC Já definiu O Clube como um filme raivoso. Por que essa mudança?
AM
Vi isso acontecer na sociedade brasileira de forma geral. É parte dessa divisão que surge a partir da internet. Há uma radicalização, e o filme acompanhou isso.

MC O que espera que O Clube cause nos espectadores?
AM
Gostaria que as mulheres rissem e os homens refletissem. É o que tem acontecido. Quando o filme toca na questão de abuso de forma invertida, estamos falando com as mulheres. No elenco, todo mundo já sofreu essa situação. Para nós, isso é extremamente comum e para os homens também. A questão do abuso sexual está nos dois gêneros.

MC Durante o Festival de Gramado, a atriz Cristina Pereira [que integra o elenco] revelou que foi estuprada aos 12 anos. Como foi proporcionar este momento de escuta?
AM
A Cristina não planejou nada, isso não fez parte da divulgação do filme. Ela disse que foi um vômito, saiu de dentro. Falou que quando chegou na escola [após o estupro], toda desgrenhada, as freiras não perguntaram nada. No filme, essa situação se inverte. É um ponto nevrálgico. Sofrer o abuso já é dolorido, mas não ter escuta é tão dolorido quanto. Ali, numa coletiva apoiada pelo elenco e pelo filme, pôde finalmente falar. Nessa dinâmica existe o fato, o medo da vítima e o medo de denúncia. Nossa cultura protege o abuso, e temos que começar a falar disso.

"Se o país não tem um cinema que reflita sua própria cultura, ele vai buscar em outra. É importante fazer um cinema em que as pessoas possam se ver" A.M.

MC O roteiro passou por uma consultoria?
AM
Sim. As pautas identitárias hoje são uma questão importante. Consultamos pessoas diversas para entender como elas se sentiam. Escolho pessoas inteligentes, da área, críticas e sinceras.

Cena de O Clube das Mulheres de Negócios, novo filme de Anna Muylaert — Foto: Divulgação
Cena de O Clube das Mulheres de Negócios, novo filme de Anna Muylaert — Foto: Divulgação

MC Você considera esse processo uma autocensura?
AM
Não. Estamos num processo de reorganização do olhar do passado que está carregado de estigmas, preconceitos e visões preestabelecidas. Não sabemos tudo sobre tudo, então acho importante ouvir.

MC Vinte anos após seu primeiro longa, o que mudou no cinema brasileiro?
AM
Sou fruto da Retomada [período de ressurgimento do cinema nacional após a redemocratização]. Entendo que esse movimento acabou no golpe da Dilma. Estamos agora em uma nova fase que ainda não foi historiografada. Entraram os streamings, o que trouxe uma nova área ao mercado, uma quantidade de dinheiro grande, mas privado. Antes, a gente demorava anos para captar, eram só alguns editais, menos profissionais. Minha impressão é que antigamente passávamos por várias fases até poder dirigir um longa. Agora, há mais dinheiro, é menos demorado. Mas há dois mercados simultâneos, o público e o privado. Há centenas de filmes prontos com apoio da Ancine, mas nem todos serão lançados.

MC Por que isso acontece?
AM
A distribuição ficou muito mais difícil. Com o streaming e o vício em internet, as pessoas estão indo menos ao cinema, à sala física. Depois da pandemia isso ainda piorou. Os números dos filmes brasileiros estão muito baixos, o que é assustador.

"Vejo uma inocência nessa expectativa [pelo Oscar]. O cinema brasileiro não depende disso" A.M.

MC O governo federal retomou a política da Cota de Tela. Acredita que isso será útil?
AM
Vai, mas não resolve. Me arrisco a dizer que o vício no celular e em narrativas curtas está desinteressando as pessoas nas obras de uma hora e meia, que é a duração de um longa-metragem. As pessoas estão assistindo em vários pedaços, 20 minutos hoje, 20 minutos depois. A impressão que dá é que estamos muito ansiosos. A hipervelocidade, como sociedade, está afetando tudo, e o audiovisual está na ponta de lança dessa alteração. Antigamente a gente via um filme e discutia durante uma semana. Agora, nada tem tempo de digestão.

Anna Muylaert: Se o país não tem um cinema que reflita sua própria cultura, ele vai buscar em outra — Foto: Gleeson Paulino
Anna Muylaert: Se o país não tem um cinema que reflita sua própria cultura, ele vai buscar em outra — Foto: Gleeson Paulino

MC Como pensa a chegada dos streamings para o mercado audiovisual?
AM
O produtor deixou de ser independente para ser um prestador de serviço. Os americanos estão no topo e inseriram uma nova forma de trabalhar, diferente do que o cinema construiu ao longo de sua história. O diretor já não tem a mesma importância na hierarquia, e o streaming está muito orientado pelos algoritmos – o que altera a forma de fazer filmes. Sinto que muitas coisas foram sucateadas. Por exemplo, tem a perda da questão da autoria. Mas há caminhos. Cito um exemplo: a série The White Lotus [da HBO] não é autoral, é comercial, mas tem um autor [Mike White] que é também diretor e que escreveu tudo. O olhar dele faz diferença, faz os personagens terem sangue, serem fascinantes. Estamos tendendo a personagens menos sanguíneos.

MC Isso muda a forma de criar?
AM
Sim. Há uma colonização acontecendo na produção audiovisual do mundo inteiro por parte dos americanos. O dinheiro é deles. Quando entram, contratam uma produtora independente, dona de seu negócio, que se torna prestadora de serviço. Essas produções se guiam pelos números e fórmulas, mas estão pecando por falta de humanidade. É tudo uma adivinhação de que aquilo vai dar certo, mas não tem necessariamente um ponto de vista, uma sensibilidade. Sinto que existe uma sucateação das ideias – e dos profissionais também.

"Antigamente a gente via um filme e discutia durante uma semana. Agora, nada tem tempo de digestão" A.M.

MC O dinheiro das leis de incentivo é suficiente para fazer cinema?
AM
Depende do filme. Antes dava, agora isso está se restabelecendo. De 1995 para cá, o cinema brasileiro foi evoluindo, técnica e artisticamente. Em 2016, quando Dilma saiu, o Brasil estava com cinco filmes por ano no Festival de Berlim, frequentávamos o grande circuito. Neste ano tivemos o Walter Salles em Veneza [Ainda Estou Aqui]. Em Cannes estavam Baby, do Marcelo Caetano, e o filme do Karim [Aïnouz, Motel Destino]. Agora, sinto que a produção está mais desorganizada.

MC Por quê?
AM
Acho que houve um reflexo dos tempos do Bolsonaro. O dinheiro diminuiu sob o mote do “mamar nas tetas do governo”. A visão cultural da direita foi muito propagada. Se o país não tem um cinema que reflita sua própria cultura, ele vai se espelhar em outra. É importante haver produtores independentes para fazer um cinema em que as pessoas possam se ver, se historiografar até.

MC Você citou Ainda Estou Aqui, que pode ser indicado ao Oscar. Que Horas Ela Volta? também foi cotado. Como foi para você?
AM
Realmente estive em algumas listas, tinha chances. Se tivesse acontecido, seria incrível, mas não tinha uma grande expectativa. Quando não entrou, descobri que era difícil um filme protagonizado por uma mulher [a atriz Regina Casé] de meia-idade entrar. Até então o corpo votante só tinha membros americanos, eles preferiam as meninas jovens. Em 2016 veio a abertura da Academia, começaram a convidar mulheres – eu incluída –, pretos e estrangeiros para que o quórum ficasse mais democrático. De lá para cá tudo mudou, a ponto de um filme coreano ter ganhado Melhor Filme [Parasita, de Bong Joon-ho, em 2019].

MC Como vê a torcida do público pela indicação do filme de Walter?
AM
Entendo que o Oscar é o grande prêmio. Seria incrível para o cinema brasileiro e para o diretor que o representa. Para ser indicado a Filme Internacional, é preciso ter um roteiro muito claro: precisa ganhar um prêmio importante na Europa, ter um bom orçamento e fazer um sucesso incrível em seu país de origem. Não deveríamos falar em Oscar antes que o filme cumpra tudo isso. Agora, vejo uma inocência das pessoas nessa expectativa, é uma coisa que acho tola. O cinema brasileiro não depende disso.

MC Quais são suas primeiras memórias como espectadora de cinema?
AM
Via os grandes diretores dos anos 1970: Polanski, Antonioni, Fellini. Depois, resolvi fazer Cinema, era mais Godard, Glauber, o cinema mais libertário. Aí vieram Wenders, Herzog, os alemães. Os americanos vieram por último. Sempre preferi filmes locais que tratem de questões locais. Por exemplo, ano passado vi Anatomia de uma Queda [da francesa Justine Triet], que ganhou Cannes. Fiquei louca com o filme.

MC Quais cinemas frequentava quando começou a se interessar pela área?
AM
O Cine Bijou, Belas Artes, os cinemas da galeria Lorena, do Conjunto Nacional. Era o tempo dos cinemas de rua. Eu morava em Alto de Pinheiros, pegava um ônibus que subia a Consolação e parava ali.

MC Você pôde fazer escolhas, estudou em uma universidade de ponta e tem um pai que faz parte da elite intelectual do país. Como reconhece o próprio privilégio?
AM
Estudei no Palmares, uma escola cara, o que me permitiu entrar na USP já na primeira tentativa. Em casa, tinha informação, gostavam de música. Conheço a história da música brasileira. Minha mãe tocava violão, as peças do Villa-Lobos, que inclusive já utilizei nos meus filmes. São heranças culturais que só posso agradecer. Mas, desde cedo, tive uma visão crítica sobre classe. Estando em uma elite, percebia muitas atitudes que, mesmo criança, entendia como estranhas.

MC Quais?
AM
O tratamento com as empregadas, não só na minha casa, como na casa de todas as minhas amigas. Elas eram “da família”, mas na hora da foto saíam de quadro. Não entendia bem esse limite entre a presença autorizada e a não autorizada. Não teve uma conversa com ninguém, foi uma percepção, de cara, instintiva, que eu definiria como humana.

"As produções [para o streaming] se guiam pelos números e fórmulas, mas estão pecando pela falta de humanidade" A.M.

Anna Muylaert sobre animação de brasileiros para indicação ao Oscar: 'O cinema brasileiro não depende disso' — Foto: Gleeson Paulino
Anna Muylaert sobre animação de brasileiros para indicação ao Oscar: 'O cinema brasileiro não depende disso' — Foto: Gleeson Paulino

MC Quais são suas estratégias para não ser engolida pelo machismo?
AM
Terapia a vida inteira. Desde os 11, quando fiz um trabalho sobre feminismo na escola, queria ter meu próprio dinheiro, ser independente. Depois vi que dinheiro não é garantia de muita coisa: não era só liberdade financeira, mas também autoestima. O cara sempre é definido como grande, promissor, e a mulher é sempre a zebra, é avaliada pela aparência física independentemente do trabalho que fizer. No começo da carreira eram poucas mulheres e eu tinha a determinação de que aguentaria todo tipo de humilhação porque não queria ser jogada fora. Aguentei muita coisa, fui muito forte. Lembro que nas primeiras vezes que falei que não gostei do jeito que fui tratada, tinha pânico, achava que ia ser demitida. Não é por ter uma carreira que isso parou. São sombras que toda mulher sente.

MC O sucesso de Que Horas Ela Volta? colocou você no cenário internacional e a aproximou do público. Sua forma de fazer cinema mudou?
AM
Mudou minha posição no mundo, me fez ser reconhecida na rua, coisa que nunca imaginei. É um filme que gera muita gratidão. Mas também tenho uma clareza de que não quero repetir aquilo, não vou tentar transformar numa fórmula. Sempre fiz filmes que se diferenciam um do outro. Tenho orgulho do filme, do esforço que botei ali e do que ele causou. Foram 19 anos para chegar nesse resultado. Foi meu primeiro projeto, mas fiz quando percebi que já tinha maturidade, principalmente na direção. Mas, desde a primeira versão, tinha certeza de que o tema valia e que queria honrar uma classe.

Anna Muylaert: 'Antigamente a gente via um filme e discutia durante uma semana. Agora, nada tem tempo de digestão' — Foto: Gleeson Paulino
Anna Muylaert: 'Antigamente a gente via um filme e discutia durante uma semana. Agora, nada tem tempo de digestão' — Foto: Gleeson Paulino

MC Para você, qual o maior legado de Que Horas Ela Volta?
AM Organizei sessões para empregadas em que elas saíam chorando, falando: “Então aquilo era humilhante mesmo”. E era. O filme deu o aval para reconhecer isso e perguntou à classe alta se é preciso tanta divisão. Quando lancei, eu dizia que esperava um milagre: que as empregadas vissem, mesmo com o preço do ingresso sendo proibitivo. O filme teve tanto impacto, um boca a boca tão grande, que lembro que todo dia derrubávamos links com 300 mil views na pirataria. Elas viram.

MC O que um cineasta precisa ter?
AM
Acredito que existe um mar das histórias e a gente só vai lá e pega uma. Esse momento de escolher o projeto é muito delicado, exige muita sensibilidade e silêncio para identificar o que brilha. Não pode querer fazer sucesso, tem que ter respeito. Aprender a gerar esse silêncio interno é o que o cineasta não pode perder.

MC Quando sente que escolheu a ideia certa?
AM
Quando tenho certeza. Muitas vezes isso só vai aparecer no terceiro ou no quarto tratamento, o que é louco também. Esse reconhecimento, essa sensibilidade para saber onde tem ouro ou não, é igual a afinar um instrumento. Ou está afinado, ou não está.

MC Quais são seus próximos projetos?
AM
Em 2025 vou lançar A Melhor Mãe do Mundo, que escrevi na pandemia, e logo começo a rodar Geni e o Zepelim. De 2015 para cá, trabalhei tanto que me sinto exausta, exaurida. Vou parar por um ano, tirar um sabático, descansar. É muito importante parar de trabalhar justamente para ter condição de pegar a coisa pura. Do jeito que estou, tá difícil.

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